Religião

16/10/2019 | domtotal.com

Amazonizar a Igreja e defender a vida: Um processo sinodal

Mobilização que antecedeu a assembleia foi inédita, mas trabalho pós-sínodo será longo

Portanto, são míopes ou de má fé aqueles que se proclamam contra o Sínodo da Amazônia.
Portanto, são míopes ou de má fé aqueles que se proclamam contra o Sínodo da Amazônia. (Guilherme Cavalli/ Cimi)

Por Luiz Felipe Lacerda*

A encíclica Laudato sí lançada pelo papa Francisco em 2015 causou profundo impacto na Igreja Católica mundial e em especial nos diferentes territórios onde ela se faz presente na América Latina. O documento, dividido em seis capítulos, produz uma análise detalhada da situação atual do planeta Terra; traz à luz o Evangelho da criação; reflete sobre a raiz humana da crise ecológica e propõe linhas de orientação para uma ação embasada no conceito de Ecologia Integral.

Elementos como consumismo, estilo de vida, bem comum, antropocentrismo, diálogo entre as religiões e as ciências, mudanças climáticas, educação e política ambiental, visão sistêmica e preservação da biodiversidade pautam a conversão pessoal e coletiva a que nos convida este conceito.

Desde o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (Olma), embasados em seu carisma inaciano, entendemos que para tal conversão em direção a Ecologia Integral, frente aos desafios contemporâneos, é necessário empenharmos esforços no campo da justiça socioambiental. Essa justiça possui alicerce sobre três pilares, a saber: Construir relações justas com os dons da criação; construir relações justas com os outros e, por fim, construir relações justas consigo mesmo.

Neste intuito, portanto, a Rede de Promoção de Justiça Socioambiental da Província dos Jesuítas do Brasil desdobra ações e reflexões sobre temáticas ligadas a gênero, diálogo inter-religioso, educação para as relações étnico-raciais, educação popular, economia solidária, migrantes e refugiados, juventudes, incidência política e articulação institucional. Tais experiências nos permitem definir justiça socioambiental como:    

“Todas as ações que têm como objetivo colaborar para a superação das injustiças presentes em nossa herança histórica e reproduzidas pelo atual modelo de desenvolvimento neoliberal gerador de desigualdades sociais e agressões ambientais.” (MPJSA, SJ, BRA, 2016).

Assim como na Companhia de Jesus, a encíclica reverberou em centenas de instituições e, ao nominar a Amazônia enquanto bioma que requer atenção especial e urgente, impulsionou fortemente a criação da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam). A Repam é uma ampla rede de instituições e pessoas à serviço da vida na Amazônia.

Foi através das articulações desta grande rede que, entre junho de 2016 e setembro de 2017, se realizaram 15 Seminários Laudato Sí, buscando aprofundar e debater a encíclica com as populações dos nove estados da Amazônia Legal. Tais seminários contaram com a participação de 1.503 pessoas de 56 dioceses.

Cada seminário gerou uma carta-compromisso, na qual se destacaram desafios e pontos de resistência, entre eles: a necessidade de reafirmar a identidade étnica da Amazônia, desvincular a Amazônia de concepções colonialistas e exploratórias embasadas na perspectiva do mercado, fortalecer os projetos agroecológicos e as organizações comunitárias, a necessidade de a Igreja retomar uma atitude profética promovendo uma conversão ecológica, que as instituições e as autoridades possam verdadeiramente escutar o clamor dos povos da floresta e que sejam garantidos a eles o direito a consulta livre, prévia e esclarecida quando projetos exógenos impactarão seus territórios, combater energicamente o tráfico de pessoas; no contexto urbano cuidar da saúde, do saneamento básico, do acesso aos direitos básicos da vida e olhar com carinho para a juventude, geralmente desempregada e vitimada pela violência; fomentar a formação de base e as alternativas de bem viver.  

Assim, em de novembro de 2017, aproximadamente 80 pessoas e instituições ligadas a efetivação destes seminários regionais se reuniram em Brasília para um balanço final. O Seminário Geral Laudato Sí, amparado na sistematização acima referida, construiu quatro chaves para entender nossa missão, como rede, na Amazônia:

  • Metanóia: Uma conversão de raiz deve ser a base para a mudança concreta, pautando a periferia no centro do mundo.  
  • História: Resgatar e fortalecer a história profunda dos povos tradicionais, reescrevendo a história em busca de um paradigma mais ético e sustentável.
  • Terra e territorialidade: Entender que é no território que se encontram as principais pistas para as mudanças necessárias e que é também sobre ele onde debruçam-se os principais desafios, chamando-nos assim, para um trabalho desde dentro da Amazônia.
  • Integralidade: Construir modelos de educação, formação e ação mais integrais, não dissociando às populações de seus territórios e de sua biodiversidade, além de assumir que, para problemas complexos necessitamos de respostas multidisciplinares.

