Religião

01/11/2019 | domtotal.com

Santidade hodierna

A Igreja compreende que todas as pessoas são chamadas a santidade

A santidade está ligada à
A santidade está ligada à "profundidade da vivência humana" (Priscilla Du Preez/ Unsplasj)

Daniel Couto*

O Senhor “quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa.(Papa Francisco, Gaudete et Exsultate, §1)

Quando observamos os fenômenos religiosos, nas mais diversas partes do planeta, percebemos que há um chamado constante para que o ser humano se encontre intimamente com a divindade e faça da sua vida uma epifania. Isso não é diferente na tradição cristã católica, onde uma profusão de santos rodeia os altares multiplicando a devoção do povo a partir dos seus próprios carismas e conduzindo, como regra necessária, a Deus. O “chamado à santidade” é o caminho daqueles que enraízam na sua existência a própria encarnação do Verbo, transformando as ações no “mundo” a partir da sua fidelidade ao projeto, às orientações e aos exercícios que a própria divindade nos “entrega”.

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Os exemplos de vidas “consagradas”, nos dois milênios de tradição, são diversos e podemos identificar, em cada um deles, um movimento constante de “encontro”, “transformação” e “contemplação”. São mulheres e homens que cotidianamente exercitaram sua humanidade ao ponto de “não viverem, mas deixarem que o Cristo vivesse nelas” (Cf. Gl 2, 20). Segundo o papa Francisco, a santidade é a face mais bela da Igreja, pois nos mostra que é possível tornar-se um testemunho vivo, o próprio Evangelho que está próximo das pessoas, dos pequenos e dos que sofrem (Cf. Gaudete et Exsultate, §9). É o próprio Espírito que, na manifestação do corpo eclesial, conduz as filhas e os filhos de Deus em direção ao Reino e os reforça na caminhada, pois a santidade é um ofício diário.

A Igreja compreende, portanto, que todos são chamados para esse ofício. Pelo batismo, um renascimento a partir da fé, os cristãos fazem parte do corpo de Cristo e trazem em si a marca do Evangelho como missão de ser diferentes no mundo, não na negação, mas na vivência profunda da sua humanidade. Por muito tempo a santidade se tornou algo distante, predicado de poucos eleitos que fizeram feitos grandiosos, em parte pelo caráter “sagrado” atribuído a essas mulheres e homens, mas também pelos compromissos que esse caminho exige. Ao vislumbrarmos vidas “exemplares” daqueles que foram fiéis no seguimento do Reino de Deus, pensamos que é necessária uma “força extraordinária” para “aguentar” a cruz proposta por Jesus. Porém, a santidade está mais próxima da vida ordinária do que essa “mística” nos faz pensar.

Tais distorções da “santidade”, fortalecidas em diversos círculos religiosos e eclesiais, retomaram uma teologia que busca combater o pecado tratando nossa humanidade como impedimento para a conformação da nossa vida com a vida de Jesus. Essas convicções foram difundidas de tal forma que expressões como “ah, mas sou humano” ou “também, não sou santo” refletem como o vocabulário cotidiano passou a incorporar a “santidade” como um atributo “inacessível” e “sobre-humano”. Quando voltamos às Escrituras e à tradição das primeiras comunidades, porém, o que percebemos é que a santidade está ligada à “profundidade da vivência humana”. Não é a partir da negação da natureza, mas no mergulho profundo da própria existência, reconhecendo a condição de participante da comunidade dos seres humanos e vivendo-a até o extremo, que conseguimos nos aproximar da “vida de Jesus”. Foi o próprio “Filho do Homem” que viveu, como primogênito, essa humanidade radical, mostrando que a santidade, pois “só Ele é santo”, passa pela completude da experiência humana.

