Religião

25/10/2019 | domtotal.com

'Mulheres não vieram para o sínodo somente para defender seus interesses', diz antropóloga

Moema Miranda, uma das 35 mulheres convidadas pelo papa Francisco, fala de sua experiência ao longo de quase um mês de debates e confronto de ideias

Moema participará da 4ª Semana de Estudos Amazônicos, em Belo Horizonte
Moema participará da 4ª Semana de Estudos Amazônicos, em Belo Horizonte (Repam)

Mirticeli Medeiros*
Especial para o Dom Total

Cidade do Vaticano – Ao longo dos debates do sínodo, a maioria dos participantes pediu maior reconhecimento das mulheres que atuam na Amazônia. No entanto, tal avanço ainda divide opiniões na Igreja Católica. O próprio papa Francisco não reconhece uma base teológica para autorizar o diaconato feminino, por exemplo. Por outro lado, muitos bispos da Amazônia justificam que um ministério especial para as mulheres é a via pastoral mais adequada, já que 60% da missão católica na região é conduzida por elas.

Em coletiva de imprensa realizada nesta sexta-feira (25), no Vaticano, foi o bispo da Ilha do Marajó (PA), dom Evaristo Pascoal, a reacender o debate. Segundo ele, “há aberturas canônicas que viabilizam a concessão desse ministério”. “Quando Bento XVI fez uma mudança no Código de Direito Canônico, passou a não associar o diaconato ‘ao Cristo cabeça’. Os canonistas veem isso como uma abertura para o diaconato feminino”, afirmou.

“Aqueles que são constituídos na ordem do episcopado o do presbiterato recebem a missão e a faculdade de agir na pessoa de Cristo. Os diáconos, ao contrário, são habilitados a servir o povo de Deus na diaconia da liturgia, da palavra e da caridade”, diz o artigo 1009 do código.

A antropóloga Moema Miranda é uma das auditoras do Sínodo da Amazônia. Membro da família franciscana e assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), a professora é uma das 35 mulheres convocadas por Francisco para participar da reunião. Em entrevista especial ao Dom Total, ela explica se a assembleia poderá já ser considerada o “sínodo do empoderamento feminino”, como alguns classificaram. Na próxima semana, ela estará em Belo Horizonte participando da 4ª Semana de Estudos Amazônicos (Semea), que acontece na Dom Helder Escola de Direito, na Faculdade Jesuíta e no Centro Loyola.

Você é uma das 35 mulheres que participaram do sínodo. Como foi o encontro para você?

O sínodo é uma experiência única, uma experiência de graça. Sentimos efetivamente uma força que vai além do plano racional e humano. E a articulação e a presença das mulheres acompanham isso. Fiz um retiro antes de vir para cá sobre as mulheres aos pés da cruz. No Evangelho de Marcos, no relato da crucificação de Jesus, diz que elas o tinham acompanhado desde a Galileia e o serviram até Jerusalém. E Marcos diz que elas ficaram e olharam de longe. Os amigos de Jesus já tinham ido embora e elas ficaram paradas, olhando. Esse estar de pé e olhar têm sido a atitude das mulheres nesse sínodo. Elas sabem porque elas vieram, sabem qual é o caminho, sabem a quem elas seguem e não pediram permissão a outros. Elas vieram porque seguem Jesus, porque o seguiam desde a Galileia. E porque tiveram essa coragem, foram as primeiras testemunhar a melhor notícia das nossas vidas: a morte não tem a última palavra. A gente tem que sair desse sínodo dizendo que a morte não tem a última palavra. E porque elas disseram isso, porque elas viram isso, porque Jesus se revelou a elas como o jardineiro que cuida, elas também levaram a boa nova seguinte. E o que Jesus disse a elas? “Digam a meus irmãos que voltem à Galileia e lá eu os encontrarei”. Ele quis dizer para não ficarem em Jerusalém, onde o poder corrobora, corrompe e condena. Voltem para o seu povo, se conectem com ele, se conectem com a raiz, com a terra. Esse lugar, a partir de onde as mulheres falam, é um lugar muito importante, porque é o lugar que está em consonância com a terra. A conexão profunda entre a mulher e a terra, essa presença da mulher na luta dos povos que estão em resistência. É isso que elas trazem para cá. Não é uma agenda estreita, ligada somente ao interesse das mulheres. É uma percepção, uma defesa de algo muito mais amplo. O diaconato para as mulheres como reconhecimento de um serviço que elas já prestam e que sempre prestaram para fazer da Igreja essa grande força de resistência diante de todo projeto de morte.

