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15/10/2019 | domtotal.com

Uma pedra no caminho de 'Breaking bad'

Filme baseado na clássica série apresenta narrativa entrecortada por flashbacks e reviravoltas dramáticas

Nome se refere ao veículo usado pelo personagem, mas também sugere algo mais transcendental.
Nome se refere ao veículo usado pelo personagem, mas também sugere algo mais transcendental. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

O filme El camino, recém estreado no Netflix, acompanha durante alguns dias a trajetória de Jesse Pinkman (Aaron Paul) após a fuga do cativeiro na última cena do memorável derradeiro episódio de Breaking bad. O título refere-se ao carro usado pelo personagem (uma charmosa picape vintage), mas também sugere algo mais transcendental (e piegas), como as escolhas que fazemos na vida em contraponto ao que nos reservaria o destino. Papo metafísico de botequim com a cor local de Albuquerque, aliado ao forte componente mexicano presente na cultura da região.

Como já era de se supor, a narrativa é entrecortada por flashbacks, artifício que permite a reaparição de personagens emblemáticos já mortos àquela altura da trama, mas indispensáveis a qualquer retomada ou evocação da série. Reencontramos o faz-tudo Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks, a joia da coroa de Better call Saul) e Heisenberg em pessoa, sua majestade Bryan Cranston, reprisando (pela última vez?) o papel de sua vida.  

O expediente é o mesmo usado - com melhor aproveitamento, diga-se – na prequel da série, Better call Saul, no início de cada uma de suas quatro temporadas. O prólogo em preto e branco, mostrando a vida atual do advogado inescrupuloso interpretado por Bob Odenkirk sob nova e medíocre identidade, é a chave para que voltemos mais ainda no passado, antes de Saul Goodman se tornar Saul Goodman. 

Outros membros do antigo elenco também são vistos durante o percurso do filme. Entre todos, cabe ao doce psicopata Todd, vivido pelo competente Jesse Plemons (o açougueiro da segunda temporada de Fargo e protagonista de USS Callister, episódio à la Star trek de Black mirror) o maior tempo de tela e uma das presenças indispensáveis para a narrativa proposta no revival.  

Apesar dos acontecimentos vistos em El Camino se situarem imediatamente após o que vimos no fim de BB, as marcas dos seis anos passados desde o final da série estão indelevelmente presentes nos quilos a mais conquistados por Aaron Paul e Plemons de lá para cá. Mesmo com a performance afiada de ambos, o problema de continuidade é patente e, se não atrapalha de todo a fruição, incomoda bastante, atrasando nosso engajamento no filme - que deveria ser imediato.

Jesse Plemons, aliás, deixa mais uma vez a melhor das impressões, com uma vocação natural para a ambiguidade sempre bem explorada. Suas boas maneiras, fala suave e ares de bom moço escondem à primeira vista a total falta de empatia do personagem. A maneira como o ator joga, alcançando tamanha organicidade mesmo trabalhando com elementos tão antagônicos, é admirável. É lícito imaginar que, quanto mais for envelhecendo, mais lhe serão destinados papéis que seriam de Philip Seymour Hoffman, se ainda estivesse entre nós.

Muitas das qualidades que tornaram BB tão essencial continuam presentes, como as paisagens de desolação e aridez do Novo México, tão lindamente filmadas. Os desertos do estado, cortados por estradas que parecem não ter fim, com sua inerente monotonia, são o retrato fiel da condição dos personagens; a solidão como regra, emoldurada por um exterior plácido. A combinação resulta assustadora, porque ali o silêncio é sempre prenúncio de tragédia, com tudo que está submerso em constante ebulição e prestes a explodir a qualquer momento.

As reviravoltas dramáticas, outro marco da série, também permanecem. Dada a condensação do tempo, dessa vez elas acontecem aos borbotões, transformando a tensão em uma constante desconfortável e onipresente - o que é bom para o filme. A maneira como tudo é esticado até quase a corda arrebentar (salvando-se o protagonista sempre, mas apenas no último segundo), nos coloca na corda bamba junto com os personagens, em modo de torcida permanente e suando como se fosse a nossa própria vida que estivesse em jogo. Porém, nem tudo são flores em El camino.

Para quem não acompanhou a série, a experiência é diferente, bem menos intensa. Dá para entender a historinha contada ali, mas um filme não pode ser só isso; ainda mais um filme que venha de BB. Há todo um legado a ser respeitado e estar à altura disso não seria mesmo tarefa fácil. É neste momento que surge a pergunta inevitável: para que voltar ao que já havia sido encerrado de forma tão magistral?

O criador do programa, Vince Gilligan, no primeiro momento pós BB, até tentou seguir adiante. Juntou-se a David Shore e criaram a série policial Battle Creek. Com as mentes por trás de BB e House unindo esforços, o resultado só poderia ser genial. Mas o que se viu foi um desastre. O programa durou apenas uma temporada e não deixou saudade. Metida a engraçadinha demais e irremediavelmente boba desde sua premissa central, não conseguiu nem se tornar uma daquelas séries que, mesmo ruins, acabamos gostando por motivos inexplicáveis (como Blue bloods, The following ou The rookie).

Desacostumado ao fracasso, o próximo passo de Gilligan foi o da obviedade. Voltou ao universo de BB com Better call Saul e o sucesso de novo bateu à sua porta. Se deu certo uma vez, por que não daria novamente? Deve ter sido com isso na cabeça que decidiu voltar a Albuquerque para mais uma rodada, talvez uma saideira; e o principal: algo sem riscos.

O grande mérito do filme acaba sendo a oportunidade criada para que nos encontrássemos uma última vez com Robert Forster, morto aos 78 anos há alguns dias atrás. O ator, que viu sua carreira renascer pelas mãos de Tarantino ao viver o agente de condicional caladão Max Cherry, de Jackie Brown, nos anos 90, marcou o destino de Walter White com uma pequena, mas fundamental participação no penúltimo episódio da série original. 

El camino não é uma vergonha, não é nem um mau filme. É uma desnecessidade, porque não acrescenta absolutamente nada ao que já havia sido feito e contado. Não trará novos fãs à saga e, a não ser pelo canto do cisne de Forster, quem não se dispuser a vê-lo não estará perdendo nada.

EL CAMINO - A breaking bad film, em exibição no Netflix.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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