Religião

21/10/2019 | domtotal.com

'O território mais exposto ao extrativismo predatório é a Amazônia', afirma religioso

Dário Bossi, uma dos religiosos que mais atuam em defesa das vítimas do extrativismo mineral no Brasil, faz um 'raio x' dos desastres socioambientais gerados por grandes empresas brasileiras

Assumir a Amazônia é tarefa para poucos e ficou claro, nessa reta final, que requer muita coragem.
Assumir a Amazônia é tarefa para poucos e ficou claro, nessa reta final, que requer muita coragem. (AFP)

Mirticeli Medeiros*
Especial para o Dom Total

Cidade do Vaticano - O sínodo dos bispos para a região pan-amazônica não é feito somente de propostas, mas de histórias. O mundo tem conhecido bispos, padres e leigos que atuam em defesa de um povo que sofre há muitos anos: muitas vezes, encerrado num silêncio que lhes é imposto pelo descaso. Finalmente, os descartados pela sociedade, provenientes dessa região, se veem representados não somente por um grupo de religiosos, mas por uma instituição inteira.

Papa Francisco e sua ecologia

E quem conduz essa marcha em resposta a esse grito que vem da floresta é um líder que não se limita a falar de ecologia, mas promove uma ecologia integral. O termo, equalizado pelo papa Francisco, tem sido exaltado por grandes nomes da ciência no decorrer desta assembleia por englobar os ideais de humanidade, colaboração, cuidado e compaixão.

O climatologista Carlos Nobre, um dos especialistas convidados pelo Vaticano para refletir sobre as mudanças climáticas durante a reunião de bispos, chegou a dizer que o pontífice imprimia um novo ambientalismo. A “santa ousadia” de propor ao mundo uma ecologia integral gera aquele sentimento de casa: o da casa comum com a qual os participantes desse sínodo se comprometeram.

Essa assembleia especial de bispos que trata de temas “escandalosamente humanos” e foi convocada para atender as necessidades de um território específico, de repente é reduzida ao questionamento em torno de uma imagem de uma indígena grávida. Mas as dores de parto da Amazônia, causadas por um "eclampsia" de ganância, interesses e colonialismos, são jogadas na gaveta do esquecimento da maioria dos jornais. Padre Dario Bossi é daquelas pessoas que captaram esse sofrimento do qual estamos falando. E não só: fez questão de encarná-lo e encará-lo. Assumir a Amazônia é tarefa para poucos e ficou claro, nessa reta final, que requer muita coragem.

Padre Dario Bossi tem assumido para si a luta de pessoas que vivem à margem das grandes mineradoras (Foto: Mirticeli Medeiros)

Um sacerdote que denuncia

O sacerdote tem assumido para si a luta de pessoas que vivem à margem das grandes mineradoras. O missionário italiano que vive no Brasil há cerca de 15 anos, denuncia o impacto causado pelo extrativismo predatório, tema que lhe conferiu notoriedade internacional.

A sua vida missionária foi marcada pela experiência junto à comunidade do bairro Piquiá Baixo, em Açailândia, no Maranhão, cidade que faz parte da Amazônia legal e possui a maior mina de ferro a céu aberto do mundo. Os moradores da região, após constatarem o alto índice de enfermidades causado pela poluição gerada pelas empresas que os circundam, não se calaram. Chegaram à conferência interamericana de direitos humanos e ao conselho de direitos humanos da ONU para protestar contra uma série de violações.

“Uma comunidade que assumiu seu futuro e disse que não aceitava mais esse tipo de violência. É, para todos, um sinal de esperança. Conseguiu construir seu bairro longe da área de poluição. Sendo assim, vejo que a esperança da Amazônia se encontra nas próprias comunidades amazônicas”, disse.  

O sacerdote, provincial da congregação comboniana no Brasil, define que o bairro, com pouco mais de 1100 habitantes, viveu um drama que poderá se tornar "uma parábola existencial de resistência" para as gerações futuras.

“Essa comunidade representa todas as comunidades que foram vítimas do processo extrativista. Eu vivi lá e sei que é uma comunidade que interage com muitas outras da Amazônia e com outras regiões da América Latina que sofrem por causa do mesmo modelo. [...] O extrativismo não possui nada de sustentável, nem de permanente”, ressaltou.

Ele também diz que “o território mais exposto ao extrativismo é a Amazônia. Segundo ele, “as empresas extrativistas no Brasil estão tendo mais custos na extração do minério, então precisam buscar territórios onde o custo seja menor”.

“É um custo menor para a empresa, mas custa muito ao meio ambiente e às pessoas", completou.

Lutas e vitórias

Piquiá foi o “laboratório de resistência” de padre Dário. A experiência foi um impulso para que ele ajudasse a fundar, em 2013, a rede “Igrejas e mineração”. O grupo ecumênico, formado para denunciar o desastres socioambientais gerados pela mineração nos territórios, leva as comunidades afetadas pelo extrativismo desenfreado a protestar contra todas as violações.

Renúncias necessárias

O religioso, em encontro jornalistas nesta segunda-feira (21), no Vaticano, também reiterou que é hora da igreja assumir a postura de protesto, desfazendo-se dos metais provenientes dos minérios.

"Deveria existir uma reflexão da igreja sobre o uso do ouro. A simplicidade dos símbolos e uso sóbrio dos objetos litúrgicos também podem ser um sinal. Seria bom que a igreja deixasse de usar o ouro em suas liturgias, por exemplo", exclamou.

Cobertura especial:

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Instituições Conveniadas