Religião

15/10/2019 | domtotal.com

Filhos e dragões aos pés de Aparecida

A fé profética ensinada pela mãe de Jesus deve resistir e discernir

A imagem preta é sinal de resistência, sobretudo no país racista como o nosso e que mata em qualquer esquina quem tem a pele preta.
A imagem preta é sinal de resistência, sobretudo no país racista como o nosso e que mata em qualquer esquina quem tem a pele preta. (Thiago Leon)

Por Tânia da Silva Mayer*

Maria é a mãe dos povos. Os evangelhos se referem a ela como a jovem disponível para colaborar diretamente com o projeto de salvação de Deus. A ela é dirigida uma mensagem divina que é prontamente aceita sem temor, como mulher de sangue nos olhos e que não tem medo de realizar grandes coisas. Por isso, é solidária com os que precisam, e canta e anuncia a derrubada dos poderosos de seus tronos e o socorro de Deus para os pequenos e famintos.

A tradição católica celebra no dia 12 de outubro a figura de Maria sob o título de Nossa Senhora Aparecida, rainha e padroeira do laico Brasil. Sempre identificada como mãe, a história apresenta milagres em favor dos negros e pobres, dos sofredores que a ela recorrem como intercessora junto ao seu filho Jesus. A imagem preta é sinal de resistência, sobretudo no país racista como o nosso e que mata em qualquer esquina quem tem a pele preta. Negros e brancos, pobres e ricos, mulheres e homens, todos filhos da Maria de Aparecida.

Se há uma coisa que se pode ver em seu Santuário Nacional é a diferença das classes das pessoas que por lá passam com suas rezas e agradecimentos. Tem gente de toda estirpe. É um microcosmo. Como fiel devota, todo ano vivo uma experiência diferente ao percorrer os espaços desse Santuário do norte paulistano e ver nele singulares expressões de fé, individuais ou mesmo coletivas. Certamente, do infelizmente ao mais feliz dos crentes, todos estão passando por ali à procura de uma graça ou de qualquer outra coisa que faça sentido.

Mas há também ali um conflito de interesses, que vão desde a simplicidade da fé que suplica e agradece, passando pela oportunidade da contemplação da beleza até desembocar na fé idólatra ao deus mercado, que reina na multiplicidade de shoppings, feiras e lojinhas, de artigos religiosos ou não, um prato cheio para consumidores descontrolados.

Mas há também ali, quem vá percorrer aqueles espaços sem nenhuma disposição de coração, sem o desejo de se tornar semelhante a Jesus e de percorrer o caminho de discipulado que sua própria mãe percorreu e manifestou, principalmente, em Aparecida, como cuidado dos pobres, dos pequenos e excluídos. Há quem, inclusive, aliado aos poderosos, faça oposição direta e radical ao projeto de salvação de Deus liderado pela jovem Maria, mas que não teme pisar lugar sagrado e profanar, por aquilo que fala e faz a todo tempo publicamente, a Palavra de Deus e a Eucaristia, na tentativa infeliz de se passar por filho, quando, na verdade, mostra-se algoz dos filhos e das filhas da Mãe de Deus e nossa.

Esses "dragões" em pele de filhos não encontram seu lugar e expressão nesse microcosmo. Suas imagens são, por si mesmas, contraditórias e diabólicas, isto é, provocadoras de um abismo entre si mesmos e a devoção à Maria que nos querem fazer acreditar possuir. Nesses momentos, a fé profética ensinada pela mãe de Jesus deve resistir e discernir, a fim de que mais facilmente identifiquemos os "dragões" que querem devorar os filhos da Mãe, sugando-lhes a dignidade da vida, e possamos anunciar o fracasso dos projetos deles e a vitória do Reino de Deus radicalmente acolhido por Maria.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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