Religião

23/10/2019 | domtotal.com

Participantes do sínodo protestam contra fake news sobre a assembleia

Em reta final da assembleia dos bispos sobre a Amazônia, participantes lamentam perseguição ideológica provinda de grupos 'promotores de desinformação intencional'

Nesta semana, os participantes do sínodo especial para a região Pan-Amazônica preparam texto conclusivo do evento.
Nesta semana, os participantes do sínodo especial para a região Pan-Amazônica preparam texto conclusivo do evento. (Mirticeli Medeiros)

Mirticeli Medeiros*
Especial para o Dom Total

Cidade do Vaticano - Papa Francisco, no discurso de abertura dos trabalhos do Sínodo da Amazônia, no último dia 7, pediu que os padres sinodais evitassem criar um “sínodo de dentro” e um “sínodo de fora”. O pontífice se referia às interpretações distorcidas que poderiam ser feitas pela imprensa no decorrer pela assembleia.

“O sínodo de dentro segue um caminho de Igreja mãe, de atenção aos processos. O sínodo de fora que, por uma informação dada com ligeireza, dada com imprudência, leva aqueles que têm o dever de informar a difundir mal-entendidos”, disse o papa aos participantes.

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Em meio a esse processo, a mídia católica está dividida. Muitos têm protestado contra os principais assuntos tratados pela reunião, que acontece no Vaticano até o dia 27. Desde o processo de preparação, iniciado em 2017, os ataques têm se multiplicado. Grupos ligados a setores mais conservadores da Igreja têm questionado a ênfase dada às questões ambientais e sociais, temas de maior relevância para a assembleia de debate e reflexão.

“Não temos dado ouvidos a isso. Mas isso tem incomodado as pessoas de boa vontade que têm trabalhado com seriedade no sínodo. Algumas manifestações que acontecem são desrespeitosas, agressivas e até doentias”, reiterou padre Zenildo Luiz Pereira da Silva, auditor do sínodo.

Padre Zenildo, no encontro com os jornalistas desta quarta-feira (23), promovido pelo Vaticano, foi o primeiro a se pronunciar, oficialmente, a respeito das difamações lançadas contra a assembleia especial em curso. Na visão do sacerdote, essas manifestações demonstram “uma falta de comunhão dotada de uma enorme carga religiosa”, caracterizada por ele de “pseudocatolicismo”.

Em entrevista ao Dom Total, ele destaca que o problema não está na falta de informação a respeito da Amazônia, mas sobre o que está por trás do discurso ofensivo contra o trabalho daqueles que assumiram as causas da região.

“A Amazônia é uma terra de disputa e com esse tipo de atitude querem enfraquecer qualquer iniciativa que gere o fortalecimento dos povos da Amazônia, das pautas levantadas pela Igreja”, explicou.

As críticas começaram a se intensificar após a publicação do Instrumentum laboris – documento de trabalho do encontro –, divulgado em junho deste ano. O texto reuniu propostas de bispos, padres e leigos dos nove países que integram a região pan-amazônica.

“Muita gente tem criticado o sínodo para poder atacar o papa Francisco. Muitos não estão acostumados com o debate e com os processos participativos que podem conduzir a um consenso. O sínodo incomoda por causa dessa metodologia”, disse Márcia Maria Oliveira, professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e perita convidada do sínodo.

De acordo com a antropóloga Moema Maria Marques, uma das auditoras da assembleia especial para a Amazônia, existe uma “produção intencional de desinformação” a respeito do sínodo. De acordo com ela, é necessário “criar uma nova estratégia comunicacional” que seja capaz de conter a difusão desses discursos inconsistentes.

“As pessoas têm produção intencional de ignorância e desinformação, que servem para gerar medo e imobilidade. Não serve nem a quem tem uma visão tradicional – e honesta – nem a quem tem uma opinião mais ligada aos movimentos de mudança. Isso serve somente para impedir o diálogo honesto. E aí, precisamos fazer um desvelamento dos vínculos. Nessa hora, entram as ligações perigosas, os sistemas satânicos que vão se beneficiando dessa produção intencional de desinformação e confusão."

A antropóloga também identificou que a maioria dos produtores de fake news transmite um ar de “boa intenção” em seus discursos. Ela diz que “eles querem dar a entender que é um confronto de opiniões honestas, que têm divergências, e que é algo ligado à explicação e ao convencimento”. No entanto, explica a auditora,  é algo que passa longe dessa prática.

“As fake news estão dentro de um processo intencional de semear desinformação e de semear medo. A gente pensa, às vezes, que é porque as pessoas não interpretam direito, não compreenderam bem e, assim, tentamos explicar mais. E essa confusão gera uma nuvem de fumaça, na qual a gente não confia mais em ninguém. As fake news criam um espectro de insegurança total, de falta de confiança absoluta. E isso é o fim da sociabilidade”, lamentou.

“Falar em formar cristãos é falar em formar pessoas com capacidade de diálogo. Não dá para suportar atitudes de intolerância, perseguição e acusação”, concluiu padre Zenildo.

O Sínodo dos Bispos, criado por Paulo VI em 1965, foi uma resposta ao desejo de sinodalidade manifestado pelos participantes do Concílio Vaticano II. Segundo regimento interno, é um órgão de caráter consultivo, não deliberativo. Sendo assim, é um espaço aberto a propostas e orientações pastorais, não para mudanças nos aspectos doutrinais.

Na fase conclusiva da reunião de bispos, produz-se um texto final, que é posteriormente entregue ao papa. Depois desse procedimento, cabe ao sumo pontífice identificar se as sugestões levantadas correspondem ou não aos objetivos pré-definidos durante a convocação daquele sínodo específico. Após alguns meses dedicados a esse processo de avaliação, o líder católico publica a chamada “exortação apostólica pós-sinodal” com algumas orientações para a Igreja de todo o mundo.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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