Por fim, como fruto deste processo assumimos seis desafios: a) A defesa dos direitos e da vida das populações tradicionais e urbanas; b) fomentar processos de formação nas bases e sobre as demandas das bases; c) enfrentar os grandes projetos em busca da regularização fundiária; d) auxiliar na organização da população para lutar por políticas públicas adequadas1; e) fomentar alternativas de bem viver; f) ampliar a presença da Repam nas diferentes localidades amazônicas.

No percurso deste rio sinodal, em 15 de outubro de 2017, portanto um mês antes do Seminário Geral Laudato Si, na festa de canonização dos protomártires do Brasil e das três crianças indígenas astecas do México, papa Francisco convoca um Sínodo sobre a Amazônia2, a ser realizado em Roma, no ano de 2019. Este sínodo traz como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma Ecologia Integral”.

Em todos os países amazônicos articuladores da Repam voltaram as bases desencadeando um novo processo de escutas iniciado pelo próprio papa Francisco junto às comunidades tradicionais, em Porto Maldonado (Peru), no dia 19 de janeiro de 2018. No Brasil, mesmo após dois anos de profundas escutas e sistematizações frente aos Seminários Laudato Sí, voltamos às comunidades propondo uma metodologia de Rodas de Conversa3, Seminários territoriais e questionários. Tal metodologia buscou canalizar as sugestões das pessoas em direção ao Sínodo sobre a Amazônia e os novos caminhos da igreja para uma Ecologia Integral.

As sistematizações dessas escutas sinodais embasaram a construção do Instrumentum laboris: Amazônia, novos caminhos para a Igreja e para a Ecologia Integral. O instrumento foi construído por uma equipe de assessores e foi aprovado pelo Vaticano na ocasião da primeira reunião do Conselho Pré-Sinodal. O documento é composto por um texto-base que oferece uma análise da conjuntura atual da Amazônia e aponta percursos e novos caminhos para a Igreja a serviço da vida nesse bioma.

“O objetivo do material é preparar as comunidades para o sínodo e ouvi-las, para que essa grande assembleia repercuta, de fato, os clamores que saem das bases.” (I.L, 03, 2019).

O Instrumentum laboris está dividido em três partes, de acordo com o método ver, discernir e agir. Na primeira parte se apresentam as vozes da Amazônia tratando de vida, território, tempo (Kairós) e diálogo. Na segunda parte, através de um olhar subsidiado pela Ecologia Integral evoca-se o clamor da terra e dos pobres, denunciando a destruição extrativista, as ameaças aos povos indígenas, as migrações forçadas, a corrupção e os processos caóticos e desiguais de urbanização; além das questões de saúde e educação. Por fim, na parte três, o documento que busca subsidiar os bispos em Roma apresenta os desafios e as esperanças da Igreja na Amazônia no intuito de se tornar mais profética e inculturada, apontando elementos como diálogo ecumênico, meios de comunicação, evangelização das cidades e a promoção humana integral como pistas importantes.

Cada uma destas pistas é fruto de uma série de sistematizações frente às escutas sinodais e reflexões posteriores destes especialistas. Desde o segundo semestre de 2018, foram 262 eventos promovidos e apoiados pela Repam entre assembleias territoriais, fóruns temáticos e rodas de conversas em sete dos nove países da região Pan-Amazônica. Foram escutadas cerca de 87 mil vozes, contando com a participação de 90% do episcopado da região, 38 fóruns temáticos e 57 assembleias 4. Apenas no Brasil foram 23 assembleias, sete fóruns, 151 rodas de conversa e 181 questionários respondidos.

“Isso nunca aconteceu de forma tão intensa e de forma tão numerosa”, avalia o cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo (SP) e presidente da Repam.

O sínodo está em pleno acontecimento. A Amazônia está na pauta global; tríduos, matérias, vídeos sobre a região e o sínodo tomam diariamente as redes sociais. São mais de 200 pessoas reunidas durante três semanas para pensar os caminhos da Igreja Católica na Amazônia. O clamor interno é por uma igreja com rosto amazônico, o clamor externo é de apoio em defesa da vida.

Como vimos nesse texto, não faltam subsídios aos debates e ao Bom Discernimento no Sínodo para a Amazônia.  Eles são muitos e são legítimos, pois foram construídos a partir dos principais sujeitos amazônidas em cada território. As orações são para que de fato, “a presença dos Bispos reflita a presença amazônica” e que estes escutem o clamor dos povos e da natureza.

