Religião

16/10/2019 | domtotal.com

Papa diz que alimentação se tornou 'meio de destruição pessoal'

Por ocasião da Jornada Mundial da Alimentação, da FAO, pontífice condena desperdício de comida e critica autoridades diante da escassez de alimento

Os transtornos alimentares, na visão do papa, serão vencidos a partir da adoção de estilos de vida.
Os transtornos alimentares, na visão do papa, serão vencidos a partir da adoção de estilos de vida. (Tony Karumba/AFP)

Por Mirticeli Medeiros*
Especial para o Dom Total

Cidade do Vaticano – Com o tema "Nossas ações são nosso futuro: uma alimentação saudável para um mundo de fome zero", a Jornada Mundial de Alimentação, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), também recebe a atenção do pontífice. Em mensagem ao presidente da entidade, Qu Dongyu, Francisco faz uma reflexão sobre a "distorção da relação entre alimento e nutrição".

"A comida tem deixado de ser meio de subsistência e tem se transformado em meio de destruição pessoal. Sendo assim, diante de 820 milhões de pessoas famintas, temos o outro lado da balança com 700 milhões de pessoas com excesso de peso, vítimas de hábitos alimentares inadequados", declarou o líder católico.

O pontífice atribui aos países desenvolvidos a culpa pela difusão de práticas que não promovem uma alimentação saudável. Ele diz que em "países de baixa renda, as pessoas continuam comendo pouco e mal por copiarem esses modelos". Um desequilíbrio que, segundo ele, é atestado pelo "crescimento do número de casos de anorexia e bulimia".

Os transtornos alimentares, na visão do papa, serão vencidos a partir da adoção de estilos de vida "que cultivem uma relação saudável com nós mesmos e com nossos irmãos". E acrescentou que é preciso "voltar à simplicidade e à sobriedade, com o espírito sempre atento às necessidades do outro".

Mais uma vez, como fez em vários discursos ao longo de seu pontificado, Francisco combateu fortemente o desperdício de comida. Para ele, é inadmissível que, em algumas regiões do mundo "a comida seja jogada fora, seja consumida excessivamente ou utilizada para outros objetivos". E sugere que sejam criadas instituições econômicas e programas sociais que permitam aos mais pobres o acesso aos recursos de base.

Agricultura familiar

Entre as várias medidas de incentivo à adoção de bons hábitos alimentares, o papa destacou a agricultura familiar como meio de difusão dos valores da boa convivência e do respeito pelo que é cultivado. Francisco diz que, desse modo, é possível criar "ferramentas que promovam estilos de vida que respeitem o bem pessoal e coletivo".

O moçambicano Isaías Marcano, doutor em Ciências Sociais e especializado em economia agrícola familiar, explicou o quanto esse modelo de produção “aponta para uma economia sustentável focada no bem comum, com particular atenção à família e ao meio ambiente”.

Apesar de reconhecer as várias políticas públicas nacionais e internacionais em favor da agricultura, lamenta o descaso de muitas instituições com a questão e a falta de uma estrutura capaz de promover essa forma de cultivo. “Muito ainda precisa ser feito, já que milhares de pessoas, sobretudo nos países mais pobres, vivem uma espécie de vulnerabilidade alimentar. Faz-se necessária a implementação de políticas multissetoriais, uma vez que o setor agrícola familiar necessita de outras forças para subsistir. Um exemplo disso seria a criação de políticas das estradas, além da criação de pontes e meios de transformação desses produtos”, destacou.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

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