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11/10/2019 | domtotal.com

Censuras

A marcha do retrocesso governamental na União teve início ainda nos tempos sombrios da micro era Temer.

Não há dúvida de que a proibição direta tem prejudicado ostensivamente o ambiente das artes.
Não há dúvida de que a proibição direta tem prejudicado ostensivamente o ambiente das artes. (Reprodução)

Por Eleonora Santa Rosa*

A sociedade brasileira ainda não se apercebeu dos impactos e desdobramentos das ações de cunho censório explícito ou subjacente promovidas pelas instâncias governamentais, em diversos níveis do poder público.

Não há razão e não são aceitáveis os gracejos e comentários jocosos que jorram diariamente por meio de declarações autoritárias, discricionárias e preconceituosas, lamentáveis por seu teor e objetivo, de ‘autoridades’ temporárias, vaidosas e ensandecidas, que têm se esbaldado na mídia, dando shows de indigência intelectual, com direito a ressentimentos e incompreensões eivadas de ranço autoritário e fantasias de combate a ‘ideologias estranhas´.

Para além do bloqueio de espaços públicos para a realização de produções que não se coadunam com as vontades e humores oficiais, alastra-se pelo território nacional a política de extinção ou suspensão de editais, programas e outros instrumentos em vigor há anos, com o claro efeito de asfixia, em cenário agravado pelo agressivo corte das fontes de financiamento, patrocínio e apoio às atividades artísticas e culturais.

A marcha do retrocesso governamental na União teve início ainda nos tempos sombrios da micro era Temer, que, de modo mais estruturado e persecutório, promoveu a extinção ou restrição de fundos de subvenção a companhias de dança, teatro, circo, orquestras; aos programas de suporte a artistas individuais; e aos equipamentos culturais em geral. Drástica redução também ocorreu no âmbito dos contratos de gestão das organizações sociais responsáveis pela administração de museus, bibliotecas, dentre outros, além do completo sucateamento do aparato institucional do Ministério da Cultura e suas coligadas.

Junte-se a isso a situação de extrema penúria orçamentária das secretarias, fundações e agências em outras das esferas da Federação, desenhando um cenário desolador e inibidor da cultura no Brasil.

Não há dúvida de que a proibição direta tem prejudicado ostensivamente o ambiente das artes, no entanto, o estrangulamento das verbas de apoio tem impacto ainda mais devastador, pois impedem, contaminam, muitas vezes, irreversivelmente, a produção e circulação de obras nos diversos segmentos.

Vamos mal, muito mal, e não há razão para otimismo a curto prazo. A esperança terá de ser encontrada, irrigada e espalhada através da resistência, do posicionamento e do ativismo múltiplo, vigoroso, provido de coragem e espírito público, compromissado com a sociedade democrática, com o livre direito de expressão, pensamento, comportamento, sem qualquer concessão à censura e constante vigilância contra à autocensura e outras formas sutis de repressão.

*Ex-secretária de estado de Cultura de MG, é diretora executiva do Museu de Arte do Rio.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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