Do lado de fora do sínodo foi montada uma importante estrutura chamada Tenda Amazônica: Casa Comum, composta por integrantes de diferentes instituições que participaram ativamente da proliferação da encíclica e das escutas sinodais nos territórios amazônicos. A tenda busca ser um ponto de confluência estratégica dessas organizações dando apoio em ações e orações aos que colaboram, nesta etapa intrassínodo, para os novos rumos da Igreja. A Tenda Amazônica oferta uma programação extensa de atividades, reflexões e orações, tomando ruas de Roma e não deixando que o sínodo e a Amazônia fiquem apenas dentro dos muros do Vaticano.  

Portanto, são míopes ou de má fé aqueles que se proclamam contra o Sínodo da Amazônia, não compreendendo que este movimento protagonizado pela Igreja em prol da natureza, dos povos da floresta, dos dons da criação e da Amazônia não é uma ação isolada e embalada por pressões governamentais e/ou midiáticas. Este é um processo, um caminhar e, portanto, algo relacional.

Isso tudo (a encíclica, os seminários, as rodas de conversa, os questionários, as escutas sinodais, o sínodo, o pós-sínodo) é uma relação, um caminhar junto, uma nova relação que a Igreja Católica vem construindo com esses povos e esses territórios.

Aqui no Brasil estamos prontos para o que vem pela frente! O pós-sínodo tende a ser ainda mais trabalhoso e desafiador, pois exige nos retirar do plano das ideias, desejos e demandas e nos colocarmos no campo da prática, da realização e da realidade, com todas as disputas e desafios que ela oferece. 

Colado com o fim do Sínodo para a Amazônia acontecerá, em Belo Horizonte, na Dom Helder Escola de Direito, na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje), Centro Loyola e Colégio Loyola a IV Semana de Estudos Amazônicos (Semea). A Semea é um evento anual e itinerante, protagonizado pelo Olma e pela Repam com apoio de outras instituições5 e movimentos sociais parceiros, que objetiva pautar a Amazônia em contextos acadêmicos localizados fora do território amazônico. Desta forma, a Semea busca promover o diálogo entre os saberes científicos e os saberes tradicionais e, assim, amazonizar as diferentes populações e regiões que compõem o Brasil.

Este ano a IV Semea contará inclusive com a participação de inúmeras pessoas que chegarão diretamente de Roma, de dentro do sínodo e de dentro da Tenda Amazônica. Eles trarão para nós as primeiras impressões e pistas para o trabalho que deve se estender pelos próximos anos. Neste sentido, com a IV Semea, entre os dias 29 de outubro e 1º de novembro, o pós-sínodo já começou!


1- Vide a Campanha da Fraternidade 2019 e todo o movimento interinstitucional realizado em prol do debate das políticas públicas em diferentes localidades do Brasil:  http://olma.org.br/2019/05/04/para-a-fraternidade-e-politicas-publicas-um-grande-bloco-cooperativo-de-instituicoes/

2 - O sínodo é uma reunião entre bispos e o papa, podendo receber outros convidados, que objetiva avaliar os caminhos e traçar novas estratégias da igreja católica no mundo sobre determinado assunto.

3 - Tal metodologia apresentava um roteiro de sugestão para que as organizações locais pudessem pautar o Sínodo. Foram assim elaborados roteiros para três rodas: Roda 1: Ver a realidade e escutar os clamores dos povos da Amazônia. Roda 2: Discernir para uma conversão pastoral e ecológica. Roda 3: Agir: Novos caminhos para uma Igreja com rostos amazônicos.

4 - De acordo com a Repam neste universo total de participantes das escutas sinodais em suas mais variadas formas 53% são mulheres; 6.337 laicos (dos quais 59% mulheres) e 477 religiosos (de maioria também feminina). Registrou-se também a participação de representantes de 172 povos indígenas (cerca de 44% do número de povos estimados na Pan-Amazônia).

5 - A Semea é uma iniciativa inserida no escopo de atividades estratégicas pautadas na Agenda 2019-2029 Amazônia e Universidades, uma iniciativa do setor de Educação da CNBB, da REPAM, do OLMA e da Associação Nacional de educação Católica (ANEC) com outras instituições católicas de ensino superior do Brasil. Para saber mais: http://anec.org.br/congresso/wp-content/uploads/sites/14/2019/04/Danilo-Pinto.pdf

*Luiz Felipe Lacerda é docente da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), secretário-executivo do OLMA, membro do Eixo Justiça Socioambiental e Bem Viver (Repam/Brasil). Psicólogo, doutor em Ciências Sociais, pesquisador convidado e fundador do Grupo de Estudos Educação e Diversidade Amazônica da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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