Religião

14/10/2019 | domtotal.com

Sínodo da Amazônia: não enterrar os talentos

O sínodo é uma oportunidade de crescimento espiritual, no encontro de ideias, de visões, de compreensões.

Para além do tema específico da Amazônia, tão urgente, é verdade, o que nós, como Igreja no Brasil podemos aprender com a iniciativa colegiada e corajosa de Francisco?
Para além do tema específico da Amazônia, tão urgente, é verdade, o que nós, como Igreja no Brasil podemos aprender com a iniciativa colegiada e corajosa de Francisco? (Reuters)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Estamos em meio a um sínodo, que reflete sobre as interpelações para a evangelização na Amazônia. A princípio, para os mais críticos às antigas práticas de “evangelização” da Igreja – com razão! –, sobretudo nos primeiros séculos de Brasil, tal perspectiva pode assustar. Mas há um elemento alentador que move o pontificado de Francisco, que seu programa pastoral, a Evangelii Gaudium, no qual propõe um conceito de evangelização que não é nem um pouco proselitista. Se depender, pois, da perspectiva evangelizadora de Francisco, as comunidades originárias de toda a Amazônia estão protegidas em sua cultura, e tudo o que a compõe.

Refletir sobre a evangelização na Amazônia requer um olhar atento para todas as ameaças que ela vem sofrendo, desde que o olhar ganancioso do “progresso” se lançou sobre ela. Essa é uma interpelação real para o sínodo. Não é à toa que o atual governo federal do Brasil se mostra reticente ao acontecimento, colocando inclusive bispos sob vigia. Não é novidade que a perspectiva ecológica de Francisco tenha ganhado o reconhecimento meritório de várias parcelas da sociedade global, sobretudo àquelas preocupadas e zelosas com o futuro do planeta. Esse sínodo representa uma oportunidade a mais, que possa resultar em práticas eclesiais, aliadas a práticas globais, de proteção da Amazônia, com toda a sua biodiversidade.

É preciso, porém, prudência nas expectativas. O sínodo é um evento eclesial, é preciso ter isso claro. Estamos lidando com uma instituição bimilenar: esperar por mudanças radicais, ainda que desejáveis, depois de longos anos de restauracionismo institucional não é sensato. Mas coisas boas, certamente, podem vir por aí. E é justamente pelo fato de coisas boas estarem na iminência de vir, que temos visto a forte reação contrária de setores ultraconservadores que pululam dentro da igreja. A resposta a essa frente reacionária deve ser dada com a ousadia própria daqueles e daquelas que se deixam mover pelo espírito do ressuscitado.

O sínodo é uma oportunidade de crescimento espiritual, no encontro de ideias, de visões, de compreensões. Revela que as decisões não devem ser tomadas autocraticamente, mas que precisam ser colegiais porque isso reflete uma das realidades mais bonitas do ser Igreja, desde o início do cristianismo. O espírito de Jesus nos brinda com um momento eclesial cheio de possibilidades: é preciso não enterrar os talentos, mas é urgente fazer com que eles se multipliquem. Nesse caso, é urgente que todos e todas os que têm demonstrado apoio ao sínodo, frente às fortes resistências que este tem encontrado, insistam no pós-sínodo.

Para além do tema específico da Amazônia, tão urgente, é verdade, o que nós, como Igreja no Brasil podemos aprender com a iniciativa colegiada e corajosa de Francisco? Presentes no sínodo, um número considerável de bispos latino-americanos. Eis o tempo, dado em nossas mãos, de fazer desta Igreja latino-americana uma Igreja de vanguarda, novamente. Os tempos nos interpelam a que atuemos, eclesialmente, de modo criativo e corajoso. É preciso transformar nossa estrutura pastoral, encontrar novos caminhos de atuação evangelizadora, que abra a igreja para que encontre o diferente e com ele dialogue de modo mutuamente transformador. Francisco é uma bênção para nossos tempos. Que com ele aprendamos a não enterrar nossos talentos, pois o reino de Deus continua sendo uma verdadeira urgência!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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