Religião

24/10/2019 | domtotal.com

Cláudio Hummes 'entregou texto pronto' para o sínodo? Falso

Em fase conclusiva do sínodo, uma explicação sobre as várias etapas de construção do texto final

'Aqui aprendemos a escutar, a valorizar a opinião dos outros', diz Dom Alberto Taveira sobre o sínodo.
'Aqui aprendemos a escutar, a valorizar a opinião dos outros', diz Dom Alberto Taveira sobre o sínodo. (Daniel Ibáñez/CNA)

Mirticeli Medeiros*

Quem escreve o texto do Sínodo para a Amazônia? De que forma ele é construído? Muitas pessoas têm feito essas perguntas ao longo da semana. A assembleia de bispos para a região pan-amazônica, que chega na reta final, se prepara para entregar ao papa Francisco o resultado de quase um mês de debates. A previsão é que o material conclusivo seja apresentado nesta sexta-feira (25) aos participantes e votado no dia seguinte (26).

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As questões levantadas foram fruto de um trabalho de consulta realizado nos nove territórios que compõem a região pan-amazônica. O Instrumentum laboris – documento de trabalho do sínodo – foi formado a partir dessa “rede de escuta”, na qual bispos, padres e leigos puderam entrar com suas contribuições.

Como é preparado o texto final do sínodo?

O documento final, que será disponibilizado ao público na noite de sábado, é fruto de um trabalho em equipe, como acontece em todos os sínodos. Neste caso, a função do relator-geral, confiada desta vez ao cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes, é de caráter representativo. Ele não escreve o texto nem confia “ao povo dele” a redação do documento, mas coordena o trabalho dos grupos. A equipe responsável por essa construção é formada pelos 25 peritos do sínodo, dentre os quais 10 são brasileiros. No grupo, há representantes de todos os países que integram a região pan-amazônica.

Na quinta-feira, 24

O relatório foi dividido por temas. Cada tema foi confiado a um grupo de especialistas. Depois dessa fase, criou-se o relatório geral, que posteriormente foi entregue aos membros da secretaria permanente e da secretaria-especial do sínodo. O cardeal Michael Czerny, dom Daniel Emilio Estivill e dom David Martínez assumem um papel importante nessa etapa, já que eles devem averiguar a consistência do material.

Na sexta-feira, 25 

Neste dia, o texto será enviado para a revisão. Depois, ele será enviado à comissão de redação, que conta com a participação do cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena. O religioso, que participou de coletiva de imprensa no Vaticano na última terça-feira (22), foi erroneamente interpretado por parte da mídia que faz a cobertura jornalística do sínodo. “A comissão de redação – como frisou o cardeal – deve somente aprovar o trabalho dos relatores e não cabe a ela escrever o texto”. Ao contrário do que foi divulgado, a afirmação do purpurado não corresponde a uma novidade, mas é um procedimento estabelecido pelo regimento interno do sínodo, na qualidade de órgão permanente da Santa Sé.

Essa equipe será responsável pela avaliação geral do texto, que acontecerá por volta das 10h (em Roma, 5h de Brasília). Depois desses ajustes, por volta das 16h, todos os participantes terão em mãos o texto final.

“É um processo lento, porém, posso dizer que é uma ótima metodologia, pois passa por diversas mãos. O cardeal, no caso, vai avaliar o trabalho que fizemos. Ele pode aprová-lo, não aprová-lo ou pedir que o refaçamos”, disse a professora Márcia Maria de Oliveira, uma das peritas do sínodo.

A professora também explicou que é errado chamar esse texto conclusivo do sínodo de “documento”, já que trata-se de uma lista de sugestões que serão entregues ao pontífice. Sendo assim, somente a exortação apostólica pós-sinodal, redigida pelo papa, pode ser considerada o verdadeiro e próprio documento oficial do sínodo. “O papa pode basear-se nesse relatório ou não. Fica a critério dele”, acrescentou a perita.

Márcia, que atua no âmbito acadêmico há mais de 20 anos, disse considerar o trabalho do sínodo bastante participativo. Ao todo, foram mais de 1,2 mil ementas produzidas no processo de construção e correção do texto, o que demonstra uma participação efetiva de todos os membros.

“É um trabalho bastante transparente porque passa nas mãos de todo mundo. Não tem como ficar algo que não foi revisado. Mas esse trabalho é árduo. Seria impossível para uma equipe de redação, formada por oito pessoas, fazer isso sozinha”, explicou.

Sínodo ‘distorcido’

Dom Alberto Taveira, arcebispo de Belém (PA), disse que, diante da crise ambiental que o mundo vive, “seria uma omissão grave da Igreja não tratar desse assunto”. O prelado, com essa afirmação, rebate as críticas daqueles que reclamam da ênfase dada pelo sínodo às questões sociais e ecológicas.

“Quando recebemos o texto para fazer as ementas, tivemos a máxima liberdade. Não houve nenhuma coerção por parte de ninguém, nem da comissão de redação. Ao contrário: todo mundo pôde fazer o que quisesse. As pessoas analisam de fora e ficam só fazendo fofoca”.

O bispo, que é um dos padres sinodais, ou seja, um dos participantes com direito de voto, também identificou um clima de unidade que, segundo ele, caracterizou todo o evento.

“Quem vê de fora, fica parecendo que é uma’ brincadeira de cabo de guerra’. Ao contrário: aqui aprendemos a escutar, a valorizar a opinião dos outros. O papa, de maneira magnífica, queria que todos se expressassem”, ressaltou.

 Quem é o perito?

O perito ou “esperto”, como aparece na lista de participantes em italiano, atua como um agente “fiscalizador”, responsável por garantir que o texto em questão siga um rigor técnico. No caso do Sínodo para a Amazônia, há historiadores eclesiásticos, educadores, teólogos, sociólogos, antropólogos, e outras pessoas de várias especialidades relacionadas aos temas tratados pelo sínodo.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.



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