Religião

16/10/2019 | domtotal.com

Violação dos direitos humanos: bispos levantam a voz no sínodo

O pontífice disse para termos cuidado com 'os colonialismos ideológicos mascarados de progresso'

O bispo de Macapá (AP), dom José Conti.
O bispo de Macapá (AP), dom José Conti. (Mirticeli Medeiros)

Mirticeli Medeiros*
Especial para o Dom Total

Cidade do Vaticano – Os participantes do Sínodo da Amazônia têm apresentado, diante do papa, os maiores desafios enfrentados pela Igreja Católica na região. Além dos problemas relacionados à luta pelos direitos dos povos indígenas, à necessidade de reconhecer que existem “pecados ecológicos” e a falta de missionários para atender as zonas mais remotas, crescem as denúncias dos problemas socioambientais e de violação dos direitos humanos provocados pela “lógica do lucro”, como o papa Francisco tem apontado em alguns de seus discursos.

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Em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (16), Yesica Patichi Tayori, da etnia Harakbut, que também é membro da pastoral indígena do vicariato apostólico de Puerto Maldonado, no Peru, disse que, apesar de os povos indígenas “serem considerados os guardiões da floresta”, não têm sido valorizados como tal.

“Dissemos ao santo padre que leve a nossa mensagem aos organismos nacionais e internacionais. Nossas avós, mães já nos alertavam sobre o caos climático. Mas elas eram invisíveis. Ninguém levou adiante seus protestos. Pelo contrário: elas foram perseguidas e assassinadas”, denunciou.

Tayori foi uma das que discursou no encontro de papa Francisco com lideranças dos povos amazônicos, em 2018, no Peru. Como convidada especial do sínodo, já teve a oportunidade de falar durante as congregações gerais da assembleia, quando os participantes discursam livremente durante o evento. Pediu a defesa da casa comum – termo utilizado por papa Francisco para se referir ao planeta – e fez um apelo para que se respeitem os costumes dos povos originários.

“Estamos dizendo ao papa que temos medo, pois estamos nos esquecendo da nossa língua e da nossa cultura por causa dos modelos de desenvolvimento que se aplicam na região, os quais não respeitam a vida. As pessoas querem ver os povos indígenas como uma vitrine, não como uma cultura viva. As empresas extrativistas querem nos enfraquecer, querem que desapareçamos”, exclamou. 

Quando se encontrou com representantes das comunidades indígenas da Amazônia, durante sua visita apostólica ao Peru, em 2018, o pontífice disse para termos cuidado com “os colonialismos ideológicos mascarados de progresso, que entram pouco a pouco destruindo identidades culturais e estabelecendo um pensamento uniforme, único e fraco”. Ele fez questão renovar o apelo durante a missa de abertura do Sínodo para a Amazônia, ocorrida no último dia 6, pedindo que se evitassem “os novos colonialismos”. 

Clero indígena

O bispo de Macapá (AP), dom José Conti, em entrevista ao Dom Total, explicou como tem sido a atuação dos leigos e missionários na sua diocese. Diferente dos demais estados brasileiros, o Amapá possui uma única diocese – localizada na capital –, o que faz com que os desafios em relação à evangelização sejam ainda maiores. Ele sugere abrir-se à proposta do sínodo de constituir um clero indígena. Segundo ele, tal medida permitiria acompanhar mais de perto as comunidades indígenas presentes na região e atuar de maneira mais eficaz no enfrentamento de várias situações dramáticas.

“Tínhamos um padre que fazia esse acompanhamento nas aldeias. Precisamos preparar esses candidatos segundo a cultura deles. Não é algo que se resolve de um dia para o outro. Um clero indígena seria diferente de um clero que atua na cidade. E temos que nos lembrar que também há indígenas que vivem na cidade. Então precisamos estudar esses casos”, ressaltou o bispo.

Andamento do sínodo

Nos próximos dias, outros temas serão tratados pelos “círculos menores”, quando os participantes são divididos por temas ou idioma. Por enquanto, sobressaem alguns temas: a formação de um organismo permanente e internacional dedicado exclusivamente à defesa dos direitos humanos na região; um reconhecimento efetivo do papel da mulher na Igreja amazônica; a possibilidade de ordenar homens casados para atender a carência de sacerdotes na região; necessidade de inculturação para melhor adequar a evangelização aos costumes dos povos originários; migração dos povos indígenas para as zonas urbanas e o reconhecimento dos chamados “pecados ecológicos”.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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