Religião

25/10/2019 | domtotal.com

Evangélicos no sínodo: como eles vivenciaram a assembleia?

Anglicano de Manaus convidado pelo papa, Daniel Lima acredita no diálogo e diz que encontro foi um convite à transformação da realidade da região

Daniel Lima vive experiência como ‘delegado fraterno’
Daniel Lima vive experiência como ‘delegado fraterno’ (Mirticeli Medeiros)

Mirticeli Medeiros*
Especial para o Dom Total

Cidade do Vaticano - Daniel Lima é membro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Ele atua nas áreas de comunicação e espiritualidade na diocese de Manaus. Ele e sua comunidade realizam um trabalho em parceria com a associação de mulheres indígenas do Alto Rio Negro, com um serviço pastoral realizado na periferia da capital. Em entrevista ao Dom Total, ele fala da sua experiência como ‘delegado fraterno’, um participante da sínodo que é membro de uma outra confissão cristã, e é considerado um “convidado especial do pontífice”.

Em todos os sínodos, os membros de outras tradições cristãs são chamados a participar ativamente do evento. No Sínodo da Amazônia são seis delegados fraternos, entre os quais três brasileiros. Confira a entrevista 

Você, como membro de outra confissão cristã, um “delegado fraterno”, como tem acompanhado essas reuniões?

Eu tenho acompanhado com o coração aberto e com o desejo de partilhar experiências. Creio que o convite que o papa nos fez é um pouco para isso, para partilharmos experiências. As nossas igrejas têm muitas coisas semelhantes. São muito parecidas pastoralmente e isso nos ajuda a refletir melhor. Principalmente agora, neste momento que estamos vivendo, em meio a essa crise climática, unimos as nossas forças para dar uma resposta frente a esses desafios.

Os bispos relataram uma certa dificuldade com as igrejas pentecostais que atuam na região amazônica. Você que provém de uma confissão cristã que está em total diálogo com a Igreja Católica, como vê isso?

Acredito que há sim uma possibilidade do diálogo. É claro, existem grupos dentro do pentecostalismo ou do neopentecostalismo que não se abrem ao diálogo. Mas já conseguimos ver, nesse tempo, algumas pessoas mais instruídas que estão muito abertas, que vivem mais profundamente a sua experiência de fé dentro do pentecostalismo e que estão muito disponíveis ao diálogo. O fundamentalismo é um dos elementos que fecham a possibilidade do diálogo. Inclusive, temos a presença do pastor Moab, da Assembleia de Deus, que está participando ativamente do sínodo. É o momento de aproveitarmos essa fase para crescermos juntos. Na Amazônia, há um grande número de igrejas pentecostais, como em todo o Brasil. Porém, na região, de um modo especial, elas são mais fortes, pois lá é um dos berços do pentecostalismo no Brasil. Tudo começou em Belém (PA), diga-se. Isso, para nós, é um desafio: buscar esse diálogo na medida do possível, evitando imposições e dialogando de maneira bilateral, nunca unilateral. A experiência do sínodo nos convida a isso. Muito se fala da palavra ‘diálogo’ no sínodo. E acredito que é possível. É mais fácil o diálogo entre católicos e anglicanos, porque fazemos parte de igrejas de tradição apostólica. Isso facilita, mas eu não vejo que é impossível dialogar com pentecostais.

O que você leva para a sua missão depois desse sínodo?

Levo para a minha vida, não somente para a minha comunidade anglicana de Manaus, mas também para minha vida como ser humano, como pessoa, essa experiência de antes de trilhar novos caminhos, traçar metas, planejar e vislumbrar para, dessa forma, caminhar bem. A experiência do sínodo é esta: o sínodo é um convite à transformação, à conversão, um convite para caminharmos juntos. Hoje em dia, não é mais possível caminharmos sozinhos. As exigências são urgentes. Principalmente, as emergências climáticas, que afetam diretamente a vida, tanto da pessoa humana quanto do planeta. A experiência do sínodo me ensinou isto: ver, julgar e agir. É um ver com olhos misericordiosos. É um julgar com o coração cheio de amor. E agir com as mãos plenas de justiça e verdade. O sínodo traz isso para minha vida. Volto para Manaus com muita esperança, com muito desejo de trabalharmos juntos e muito aberto às possibilidades de diálogo. É uma experiência riquíssima. É essa unidade que fará de nós pessoas capazes de construir o Reino de Deus aqui nesta terra. O Senhor nos chama e nos envia neste momento final do sínodo. Com Ele, transformar todas as coisas, todas as realidades. E, com Ele, fazer novas todas as coisas. Trilhar novos caminhos e buscar novas respostas.


Dom Total

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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