Religião

28/10/2019 | domtotal.com

Participante do Sínodo se formou em Direito Ambiental na Dom Helder

Mestre analisa assuntos debatidos e alerta: 'Água sofre um perigo de privatização'

'O mestrado da Dom Helder qualificou meus conhecimentos para atuar em defesa dos povos da floresta.'
'O mestrado da Dom Helder qualificou meus conhecimentos para atuar em defesa dos povos da floresta.' (Arquivo)

Mirticeli Medeiros*
Especial para o Dom Total

Roma - José Boeing, da congregação dos Missionários do Verbo Divino, foi um dos padres sinodais da Assembleia Especial dos Bispos para a Amazônia. Em 2014 e 2015 ele fez mestrado em Direito Ambiental na Dom Helder Escola de Direito, em Belo Horizonte. Ele fala sobre a experiência vivida durante o evento, realizado no Vaticano de 6 a 27 de outubro. O sacerdote, que trabalha há 29 anos no território, dentre os quais 10 ao lado da irmã Dorothy Stang, dá seu parecer sobre o resultado final do sínodo.

O que deu para perceber é que o Sínodo para a Amazônia foi um sínodo cheio de vida, já que os participantes tocaram em questões bastante concretas desta vez...

Nesses dois anos de escuta, mais de 87 mil pessoas foram ouvidas. Nós tínhamos um documento construído nas “bases” e trabalhamos sobre ele. Durante as colocações livres, tínhamos que citar a qual artigo do Instrumentum laboris nos baseávamos. Outra coisa: quem veio participar do sínodo estava muito preparado, todos os bispos dos nove países, divididos em 108 dioceses e vicariatos. Peritos, auditores, todos ligados à vida na Amazônia. Outra coisa bonita foi a espiritualidade fora. A Tenda da Casa Comum, da Traspontina, trouxe algo bom. Todos os dias eles estavam conosco, rezando, entrando em sintonia, falando dos mártires. E nesse espírito também tomamos a decisão de fazer o Pacto das Catacumbas nas Catacumbas de Domitila. Tudo isso fez parte de uma grande mística. E em meio a todas essas experiências, o documento foi também bastante embasado. É muito interessante. 

Primeiro se fala da alegria, da beleza da natureza, dos povos, das diversidades culturais, religiosas, do clamor do povo. E depois, pede-se que façamos um caminho novo de conversão cultural, conversão ecológica – inclusive se fala do pecado ecológico, ligado à omissão ou ao jogo de interesses – e fecha o capítulo com a chamada Igreja sinodal, já que o sínodo não é só caminhar juntos, mas decidir juntos. Aqui entram os homens, as mulheres, o reconhecimento do serviço do leigo. Temos catequistas, ministros da palavra, mas muitas vezes eles não são reconhecidos porque às vezes o pároco se apresenta como maior agente de decisão. E aqui, no texto, não: a questão vem para um debate. Sei que muitas mulheres não ficaram satisfeitas com o documento, porque acho que poderíamos ter avançado mais. A contribuição das mulheres indígenas, religiosas e leigas nos ajudou a refletir muito sobre o aspecto ministerial.

A Igreja veio ao encontro de um clamor que não estava muito claro em alguns documentos do magistério: respeitar os povos indígenas e os territórios. Antes, o assunto estava presente somente na fala de alguns padres, de alguns bispos. Agora não: o sínodo está dizendo que essas questões são prioridade. Agora não é mais evangelizar as culturas, mas evangelizar com as culturas.

Tudo, de certa forma, parte da Laudato si

Sim, Laudato si, e entramos nas mudanças climáticas e em outras questões ecológicas. Por isso a palavra conversão entrou em tudo: conversão ecológica, conversão cultural. Não basta querermos que os governos façam, a igreja precisa entrar no debate. São “novos caminhos da Igreja”, ou seja, a começar por nós. Então, tudo começa na consciência de que tudo está interligado, por isso a Laudato si é nosso documento de base. Colocaremos em prática muitas coisas e, claro, em meio a resistências. Temos uma Igreja que abre portas, que está em contato, que é ativa, que defende os povos e seus conflitos, mas temos também uma igreja mais voltada para si mesma, autorreferencial. E o papa tem criticado essa rigidez, esses padres muito rígidos. Então precisamos transbordar. E há também a resistência externa. Porque a Amazônia é explorada nos seus recursos naturais, tendo que lidar com mineração, hidrelétricas, com as monoculturas, a exploração da madeira. Tudo isso foi contemplado no documento e também teremos resistências de fora, dos grandes grupos com interesses de mercado. Será um misto de diálogo e conflito a partir de então.

A questão do rito amazônico gerou muitas polêmicas. Mas muitos se esquecem que só na Igreja Católica temos 24 ritos reconhecidos…

Está citado no texto isso. O rito amazônico seria algo mais encarnado na realidade, como os outros ritos. Temos 380 línguas só na Amazônia. Voltamos à Puebla: rosto indígena, rosto do afrodescendente, rosto amazônico, rosto do imigrante, rosto dos jovens. E o rosto da vida, a beleza da vida. Algo pluricultural, pluri-étnico e pluri-religioso. E quem sabe também um dia não possamos ter uma universidade católica com seminários específicos para os indígenas. Eu vejo tudo isso com esperança. O que queremos? Que o papa, na sua exortação apostólica possa olhar com atenção para essas propostas. Por causa dessa inculturação, desta interculturalidade, se pensa também num rito litúrgico. E não só num rito litúrgico, mas num rito amazônico. Alguém poderia dizer para somente colocar um ofertório diferente dentro da liturgia. Não é isso. Mas um rito todo: que vai da teologia à disciplina, e tudo aquilo que vai além do aspecto litúrgico. E isso, para mim, é uma riqueza de percepção de diálogo com as culturas.

