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16/10/2019 | domtotal.com

Caronas nas estradas rumo a qualquer lugar

Sentia a paisagem passar, e se esforçava para que o vazio fosse só um pedaço de pasto

Maria não sabia seu destino. Só sentia fome e vergonha
Maria não sabia seu destino. Só sentia fome e vergonha ((Agência Brasil))

Pablo Pires Fernandes*

Incapaz de encarar a mãe, Maria saiu de casa numa madrugada de quarta-feira, antes de clarear. Juntou poucas mudas de roupa, o terço do batismo, tomou um copo d’água e fechou a porta sem fazer barulho. A mãe não acordou. Partiu com a certeza de não voltar. O céu se tingindo.

A BR não ficava longe e, com aquela saia justa e curta, não demorou para um caminhão parar. A máquina chiou e bufou, a porta abriu. Maria pediu desculpa por bater a porta com tanta força e se aboletou, com o corpo saindo pela janela e os cabelos apontando, agitados, para trás. Ela não queria saber do passado, nem um fio.

O motorista perguntou, com a voz grave, aonde ela ia. Aguardou a resposta uns longos segundos, mas foi só silêncio, nem um olhar. Ele girou a chave e rompeu estrada.

Maria olhava sem ver os campos empoeirados, as poucas árvores e os arbustos raquíticos. Tampouco os postos de gasolina e a miséria que passava sob seus olhos como filme. Não via, mas sentia. Sentia a paisagem passar, recebia o calor e a luz e se esforçava para que o vazio que lhe remoía fosse apenas um pedaço de pasto, passageiro como os que se sucediam sob o sol quente.

“Vou dar um mijão”, disse o caminhoneiro estacionando no fundo do posto. Maria não desceu. Ficou jogando fora lembranças ruins até a porta se abrir. Do lado de fora, percebeu a perversidade no sorriso do motorista. Precisou de força para se desvencilhar do sujeito, que titubeou diante de seu grito e deu a brecha para ela correr entre xingamentos mútuos.

Maria não sabia seu destino. Só sentia fome e vergonha.

Uma mulher a seguiu ao banheiro e, antes que se trancasse no cubículo, falou alto e firmemente: “Amiga, eu vi tudo. Fique calma. Dá pra ver na sua cara que tá perdida”. Maria se encolhia e escondia as lágrimas, mas aceitou a mão gentil e, sem dizer palavra, deixou-se conduzir.

Ao acender a luz do quartinho, a mulher apontou-lhe o colchão e contou casos, sua história de transexual e os perrengues que passou. Maria escutava e de sua boca saiu só um “obrigada”, bem baixinho. Exaurida, Maria dormiu sob o olhar cuidadoso de Júlia.

Depois de uns minutos de apreensão e estranheza, reconheceu Júlia dormindo no canto do quarto e respirou aliviada. Esticou o lençol e sem fazer barulho, incomodada de não ter papel e caneta para deixar um bilhete. De volta à beira do asfalto, não esperou muito e um caminhão encostou.

O motorista era caladão e foram poucas as palavras ditas nos menos de 100 quilômetros da carona. Maria logo subiu em outro caminhão. A companhia, desta vez, gesticulava muito e discursava sem parar – parecia estar sob efeito de algum rebite. Falou a tarde toda até estacionar num posto caindo aos pedaços.

Ela tentou resistir e gritar. Ninguém ouviu nem acudiu. Acordou caída num canto do posto, o gosto de sangue na boca e a voz do cretino – “Toma sua vagabunda” – ecoava nos ouvidos. Maria se levantou, cuspiu com força e ódio. Antes de seguir viagem, tocou a barriga e disse para o bebê: “Você nunca vai passar por isso”.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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