Religião

11/10/2019 | domtotal.com

Negritude e religião

Festejar a Negra Aparecida deve nos levar a reconhecer que superamos mal a escravidão.

Os relatos de que o enegrecimento da imagem da Aparecida tenha se dado pela fuligem das velas não pode e não deve, de forma alguma, tirar a mística e o simbolismo de que ela é a Virgem Negra.
Os relatos de que o enegrecimento da imagem da Aparecida tenha se dado pela fuligem das velas não pode e não deve, de forma alguma, tirar a mística e o simbolismo de que ela é a Virgem Negra. (Thiago Leon/ A12)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Doze de outubro é o dia em que se celebra a festa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A Virgem Negra, mãe dos empobrecidos e empobrecidas. A história do "aparecimento" se distingue de tantas outras histórias nas quais Maria, a mãe de Jesus, apareceu ao redor do mundo: pescada, em dois momentos, a imagem da Senhora Aparecida passou a acompanhar os empobrecidos e empobrecidas, os injustiçados e injustiçadas da história brasileira.

Os relatos de que o enegrecimento da imagem da Aparecida tenha se dado pela fuligem das velas não pode e não deve, de forma alguma, tirar a mística e o simbolismo de que ela é a Virgem Negra. Na história brasileira – marcada pelo exilamento forçado de inúmeros negros e negras de África, para aqui serem escravizados – é bastante simbólico que tenhamos a consciência de que a devoção à Senhora da Conceição não nasceu aqui, também foi trazida: e que aqui, uma vez encontrada, deixou-se enegrecer.

Festejar a Negra Aparecida deve nos levar a reconhecer que superamos mal a escravidão. As sequelas desta abominação estão aí, sentidas na pele, todos os dias, por mulheres e homens negros. Enquanto houver quem teime em dizer que superamos o racismo em nosso país ou minimize os efeitos da escravidão e do racismo tão pungente em nossa sociedade, não será possível que cicatrizemos essa ferida aberta de nossa história. Cicatrizar a ferida, importa ressaltar, não deve jamais significar dizer ou fingir que ela não existiu.

As religiões presentes em nosso país têm a questão da negritude como um elemento que não deve ser ignorado. É preciso refletir sobre a presença negra em suas fileiras, sobre o protagonismo dos negros e negras nessas tradições, sobre as possíveis imagens embranquecidas de Deus e/ou das divindades por elas cultuadas, sobre o modo como essas religiões contribuem para a manutenção do racismo estrutural de nossa sociedade...

Importa destacar, aqui, o papel das religiões afro-brasileiras, que são o carro-chefe nessa reflexão e valorização da negritude em nosso país. Eis aqui uma pauta necessária e possível para o diálogo inter-religioso tão urgente em nossa sociedade, que tem visto crescer a violência religiosa, fruto do racismo e de uma falsa ideia de superioridade de umas tradições em relação às outras.

Não podemos aceitar, sem que pese nossa consciência, que jovens negros sejam os que mais morrem vítimas das injustiças; tampouco que a população negra seja a que ocupe, em número estrondoso, as celas desumanas das cadeias e presídios de nosso país, sem ao menos terem tido direito a um julgamento. É também papel das religiões, por uma ética nascida da fé, pautar essas questões e se envolver no debate público, no processo de educação que supere o racismo, na valorização da cultura e da cosmovisão negras.

O Dom Especial desta semana dedica os três artigos a essa reflexão tão importante. O cristianismo, religião majoritária no Ocidente e, em consequência, em nosso país, precisa fazer um mea culpa sobre a maneira como lidou, ao longo da história, com a questão da negritude, inclusive embranquecendo a figura de Jesus de Nazaré. É o que nos ajuda a refletir Matheus Souza Gomes, no artigo Por um cristianismo que assuma o Jesus Negro. É fato que a reflexão precisa se aprofundar no que diz respeito à questão da mulher e, nesse caso, da mulher negra. Essa abordagem do feminismo negro, a partir da imagem que se tem de Deus, é o que propõe Cassiana Matos de Moura, no artigo Deus à imagem e semelhança. Por fim, César Thiago do Carmo Alves encerra nosso Especial com o artigo Protagonismo negro no catolicismo, no qual resgata a importante teologia negra, que marca os negros e negras como verdadeiro lugar teológico, para, a partir disso, refletir sobre a tarefa da inculturação da negritude pela Igreja Católica.

Boa leitura!



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!