A imprensa europeia, ao meu ver, não tratou os desafios da Amazônia por uma falta de conhecimento. Então parte da cobertura do sínodo tocou em coisas muito banais, em vez de ir para o cerne dessas questões. O senhor teve essa percepção?

Sim, e muitos não queriam mesmo tocar nessas questões. Nós viemos aqui dizer que os povos indígenas serão dizimados. E eles, muitas vezes, só podem contar com a igreja. Eles não têm para onde correr. As terras não foram demarcadas, a garimpagem, a grilagem estão entrando em todos os setores da Amazônia. Há uma série de problemas. Eu, que trabalho na CPT, sofro muito com o conflito diário pela terra, pela posse da terra, pelo meio ambiente, sendo que a maioria da população é pobre. Os bens comuns não estão sendo comuns. E, claro, eu não poderia deixar de falar também da água. Porque a água sofre um perigo de privatização. No Oriente Médio, a guerra é por causa do petróleo. E, na Amazônia, há o risco eminente de quererem utilizar a água comercialmente. A água é bem comum. Então corre o risco que não existam concessões só de florestas, como também para a água. Os agrotóxicos da monocultura da soja poderão interferir na integridade dos rios como o mercúrio que é utilizado na execução dos garimpos. Então as pessoas também estão se contaminando pela água, pelos peixes, pelos alimentos. O documento falou mesmo de um desenvolvimento justo, solidário e sustentável.

Como foi a tua experiência na Dom Helder Escola de Direito?

Depois da minha experiência com CPT, depois de tocar na questão dos direitos humanos, brotou o desejo de estudar direito. Depois, em 2014, fiz mestrado em Direito Ambiental na Dom Helder, o que me ajudou a fazer uma síntese, a sistematizar a experiência. Eu estava muito presente na ação pastoral e isso me trouxe uma vantagem. Tanto que eu voltei para a área da BR -163, onde fiz a pesquisa. O que foi interessante desse período? Primeiro: a maneira como a Dom Helder encara o estudo científico. Todas as nove disciplinas que eu fiz, para cada uma a gente escrevia um artigo científico. Eu mesmo, com outros professores, publiquei sete. Aprendemos a fazer uma grande fundamentação científica, inclusive através de estudos comparados. Então, para mim, isso foi fantástico, aliado a um estudo de qualidade, a professores qualificados e, ao mesmo tempo, era algo que fazia a gente pensar e produzir também. E como fiz a pesquisa de campo abordando a rodovia Transamazônica, Santarém, Cuiabá, abordei a participação comunitária versus modelo desenvolvimentista do governo militar na Amazônia. Eu falei da força da comunidade, que começa por ela mesma, e esse modelo. A valorização da cidadania, dos fóruns permanentes de direitos humanos etc. E eu recomendo a faculdade para quem quiser fazer e digo o motivo. A maneira de pensar o direito deles tem um perfil e esse perfil era o que eu buscava.

O senhor também trabalhou lado a lado com irmã Dorothy por 10 anos. Se recorda de algum fato marcante desse período? Quem era a irmã para o senhor?

A humildade em pessoa. A irmã Dorothy era uma mulher servidora. Ela era a última que ia dormir em todos os encontros. Ela começou com a primeira escola lá em Anapu (PA), que era o lugar mais pobre. Ela pediu a dom Erwin para trabalhar no lugar mais pobre da prelazia. Quando a conheci, ela usava um caderninho onde anotava tudo e dizia ao procurador, dr. Felício: “Olha, vocês precisam resolver isto aqui”. E nas nossas reuniões, ela dizia: “Jovens, vocês precisam estudar Direito, porque essas pessoas precisam saber o Direito que elas têm”. 

Então, nessa época, o Zé Batista foi estudar Direito em Marabá (PA) e eu fui estudar Direito em Santarém (PA). Então se hoje fui advogado e fiz minha carteira da OAB, foi influência dela. Antes, eu queria fazer mestrado na área de Sociologia, de repente, ela disse: estuda outra coisa pra ajudar a gente. Tanto que depois fiquei na Subseção da OAB de Direitos Humanos de Santarém. Comecei a usar o direito como algo útil para as comunidades. Ela me inspirou muito: era simples, servidora do povo e muito consciente de que eles tinham o direito sagrado da terra. Ela tinha consciência disso. Quando cheguei na Amazônia, sabia que ia trabalhar na CPT. Ela era uma missionária, uma religiosa dedicada a uma causa, mas infelizmente distorceram o que ela fazia para difamá-la. Ela defendia os povos e a floresta. Tanto que o conceito das florestas em pé, que ela defendia, está presente no documento final do sínodo. Dizíamos a ela: “Irmã, a senhora precisa sair daqui”. Ela dizia: “Eu não vou fugir, pois eles têm o direito sagrado a esta terra. Eu vou ficar com eles”.



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