Brasil Política

18/10/2019 | domtotal.com

Entenda a crise no PSL com a briga entre Delegado Waldir e a família Bolsonaro

Bolsonaro quer derrubar Delegado Waldir da liderança do PSL; 'vou implodir o presidente', atacou o deputado

Jair Bolsonaro está colecionando desafetos entre membros do próprio PSL.
Jair Bolsonaro está colecionando desafetos entre membros do próprio PSL. (Antonio Cruz e Rodrigues Pozzebom/Ag. Brasil)

O deputado Delegado Waldir (GO) segue como líder do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, na Câmara, informou messa quinta-feira a Secretaria-Geral da Mesa (SGM) da Casa, mas a disputa dentro da legenda continua e o grupo que tenta destituí-lo do posto já investe na coleta de assinaturas para uma nova lista contra o parlamentar.

Na Liderança do Congresso, o governo escolheu o senador Eduardo Gomes (MDB-GO) para substituir Joice Hasselmann (SP)  depois que Bolsonaro viu o nome da deputada em uma lista para manter Delegado Waldir (GO) na liderança do PSL na Câmara. Em contrapartida, filhos do presidente foram destituídos das presidências estaduais no PSL nos estados do Rio e São Paulo.

Segundo o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (GO), parlamentar ligado a Bolsonaro que trabalha para colocar o filho do presidente, deputado Eduardo Bolsonaro (SP), na liderança do partido na Casa, já foi iniciada a coleta de assinaturas para a confecção de uma nova lista, a fim de tirar Waldir da liderança.

Pelas regras, a liderança pode ser alterada se for angariado apoio equivalente ao primeiro número inteiro depois da metade dos membros da bancada. No caso do PSL, que tem 53 integrantes, são exigidas ao menos 27 assinaturas válidas para destituir o líder

A iniciativa é mais um episódio da briga de listas para definir um nome para a liderança do partido do presidente da República na Casa. Na quarta-feira, grupo ligado a Eduardo apresentou uma relação de assinaturas para tirar a liderança de Waldir, que contra-atacou e também apresentou uma lista. O grupo do filho de Bolsonaro e Vitor Hugo apresentou, então, uma nova listagem.

Mas as assinaturas apresentadas pelo grupo dissidente não alcançaram o número suficiente para tirar Waldir do posto, segundo a SGM.

A primeira relação de deputados, apresentada pelo grupo de Eduardo, continha 27 nomes, número mínimo exigido para destituir o líder, mas apenas 26 das assinaturas conferiam, informou a Secretaria-Geral.

A segunda lista, apresentada por Waldir e aliados, trouxe 31 nomes, e 29 deles conferiam com as assinaturas que constam na SGM. Mais cedo, em coletiva, Waldir afirmou ter conseguido 32 assinaturas.

Houve ainda uma terceira lista, apresentada novamente pelos aliados de Eduardo Bolsonaro, com 27 assinaturas, das quais 24 conferiam.

Após a confirmação da manutenção de Waldir na liderança, Vitor Hugo anunciou, em seu perfil no Twitter, que havia iniciado a nova coleta de assinaturas. O líder do governo na Câmara aproveitou para sugerir, no tuíte, que eleitores de Bolsonaro cobrem “coerência do seu deputado”.

Depois, em coletiva de imprensa, negou ver na confirmação de Waldir na liderança uma derrota para Bolsonaro, que atuou pessoalmente no convencimento de parlamentares para que assinassem a lista pró-Eduardo.

Também afirmou que a tentativa de mudar a liderança do PSL tem como objetivo trazer mais estabilidade ao partido.

“Não vi qualquer derrota (ao presidente). Na verdade houve 27 assinaturas, o processo não acabou ainda e tenho certeza que no final vamos conseguir colocar uma liderança que seja mais alinhada com o governo, que seja mais séria, mais equilibrada, e que mantenha um clima dentro do PSL – ainda que mantenham-se as disputas partidárias – mas um clima que prossiga, que consiga trazer possibilidades maiores de o governo avançar com suas pautas”, disse Vitor Hugo a jornalistas.

“A gente não pode ter uma liderança do PSL que desestabilize o jogo.”

Guerra aberta

A disputa pela liderança do PSL na Câmara ocorre em meio a uma guerra aberta na legenda entre Jair Bolsonaro e o presidente do PSL, deputado Luciano Bivar (PE).

A crise teve início a partir de denúncias sobre irregularidades em campanhas do PSL, mas escalou na semana passada a um outro patamar quando Bolsonaro sugeriu a um simpatizante que esquecesse a sigla. Também afirmou que o presidente da legenda estava “queimado”.

Na quarta-feira, pouco antes da guerra de listas, Waldir acusou Bolsonaro de chamar deputados no Planalto e de ligar para parlamentares tentando convencê-los das vantagens de ter Eduardo como líder.

