Religião

31/10/2019 | domtotal.com

Pacto pela Casa Comum

Revive-se o mesmo gesto da Igreja despojada, pobre e servidora, longe dos símbolos e dos privilégios do poder

Revive-se o mesmo gesto da Igreja despojada, pobre e servidora, longe dos símbolos e dos privilégios do poder
Revive-se o mesmo gesto da Igreja despojada, pobre e servidora, longe dos símbolos e dos privilégios do poder (AFP)

Geovane Saraiva*

O “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum” é por uma Igreja pobre e despojada, com rosto amazônico, servidora, profética e samaritana, buscando imitar o Salvador da humanidade, o Senhor Jesus Cristo, que nada teve, a não ser uma única túnica. Ele que foi objeto de escárnio da parte dos que o assassinaram. E deixa claro: “As raposas têm tocas, as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar sua cabeça” (Mt 8, 20).

Como revigora a fé dos cristãos, na Semana Santa, recordar os sacerdotes, ministros da Igreja, cingidos com aquela toalha, na liturgia da quinta-feira, para lavar os pés de pessoas de suas comunidades! É claro que podem surgir perguntas, que valem para todos: "Estamos dispostos a ser cirineus, a ajudar os irmãos a carregar a cruz de cada dia? Queremos diminuir preconceitos e intolerâncias, num mundo tão diverso?".

Dentro da visão de uma Igreja do Vaticano II, querendo ver suas normas aplicadas a partir do Pacto das Catacumbas (16/11/1965), no dia 20 de outubro, com a Eucaristia sobre o mesmo altar que outrora os padres conciliares firmaram seu compromisso, assumido até a morte, deu-se o “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum”. O evento foi presidido pelo cardeal dom Claudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica.

Revive-se o mesmo gesto da Igreja despojada, pobre e servidora, longe dos símbolos e dos privilégios do poder. Que se depare com a sexta-feira da Paixão, quando o sacerdote se prostra diante do altar, em um inexprimível simbolismo de reverência, humildade e penitência. No início da celebração da Paixão do Senhor, ele quer expressar um profundo, forte e expressivo gesto de amor, que não se explica com palavras, e muito menos com a razão. É como disse tão bem o servo de Deus, dom Helder Câmara: “Que eu possa aprender afinal, cobrir de véus o acidental e efêmero, deixando em primeiro plano, apenas, o mistério da redenção”.

As catacumbas romanas de Santa Domitila estão localizadas na Via Ardeatina e na Via delle Sette Chiese, perto da catacumba de Calisto, no moderno quartiere Ardeatino de Roma. Tais catacumbas pertenciam a Flávia Domitila, doadora daquele patrimônio à comunidade cristã, ela que era parente do Imperador Domiziano (81-96), não cristão e responsável por cruéis perseguições aos cristãos durante o seu reinado. As catacumbas eram conhecidas como os locais de sepultamento dos mártires Nereu e Aquileu. Flávia Domitila assumiu sua fé diante da corte romana: presa, julgada e, como não renunciasse à fé cristã, foi condenada ao exílio, sofreu maus tratos e martirizada.

No “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum”, que dom Helder, na fidelidade aos pobres até o último suspiro, fecunde nossa mente e nosso coração, nos seguintes testemunhos:

“Em primeiro lugar é um pacto, de fato, para a Amazônia, mas é um pacto para nós todos em qualquer lugar, para a Igreja como um todo. Um Pacto pela Casa Comum, isso serve para toda a Igreja e, sobretudo, para a Amazônia, porque é em favor da paz comum da Amazônia. E a Casa Comum é a terra inteira, o povo. É uma memória do que foi o Concílio, momento da Igreja que se reformou e, sobretudo, teve em vista a questão dos povos, um presente na mente, na consciência da Igreja, e também na América Latina foi levado muito a sério. Dom Helder Câmara esteve aqui fazendo esse pacto, junto com outros, em favor dos pobres. E nós continuando essa tradição, nesse mesmo espírito, vamos renovar esse Pacto das Catacumbas. Homenagear dom Helder é, sobretudo, deixar-se invadir pela força que ele deu, a inspiração com que ele trabalhou, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, pelos povos. Assim nós temos que trabalhar, em especial, pela Casa Comum” (dom Cláudio Hummes).

“É a renovação também da opção pelos pobres. É um compromisso de todos os bispos e de todos os que estiveram aqui nas Catacumbas de levar adiante esse chamado. O Sínodo vai ser uma nova posição que a Igreja toma pela Amazônia, marco na história da Igreja. É pelos pobres materialmente e pelos que são rejeitados. Falo dos povos indígenas, povos originários. A maior pobreza que se pode ter é quando alguém tira a identidade desses povos, esperando que deixem de ser indígenas, para que os poderosos consigam tirar suas riquezas naturais que estão nas áreas indígenas. Podemos andar juntos nesse pacto na luta pela natureza, pela preservação da Amazônia. É uma luta comum que ultrapassa todas as barreiras. Receber a estola de dom Helder foi uma surpresa que nunca esperei, porque o conheci pessoalmente e para mim ele é o Bispo dos Pobres, que levou o seu compromisso com os pobres até o último suspiro. Ele deu uma mensagem, não apenas para o Brasil, mas para o mundo inteiro, sempre lembrando que a Igreja faz a opção que Jesus fez: a opção pelos pobres” (dom Erwin Kräutler).

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*Geovane Saraiva é pároco de Santo Afonso, blogueiro, escritor e integra a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza.



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