Religião

11/10/2019 | domtotal.com

Deus à imagem e semelhança

O domínio social do homem branco estabeleceu a imagem de Deus como sendo a sua.

Imaginar Deus como uma mulher preta só poderia ser herético em uma cultura patriarcal caucasiana.
Imaginar Deus como uma mulher preta só poderia ser herético em uma cultura patriarcal caucasiana. (Shelly Shell/ Unsplash)

Por Cassiana Matos de Moura*

A cada ano as mulheres vêm ganhando espaço em nossa sociedade, isto graças à luta do movimento de emancipação e igualdade entre os gêneros, o feminismo. O movimento feminista data dos anos 1890, embora haja traços de suas reflexões desde os anos 1700. Dividido em quatro grandes ondas, o feminismo sempre encontrou como notável empecilho o universo religioso. A estrutura religiosa preponderante, a cultura judaico-cristã, sempre agiu como uma inimiga eminente do movimento de emancipação da mulher e pela luta pela igualdade de gêneros, sobretudo a Igreja Católica, que definia as mulheres como o “vaso mais frágil”.

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É fundamental entendermos, através de uma análise mais crítica, que a construção do imaginário religioso monoteísta patriarcal se dá pela dominação dos homens na sociedade. As religiões ditas como pagãs possuíam um universo de possibilidade de relações com o sagrado não estritamente masculinizado. Isto fica claro quando nos atemos às religiões de matriz africanas, indígenas e pagãs. O universo sagrado politeísta enxerga o feminino como o que há de mais sagrado no universo, pois o feminino, a mulher, gera a vida, e mais sagrado é a vida.

A difusão histórica mais forte dos conceitos religiosos patriarcais, apresenta uma outra particularidade, a propagação do imaginário cristão que temos hoje, além de masculinizada, é branca, o que não só exclui as mulheres em si, mas as mulheres negras tornam-se duplamente excluídas.

Mas, e se pensarmos a ideia de Deus como imagem e semelhança de sua criação? Chegaremos a uma reflexão entendida pela cultura patriarcal caucasiana dita como herética. Se Deus é minha imagem e semelhança, logo, Deus é uma mulher preta!

Essa reflexão só é possível sob uma perspectiva judaico-cristã a partir das discussões promovidas pelo feminismo. Entender-nos como não objetos, ou como não sendo o “vaso mais frágil” e sim como imagem e semelhança de Deus é fundamental para questionarmos os papeis impostos pela sociedade.

Na interpretação das escrituras sagradas, que é relevante ressaltar, em geral escritas por homens, nos dá uma infinidade possibilidades de interpretações e reformulações no que diz respeito a nossa relação com o sagrado. A partir do momento em que entendemos no sentido mais amplo que somos a imagem e semelhança de Deus, a relação com o sagrado se torna mais acolhedora e terna.

Deus pode ser mulher, Deus é mãe. Afinal, não há uma prova concreta do que realmente seja Deus, pois é o que nos transcende, é metafísico.

Ao interpretarmos Deus como feminino damos poder às mulheres, o que na estrutura patriarcal não é visto com bons olhos. Daí, caçar bruxas, tratar-nos como heréticas e impuras. Afinal, mulheres empoderadas mudam o mundo. Mas imagine você, mulheres pretas e empoderadas, entendendo-se como imagem e semelhança do próprio Deus!

*Cassiana Matos de Moura é mestra em Ciências da Religião, graduada em Pedagogia e professora de Ensino Religioso.



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