“O presidente da República está ligando para cada parlamentar e cobrando o voto no filho do presidente”, disse Waldir a jornalistas. “Ele age pessoalmente ao chamar vários parlamentares e ligar pessoalmente para vários deputados com essa pressão psicológica dessa questão de cargos e outras situações.”

Nesta manhã, o presidente admitiu que conversou com parlamentares antes da manobra de parte da bancada do PSL para destituir Waldir e colocar Eduardo no cargo, mas não comentou o conteúdo das conversas e disse que ter sido grampeado seria uma “desonestidade”. [nL2N2720DN]

Nesta quinta-feira, foi a vez de Waldir ser protagonista de um áudio obtido inicialmente pelo site R7, em que o líder fala que poderia “implodir” o presidente da República, a quem se refere como “vagabundo” ao argumentar ter feito campanha “debaixo de sol” por sua eleição.

O áudio também capta outros deputados, insatisfeitos, que relatam a pressão recebida de Bolsonaro para que assinassem a lista contra Waldir. Os parlamentares reclamam do que chamam de “assédio” e apontam diferença no tratamento dispensado pelo presidente --brincam que nunca foram tão importantes "da noite para o dia".

Um deles chega a dizer que só era procurado pelo Planalto, desde o início do mandato, em situações problemáticas, para prejudicar alguém.

Parlamentares relatam ainda uma movimentação do DEM de olho na possibilidada de absorver integrantes do partido.

Em entrevista coletiva mais cedo nesta quinta, no entanto, Waldir sustentou que continua apoiando o governo e que a bancada, sob sua liderança, registrou uma taxa de fidelidade de 98% ao governo.

“Na verdade a gente quer pacificar o PSL. A gente sabe que houve um grande embate, muito desgaste, mas queria dizer para vocês que nós somos extremamente fiéis ao governo, repetir que somos 98% fiel ao governo, vamos continuar votando com o governo”, disse o líder a jornalistas.

“Nós continuamos sendo de direita, continuamos defendendo nossas bandeiras pelas quais fomos eleitos”, garantiu Waldir na coletiva da manhã.

'Serei um operário'

O novo líder do governo no Congresso, senador Eduardo Gomes (MDB-TO), aposta em um perfil discreto para tentar evitar que a crise no PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, comprometa a agenda de votações no Congresso. Ele disse que pretende atuar de maneira "discreta, porque líder tem de trabalhar pela convergência e com foco nas matérias de interesse do governo e do País, então eu fico tranquilo", afirmou. "Vou ser um operário."


Eduardo Gomes era um dos vice-líderes do governo no Senado, atua alinhado com o presidente Jair Bolsonaro e é fiel nas votações - votou contra desidratar a reforma da Previdência e a favor do decreto presidencial que flexibilizou o porte de armas. O perfil levou Bolsonaro a escolher o emedebista para o cargo.

O novo líder terá a missão de articular a análise do Orçamento de 2020 e preparar o terreno para as pautas do Planalto no ano que vem, entre elas a reforma tributária. Na avaliação de Gomes, não será possível emplacar mais nenhuma grande proposta em 2019 após a conclusão da reforma da Previdência.

Gomes já passou por vários partidos, da esquerda ao Centrão: foi do PP, PSB, PSDB e Solidariedade. No começo deste ano, se filiou ao MDB a convite do senador Renan Calheiros (AL) e do então presidente nacional da sigla, Romero Jucá.

 Indicação de Eduardo

A atuação do presidente Jair Bolsonaro para colocar o seu filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), na liderança do PSL na Câmara, deixou em suspenso a possibilidade de o deputado assumir a embaixada do Brasil em Washington. O presidente indicou o filho para o cargo há três meses, mas até agora a intenção não foi formalizada.

Segundo avaliações de pessoas próximas ao presidente, a crise do PSL se tornou uma espécie de "saída honrosa", pelo menos por ora para Eduardo abandonar o projeto de ser embaixador.

Auxiliares de Bolsonaro afirmam que, apesar da peregrinação, Eduardo não conseguiu convencer um número suficiente de senadores a apoiarem seu nome - o que poderia levar a uma derrota emblemática para o governo. Aliados minimizam a culpa do parlamentar no insucesso e colocam a conta no atraso da discussão da reforma da Previdência e nas dificuldades enfrentadas pelo governo com a liberação de emendas na Casa.

Filhos destituídos

Os filhos do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro, foram destituídos dos comandos dos diretórios do Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente.

Segundo o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP), ambos foram desligados nessa semana. O Estadão/Broadcast apurou que desde segunda-feira, Eduardo não tinha mais acesso ao sistema do partido e que haviam lhe tirado uma senha que possibilitava a ele operar o sistema da legenda.

O presidente do partido, Luciano Bivar, no entanto, disse que ainda não assinou as destituições. "Está tudo em processo lá no partido, mas não assinei nada", afirmou.

As destituições são mais um capítulo da crise interna do partido que opõe parlamentares que apoiam Bivar aos aliados do presidente da República.


Reuters, Agência Estado e DomTotal



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