Religião

25/10/2019 | domtotal.com

Ação pastoral dos padres que pediram dispensa do celibato

Os que deixaram o presbiterato para se casar podem ser solução para as necessidades da Igreja

Uma pessoa que deixou o ministério ordenado continua apto ao trabalho pastoral mesmo casado
Uma pessoa que deixou o ministério ordenado continua apto ao trabalho pastoral mesmo casado (Charles Postiaux/ Unsplash)

José Almir da Costa*

Muitos são os ministros ordenados que, por vários motivos não possíveis de serem elencados aqui, pediram dispensa do ministério. Qual ação pastoral esses padres exercem atualmente na Igreja? A pergunta suscitará várias respostas dependo da diocese, do bispo, da região e do próprio ministro que se ausentou das funções clericais.

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De forma geral, existe uma orientação que consiste na proibição de qualquer ação pastoral desses padres. Como não há uma acolhida fundamental, nem um processo para sua reinserção na ação pastoral da Igreja, todas as vezes que tentam exercer sua missão cristã, fruto do batismo, são de certa forma malvistos por alguns bispos, padres e leigos. É como se fizessem algo à revelia e na contramão do processo diocesano. Os irmãos dispensados do ministério ordenado carecem de acolhida e de não serem vistos como inimigos da Igreja.

Resumidamente, uma vez deixado o ministério, o até então padre deve recolher-se ao silêncio interior e deixar tudo o que exercia. Inclusive, não pode atuar no ensino de conteúdos teológicos dentro das universidades católicas. Trata-se de uma mudança radical de vida e que exige fé e esperança no Senhor. Abandonar o ministério não é nem de longe o mesmo que abandonar a fé.

Atualmente, com o Sínodo para a Amazônia, reacendem-se as esperanças de que se ventile a questão dos padres casados, apesar do documento preparatório não tratar do retorno destes ao ministério. Antes, o Instrumentum laboris propõe como discussão apenas “a possibilidade da ordenação sacerdotal para pessoas anciãs, preferencialmente indígenas, respeitadas e acolhidas por sua comunidade, ainda que já tenham uma família constituída e estável”. Oxalá, com a aprovação da ordenação dos viri probati, possa ser posteriormente discutida a acolhida mais fraterna dos que pediram dispensa do ministério.

Vale frisar que esse tema não deve ofuscar as grandes questões sociais e de fé da região Amazônica, que nos desafias a expressar um novo rosto eclesial. Os problemas que lhe afetam são urgentes: violência sistemática na forma de violação de direitos humanos, especialmente em relação às mulheres; tráfico e disseminação de consumo de drogas; destruição de culturas; migrações forçadas; tráfico humano; assassinados de líderes indígenas e populares.

Deseja-se imensamente que a Igreja se posicione em relação a essas e outras graves situações de negação de direitos. Espera-se que ela não só expresse simplesmente sua defesa da vida, mas que aponte as estruturas e aqueles que praticam atos de morte contra as populações. Afinal, é preciso não só defender o bem, mas agir como Jesus, que chamou expressamente por raça de víbora aos hipócritas e exploradores dos pequeninos. Urge expressar claramente onde se encontram o trigo e o joio para saber de qual lado estamos.

Quanto a mim, falo do lugar de quem a dois anos atrás, depois de uma longa caminhada de discernimento, pediu o afastamento das funções ministeriais. Óbvio que, se atualmente pudesse retornar como padre casado, eu o faria tranquilamente, dado que a dificuldade de exercer o ministério e a razão de me afastar ter sido o desconforto com a regra do celibato. Contudo, sabendo que a discussão sobre o retorno ao ministério dos padres casados é algo para o futuro, reconheço que algumas questões na relação destes com a Igreja poderiam avançar.

Primeiro, seria interessante que eles fossem acompanhados pelo clero local quanto à sua adaptação a nova vida e sentimento. Isso possibilitaria também que, aos poucos, fosse possível saber quem estaria apto a exercer funções pastorais. Como se trata de um momento de muitos conflitos, é importante que cada um seja auxiliado a fim de continuar seu caminho de fé.

Segundo, dado que a Igreja tem necessidade de empregados, vale verificar se algum dos que deixaram a vida no clero se identificariam com essas funções. Mesmo abrindo mão do estado clerical, a pessoa pode ser exímia colaboradora das estruturas ou instituições da Igreja, atuando na administração, contabilidade, secretariado, magistério, coordenação de escola etc. Isso seria uma forma de ampará-la em suas necessidades e ajudá-la no sustento de sua nova vida.

Terceiro, cabe ainda conceder expressamente, ao padre que se casou, o direito de exercer atividades pastorais, de formação, de coordenação, o ministério da palavra, visitas pastorais e aconselhamento na nova comunidade que residir. De um lado, essa seria uma forma dele ajudar pastoralmente, já que não se encontram agentes disponíveis e devidamente formados para assumir muitos dos serviços eclesiais. Por outro lado, seria um jeito dele ser ajudado pela Igreja espiritualmente, pois se sentiria acolhido por uma comunidade de fé.

O papa Francisco suscitou na Igreja uma linguagem amorosa que possibilita melhor acolhida daqueles que, por uma razão ou outra, sentem-se excluídos da vida eclesial. Com maior esperança, confiamos que os frutos do Sínodo para a Amazônia possam trazer ventos novos, prioritariamente, para Igreja amazônida, e, em comunhão, para toda a Igreja. Que, entre esses novos ventos, sejam contemplados os anseios dos padres dispensados do ministério presbiteral. Acolhê-los de forma mais generosa trará para a Igreja mais solução do que problema.

*José Almir da Costa é mestre em Teologia pela Faje e graduado em Filosofia e Teologia.



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