Religião

31/10/2019 | domtotal.com

Pecado ecológico

A devastação da natureza não é somente um problema ético, é também um problema religioso

São muitas as causas da maior crise ecológica da história, porém na sua raiz se encontra o pecado
São muitas as causas da maior crise ecológica da história, porém na sua raiz se encontra o pecado (Dustan Woodhouse/ Unsplash)

Élio Gasda

“Em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há” (Ex 20,11). A terra é um presente de Deus, que logo apresenta seu termo de Aliança com o povo israelita: os dez mandamentos. Entre eles a determinação: “Não matarás” (Ex 20,13). Qualquer pessoa entende que é pecado matar. Então, podemos considerar a partir de uma perspectiva cristã pecado a destruição do planeta?

O conceito de “pecado ecológico” foi debatido durante o Sínodo para a Amazônia. Desde o início de seu pontificado Francisco vem sinalizando a necessidade de um exame de consciência, arrependimento e confissão dos males causados à natureza: “Somos participantes de um sistema que impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza. Arrependamo-nos do mal que estamos fazendo à nossa casa comum”.

A devastação da natureza não é somente um problema ético, é também um problema religioso, pois se opõe à vontade de Deus. Somente Deus pode revelar até que ponto sua obra é destruída pelo ser humano. São muitas as causas da maior crise ecológica da história, porém na sua raiz se encontra o pecado, tanto em seu aspecto pessoal como no próprio modelo de civilização. Os mecanismos perversos do sistema econômico funcionam contra o bem comum, contra a obra da criação e contra o bem do próximo. O pecado da avareza leva ao pecado ecológico. Uns poucos acumulam riquezas às custas da devastação da natureza. O pecado contém uma configuração pessoal, interpessoal, comunitária, social e cósmica, afeta a humanidade e a criação.

Devastar a natureza é pecar. A crise ecológica é, essencialmente, um problema espiritual. O bom relacionamento entre a humanidade e a Terra foi quebrado e essa ruptura é pecado. Como toda forma de pecado, o ecológico incomoda quem o pratica: ruralistas, o agronegócio que desmata e queima, as mineradoras predatórias como a Vale, a invasão de territórios indígenas, uso irresponsável de agrotóxicos. Os pecados ecológicos também precisam ser confessados. Exigem penitência e conversão. A reconciliação com Deus passa pelo respeito e preservação da natureza. A urgência da conversão ecológica revela a gravidade do pecado contra o meio ambiente como um pecado contra Deus, contra o próximo e as futuras gerações. O pecado espalha a morte e rouba o futuro.

Crime, ecocídio, pecado ecológico são marcas do capitalismo. “Este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão nem na destruição da natureza. Este sistema é insuportável: não o suportam os povos. Nem sequer o suporta a irmã Mãe Terra. Por trás de tanto sofrimento, morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava 'o esterco do diabo': reina a ambição desenfreada de dinheiro” (Papa Francisco).

Tudo quanto agride a terra e agride os filhos da terra. Diz o documento final: “Propomos definir o pecado ecológico como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o ambiente. É um pecado contra as futuras gerações e se manifesta em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, transgressões contra os princípios da interdependência e a ruptura das redes de solidariedade entre criaturas e contra a virtude da justiça. Também propomos criar ministérios especiais para o cuidado da ‘casa comum’ e a promoção da ecologia integral em nível paroquial e em cada jurisdição eclesiástica, que tenham como funções, entre outras, o cuidado do território e das águas, assim como a promoção da encíclica Laudato si. A defesa da vida da Amazônia e de seus povos requer uma profunda conversão pessoal, social e estrutural... Nesse sentido, é importante estarmos cientes da força do neocolonialismo que está presente em nossas decisões diárias e do modelo de desenvolvimento predominante que se expressa no crescente modelo de monocultura agrícola, nossos modos de transporte e no imaginário do bem-estar... O consumo que vivemos na sociedade tem implicações diretas e indiretas na Amazônia....queremos abraçar uma espiritualidade de ecologia integral, a fim de promover o cuidado da criação”.

O Sínodo da Amazônia reforça a “esperança de abraçar e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da "casa comum" e a defesa da Amazônia”. O documento final faz um convite a conversão integral, pastoral, cultural, ecológica e sinodal, pois “tudo está intimamente relacionado” (Laudato si, 16). Somos todos responsáveis por esse modelo de desenvolvimento predatório, dessa economia que mata. Permitimos a destruição e consentimos a criminalização dos que lutam pela casa comum e pelos direitos dos povos.

O documento lembra que o respeito a vida e aos direitos humanos não são mera opção, dever político ou tarefa social, para os cristãos é “exigência de fé”. Por isso precisamos nos converter e colocar em prática o projeto, nada fácil, mas possível, para modificar o atual modelo de desenvolvimento. O pior pecado é aquele ao qual nos acostumamos.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

EMGE

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