Viver a completude da humanidade, portanto, é também viver sua complexidade. Talvez seja nesse ponto que a “teologia do combate” tenha se desviado de maneira mais intensa. A perspectiva de santas e santos que negaram a complexidade da natureza humana e suas relações vai na direção contrária ao que viveu e ensinou o Nazareno. Os santos são criaturas que, conscientes da sua condição, transformaram sua maneira de agir no mundo a partir daquilo que lhe é próprio. Como somos intrinsecamente diferentes em nossas motivações, formações, contextos sociais, interesses e etc., os santos ressignificam toda essa amalgama da vida em busca da semelhança com a Palavra. Assemelhar-se com Jesus é viver todas as experiências de maneira profunda, do nascimento à morte, da glória à perseguição.

Reinserir os santos, e a possibilidade de uma vida santificada, é uma das demandas que a Igreja precisa enfrentar no contexto da pós-modernidade, da liquidez das relações e do próprio mundo. Ciente desse grande desafio, o papa Francisco, em 2018, exortou todos os fiéis à busca da santidade. Essa reapresentação do seguimento profundo de Jesus não se tratava de uma dissertação teológica, mas uma “conversa amorosa” convidando toda a humanidade a ser “bem-aventurada”. O convite feito a todos os batizados que assumiram essa caminhada é claro:

Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais. (Gaudete et Exsultate, §14)

O convite do papa não se restringe a esses exemplos, pois o chamado à santidade é universal. Cada um à sua maneira, no seu lugar, na sua vida e na sua ocupação é chamado a ser diferente, a se desfazer das amarras cruéis do sistema que exclui os menos favorecidos economicamente, que explora os recursos naturais até exauri-los, que propaga a intolerância e a violência, que oferece condições ínfimas de sobrevivência àqueles que estão em situação de desemprego, desamparo e desamor. É preciso “viver o momento presente” e ressignifica-lo à luz da vida de Jesus.

A santidade hodierna é fundamentalmente inculturada, localizada, temporalizada, concreta. Ela é hodierna porque não é possível se desligar do contexto social, político e econômico onde será exercitada. Como ofício precisa ser cultivada em todos os gestos, em todos os momentos e em todos os aspectos possíveis. Ela precisa quebrar as barreiras impostas pelos programas anti-evangélicos, precisa buscar a justiça, a dignidade e a paz. A santidade no mundo atual precisa lutar contra todas as distrações que nos torna individualistas, vorazes destruidores e egocentristas. Ela precisa equilibrar a contemplação e a meditação da Palavra com a sua concretude, lembrando que é preciso nos formar dia após dia no convívio fraterno. Temos que estreitar laços, reestabelecer uma fraternidade que está se perdendo na transformação da sociedade em “subúrbios nucleares”. A ordem de Jesus aos seus santos é que ergam suas cabeças e olhem ao redor. Santidade é estar no meio da humanidade, fazer da própria vida o lugar do encontro. 

Se nós adornamos nossos templos com as imagens das mulheres e homens que conseguiram ser a encarnação do Evangelho, o movimento primeiro deles foi adornar o mundo com a presença de Deus. A santidade é sempre um movimento de transbordamento, de fidelidade e de entusiasmo e deve ser buscado como fim para o qual nossa caminhada existencial se dirige. É por isso que é possível dizermos sobre uma espiritualidade santificadora, ainda hoje, pois tal exercício é muito mais concreto do que a nossa mente “colonizada” pela “santidade degenerada” compreende em um primeiro momento.

Para sermos santos, portanto, precisamos primeiro descontruir nossa imagem da santidade. Esvaziados desse entrave, podemos encarnar em nós uma postura de peregrinos, construtores de uma nova sociedade, arautos da justiça, da paz, da fraternidade e do amor. Só na perspectiva da santidade hodierna vamos conseguir enfrentar os degenerados conflitos que nos esperam na caminhada, pois ser cristão (santo, saudável, bem-aventurado, feliz) é carregar a cruz dos pequeninos e lutar, todos os dias, por um mundo menos desigual. Ser santo é ser perseguido, é ser martirizado, é ser corajoso. A santidade hodierna precisa enfrentar as diversas redes que tendem a nos aprisionar em um sistema onde o enfraquecimento do ser humano é proposital. Ser santo é resistir até o fim, pois o Senhor nos libertou!

*Daniel Couto é mestrando em filosofia e é membro da Rede de Animação Litúrgica (Celebra).



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