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19/10/2019 | domtotal.com

Kallocaína: o futuro distópico de Karin Boyle

No romance escrito em 1940, autora sueca descreve sociedade controlada por tiranos e droga da verdade

Escritora projeta universo de angústia e falta de esperança
Escritora projeta universo de angústia e falta de esperança (Reprodução)

Jovino Machado*

A leitura de Kallocaína – romance do século XXI, da escritora Karin Boye (1900-1941), repercutiu em mim como uma máquina do tempo e me lembrou das emoções que meu coração sentiu quando assisti filmes e li livros em que o Estado é tudo e o indivíduo é nada. É exatamente esse o enredo do romance que retrata uma sociedade controlada por um regime totalitarista. Nada mais atual nesses tempos em que vivemos o oposto da utopia.

Nessa narrativa distópica, predomina a brutalidade e o estrangulamento do indivíduo, que vive sob condições de extrema opressão, desespero e privação. Numa ode à desilusão, a autora – que cometeu suicídio – registra a morte interior de seres humanos sobrevivendo em ambientes subterrâneos e claustrofóbicos à espera de algo que não existe. Sobre a sua obra sombria e assustadora, a autora sueca disse: “Prometo que nunca mais escreverei algo tão macabro novamente”.

O atormentado protagonista, Leo Kall, é um químico. Ele desenvolveu a droga da verdade chamada kallocaína, um medicamento que beneficiará o Estado e capaz de fazer qualquer pessoa revelar seus segredos, alguma coisa que foi obrigada a esconder por vergonha ou medo. Um remédio que não deve ser engolido, mas injetado diretamente na corrente sanguínea. A kallocaína é capaz substituir todos os demais métodos de investigação em todo o Estado Mundial.

As cobaias recrutadas, todas transgressoras trazidas diretamente das prisões, formam longas filas para revelar seus pensamentos íntimos e emoções, pois tudo isso não pertence ao indivíduo e, sim, ao Estado. As campanhas de recrutamento, feitas para o Serviço Voluntário de Cobaias Humanas, são divulgadas em diversas instituições da Cidade Quimica.

O objetivo do Estado é treinar outras pessoas de todas as partes a aplicar injeções e aumentar a fabricação da droga para aplica-la em grande escala, visando, em última instância, o desenvolvimento grandioso do aparato burocrático e o controle sobre a população. A droga, enfim, é um instrumento que possibilita revelar pensamentos e ideias subversivas, a relutância íntima e condenável de cada um de se submeter ao controle estatal, mesmo que as intenções pessoais não tenham se concretizado em crime perante a lei.

Encarcerado, Leo Kall se sente bem na prisão, não reclama da cama e nem da comida. Sente-se mais livre do que quando estava em liberdade. Próximo dos 40 anos, ele entra no outono da vida refletindo sobre seu destino, especulando o que pode haver de glorioso no todo da escadaria da existência. Reflete sobre o amor romântico que sente por sua esposa Linda e uma série de derrotas e sua expectativa de alcançar uma vitória.

No seu íntimo, Kall se sente uma célula insignificante do organismo estatal, bastante intoxicado por grande quantidade de drogas. Como químico, sua intenção é concluir uma pesquisa que libertaria o corpo do Estado de todos aqueles venenos injetados pelos transgressores da ideologia. Como o personagem de Franz Kafka, acorda sempre de sonhos e pesadelos intranquilos e essa intranquilidade torna-se a sua companheira diária.

Há também um sentimento de medo no amor obstinado por sua mulher, que o faz sentir exposto sob luzes de holofotes quando Linda o encara com seu olhar penetrante e perturbador. Dentro de pesadelos delirantes, ele se encontra numa verdadeira confusão mental e, diante de inúmeros obstáculos, desabafa: “Eu não estava disposto a ir adiante, mas tampouco queria ficar ali parado ou retornar”.

No perturbador romance de Karin Boye, há uma velha anedota sobre um esgrimista tão habilidoso que conseguia até mesmo ficar seco debaixo da chuva. Antes de alguma gota o tocar, ele as golpeava com sua lâmina. É mais ou menos assim que agimos quando nos sentimos atingidos pelo grande terror. É assim que Leo Kall, Linda, Edo Rissen, Ossu, Maryl, Laila e todos os personagens se sentem diante de tamanha opressão.

Na subterrânea e sufocante Cidade Química número 4, as crianças são separadas dos pais e têm dias certos para visitar a família. Desde muito jovens, são doutrinados pelos tiranos. Neste ambiente sombrio, todos são vigiados o tempo todo. A qualquer desconfiança, chefes e subordinados podem se delatar ou ser delatados uns pelos outros. Empregadas domésticas são obrigadas a fazer relatos semanais sobre as famílias.

O objetivo do casamento é ter filhos para servir o Estado. Quando Linda é amordaçada pelo marido, que lhe aplica uma injeção de kallocaína, ela, sob o efeito da droga, desabafa relatando a diferença que sentiu quando teve seus filhos. O filho homem seria um soldado útil ao totalitarismo enquanto a filha, segundo ela, serviria apenas para procriar e gerar mais soldados e mais cobaias.

Para os apreciadores de narrativas distópicas e para os leitores que querem refletir sobre a tirania de um passado que se faz cada vez mais presente, apontando para um futuro que é a antítese da utopia, vale a leitura de um romance de pura desesperança. O niilismo exposto é filho de todas as nossas dores, mãe de todas as injustiças e pai de todos os horrores.

Na Cidade Química número 4, as ilusões estão todas perdidas e os sonhos jamais serão reinventados. Os censores obscurantistas não vão permitir que os seres humanos experimentem qualquer tipo de liberdade. Os racistas, os homofóbicos e os genocidas não vão permitir a construção humanista de um mundo onde todos tenham um lugar ao sol. Qualquer semelhança com os descaminhos da realidade atual, por onde avança o fascismo, não é mera coincidência.

KILLOCAÍNA
De Karin Boye
Editora Carambaia
256 páginas
R$ 86,90

*Jovino Machado é poeta, autor de 'Sobras completas' (2015) e 'Trilogia do álcool' (2018).

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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