Religião

21/10/2019 | domtotal.com

Pacto das Catacumbas: a permanente necessidade de voltar às fontes

A proposta é bastante significativa, no atual momento em que atravessa a Igreja Católica

Ter em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus é um convite que deve ressoar continuamente em nossos corações
Ter em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus é um convite que deve ressoar continuamente em nossos corações (Reprodução)

Felipe Magalhães Francisco*

Este portal noticiou, com exclusividade, que bispos latino-americanos, presentes no Sínodo da Amazônia, comprometeram-se a renovar o Pacto das Catacumbas, realizado em 1965, ao fim do Concílio Vaticano II. Tal proposta é bastante significativa, no atual momento em que atravessa a Igreja Católica, com essa onda reacionária tradicionalista que temos visto. Indiretamente, a renovação do Pacto é uma maneira de partilhar com Francisco, seus anseios por uma Igreja pobre e para os pobres, fiel ao Evangelho. Quiçá tal renovação traga bons ventos para a Igreja latino-americana e do Brasil, que tem carecido de respostas corajosas e ousadas para as interpelações aos cristãos e cristãs destes nossos tempos.

O programa ministerial de Francisco foi posto, tão logo no início de seu pontificado: voltar ao Evangelho, o que reflete, aliás, a inspiração própria do Concílio Vaticano II, enfraquecida nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI. Se voltamos a conviver, sobretudo em meio aos novos ordenados, com a suntuosidade das vestes litúrgicas, com o rubricismo que mata a liturgia e com uma perspectiva de autorreferencialidade personalística de presbíteros, o Pacto das Catacumbas é um convite a que não percamos o que dá sentido à existência da Igreja: o Evangelho do Reino.

Que a iniciativa de parte do episcopado latino-americano inspire outros setores da Igreja. Precisamos viver um novo tempo eclesial, no qual consigamos viver a fé com ardor e não apenas no exercício religioso de preceitos que apaziguam nosso psiquismo e que não nos transformam. A Igreja, nesse mundo cada vez mais plural e com tantas possibilidades de respostas aos anseios de homens e mulheres de nossos tempos, segue cada vez mais interpelada a ser responsável em sua palavra e no comportamento de seus representantes e integrantes. Não se trata, pois, de uma preocupação com a queda vertiginosa do número de fiéis por parte da Igreja, pois o proselitismo já não deve ser mais uma alternativa, e sim de que os que se confessam discípulos e discípulas de Jesus transformem o mundo desde dentro, tal como o Mestre da Galileia, no anúncio e inauguração do Reino de Deus.

Ter em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus é um convite que deve ressoar continuamente em nossos corações, tal como inspirou Paulo à Igreja de Filipos (cf. Fl 2,5). Se não é por, com e em Jesus, de nada vale nosso cristianismo. Continuar a professar a fé cristã significa dizer que ela continua sendo fonte de sentido para a existência. Eis uma interpelação à qual não devemos nos furtar: a de dar razões de nossa esperança (cf. 1Pd 3,15), pois é a isso que Jesus Cristo nos congrega como Igreja, para que sejamos sinais e testemunhas do Reino, que é para todos e todas, indistintamente.

Esses nossos tempos exigem de nós criatividade no cumprimento de nossa missão. A resposta dada pelos reacionários tradicionalistas é, desde o início, fadada ao fracasso: acabarão presos em sua própria clausura institucional. Que iniciativas concretas, tal como a do Pacto das Catacumbas, tornem-se cada vez mais corriqueiras, a fim de que estejamos sempre cônscios de que é preciso voltar às fontes da fé. Nossa experiência com o Ressuscitado deve sempre nos levar de volta à Galileia, lugar onde tudo começou: é preciso deixar que nos encantemos pela vida e missão de Jesus, para que sigamos inspirados no exercício cotidiano do anúncio existencial do Evangelho.

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.



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