Como os bispos têm se manifestado em relação a esse reconhecimento efetivo?

Para mim tem sido uma experiência muito bonita. Eu me lembro que, no segundo dia, dom Evaristo dizia ‘Moema, se nada sair desse sínodo, algo não se perderá jamais: o vínculo que nós fortalecemos’. De fato, como é uma experiência de kairós, uma experiência de graça, isso fica, essa força fica. A questão não é só ser homem ou ser mulher, mas os princípios femininos e masculinos que constituem a vida. Todos os homens já estiveram em um corpo de mulher, todos os homens vieram de um corpo de mulher, habitaram um corpo de mulher, tiveram nas águas dos ventres de suas mães. Como vivemos numa sociedade patriarcal que nega os valores desses princípios, é tão bonito quando os bispos, como homens de Deus, se conectam com seu povo e deixam isso pulsar e reverberar no encontro com as mulheres. E aí eles não têm medo, não precisam se amedrontar, não precisam se defender. As pessoas frágeis, fracas e inseguras têm medo que os outros brilhem. E então os homens, que estão muito resistentes à essa capacidade de vivenciar o princípio feminino, ficam inseguros, porque quando veem uma mulher que pode falar como eles, dialogar como eles, eles se perguntam para onde vão. Ao contrário: quando eles estão tranquilos, quando habitam nesse eu que eles são, que é o resultado de tudo isso, eles se tornam, de fato, companheiros maravilhosos. Sendo assim, nesse sínodo vimos alguns bispos que têm essa coragem, são uma inspiração para a gente continuar. Um outro elemento da coragem das mulheres e homens que estão aos pés da cruz é que não é uma coragem prepotente e arrogante. É a coragem de dizer “não vou embora”, mesmo que Jesus ainda esteja na cruz. É essa coragem de permitir que as mulheres se sentem à mesa comigo, partilhem comigo e isso me faça feliz. E tudo isso gera essa energia positiva, essa energia alegre, energia propulsora de vida que o Spinoza falava.

Podemos dizer que é um sínodo que dá mais ‘poder’ às mulheres?

Acho que é o sínodo do reconhecimento do poder que já temos. Não é o sínodo que empodera a gente. Esse poder não é um poder que pode tudo, mas um poder que possibilita tudo. Um poder de poder fazer, não um poder de poder mandar. E essa distinção é importante para nós. Na sociologia, (Max) Weber diz que quem tem poder é aquele que consegue a obediência dos outros. Para a gente, não. É o poder do serviço, o poder da conexão. Se – como no Instrumentum laboris, recuperando a Laudato si – o vínculo principal que nos humaniza é a conexão, a ligação e a interconexão, o reconhecimento de que estamos em fluxo e em relação constante, o poder fazer, poder ajudar isso acontecer, essa tessitura, essa costura, as pequenas partes, vão montando um mosaico tão lindo. Esse é o verdadeiro poder. O poder de fazer do mundo um mundo melhor. Mais que o sínodo do “empoderamento” das mulheres, é o sínodo do reconhecimento inescapável de que as mulheres são essa parte produtora de vida, produtora de harmonia e produtora de paz. Não de uma forma poliana, não de uma forma haribô, mas de uma forma encarnada, como Maria e Maria Madalena. 


Dom Total

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!



Comentários