Religião

01/11/2019 | domtotal.com

Santidade: perceber Deus na carne do mundo

O chamado à santidade se traduz em uma postura samaritana de cuidar e que se vive na corporeidade

O discurso sobre a santidade tem sido utilizado muitas vezes para tornar dócil e disciplinar o corpo à moral
O discurso sobre a santidade tem sido utilizado muitas vezes para tornar dócil e disciplinar o corpo à moral (Cristian Newman/ Unsplash)

Gustavo Ribeiro*

“Eu sou um corpo, um ser,
um corpo só; tem cor, tem corte,
e a história do meu lugar”
(Um corpo no mundo – Luedji Luna)

Temos um corpo, somos um corpo. Ele cresce e se desenvolve aquém de nossa vontade imediata, mas conta conosco para aperfeiçoá-lo e suprir suas necessidades, as nossas necessidades. O corpo comporta tantas coisas e de formas tão diferentes, e que foram mudando ao longo dos séculos, que, agora, possui um potencial ainda maior de descobertas e possibilidades. E é isto que diferencia os seres humanos dos animais, a consciência corporal e que leva à uma criatividade pulsante de utilização de cada parte.

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As culturas ao redor do mundo foram se encontrando com esta consciência adaptando-a à suas realidades mais diversas, ao trabalho, à arte, à estética, à saúde e, também, à religião.

A importância deste sentido é graduada pelas tecnologias desenvolvidas ao longo dos séculos pelas civilizações e agrupamentos humanos. Quanto menos sofisticadas as técnicas de manutenção da vida e das provisões necessárias à sobrevivência, mais importância e significado a força física e o corpo ganhavam.

Se olharmos para a caminhada da fé cristã veremos claramente a relação com o corpo se dando de maneira muito diferente em cada período histórico. A fé dos primeiros discípulos, ainda não misturada à consciência corporal da filosofia grega, tinha uma percepção; a fé dos cristãos da Idade Média era muito diferente, porque já estava calcada numa consciência moral muito mais rígida e permeada de tensões culturais. E assim, cada período pode ser lido dentro dos limites críticos possíveis a partir de suas construções culturais.

A história e a fé dos cristãos é a de um Deus que se fez carne, que assumiu um corpo em profunda união com cada ser humano. A encarnação de Deus é a demonstração mais cabal do seu amor pela humanidade. Ao assumir a realidade humana, Deus se coloca ao nosso lado na vivência de nossos dramas mais íntimos, mas também, se solidariza com a nossa carne, com a realidade corporal de existir no mundo e de enfrentar os desafios da sobrevivência fisiológica.

É o drama de assumir a carne e o que ela representa que leva Jesus à cruz dos malfeitores. E os cristãos exibem o corpo desnudo pendurado no madeiro em todos os lugares, mas acabam por não enxergar que ali está Deus que se fez carne. Sim, carne. A carne que se celebra no memorial eucarístico.

Mas, de modo geral, a fé cristã se coloca diante do corpo de maneira ambígua. Entende-o como dom de Deus, mas desconfia dele. Amarra-o com inúmeros nãos. Diz dele de forma às vezes até desdenhosa, como se a realidade futura não dependesse do agora.

O discurso sobre a santidade tem sido utilizado ao longo da história para esta finalidade, a de tornar dócil e disciplinar o corpo à moral, muitas vezes, castradora da Igreja. Isto soa pesado, mas podemos correr os olhos pelas hagiografias e perceber as práticas de mortificação e ascese para “aplacar as paixões” que os santos utilizaram ao longa da história. Cito apenas três como exemplo: o uso do cilício; misturar cinzas à comida; jejum absoluto por dias. Muitos outros exemplos poderiam ser citados.

Hoje, estas práticas já não encontram tantos adeptos, mas a consciência que as embasava ainda vigora. E a tentativa de matar o corpo ganha outros contornos e novas expressões, basta ver as narrativas utilizadas por grupos conservadores.

A sexualidade é o grande mote desses grupos, que atacam sem nenhuma preocupação todas as possibilidades desviantes de seu ideário estreito. E é em nome de uma pretensa adequação do mundo aos “planos de Deus” que travam suas batalhas contra os corpos mais vilipendiados da sociedade e, ao invés de abraçá-los como irmãos e irmãs, ajudando-os a se curarem da dor da rejeição (e não a seus corpos, que estão perfeitamente “normais”), acabam por infringir ainda mais dor e sofrimento.

Jesus Cristo curava corpos e sabia que mesmo que sua proposta comportasse uma vida futura onde tudo estaria em plenitude e comunhão; Ele valorizava o agora das pessoas, quem elas eram e a dignidade que deveriam possuir. O apelo à sensibilidade e ao cuidado do outro não pode ser completo se não saciar sua necessidade de estar integralmente são.

E é ao modelo de Jesus que devem agir os cristãos, buscando ser acolhida e auxílio para os corpos que estão à margem dos caminhos, nas periferias do mundo. Isto é o chamado à santidade, uma postura samaritana de cuidar.

Em meio à vigência da necropolítica, a postura mais coerente dos cristãos é a de contestar a separação dos corpos em categorias e divisões. E deve se perguntar sempre: quais corpos são considerados belos, limpos e dignos de segurança? Quais corpos merecem estar vivos? Onde vivem os corpos que possuem a melhor cobertura do Estado? Quem estabelece os padrões que oprimem os corpos?

A santidade é uma qualidade de caminhada e não de chegada. Não é santo aquela/e que alcançou, mas quem caminhou e se esforçou por abraçar a vida com paixão. E isto implica não excluir absolutamente nada, porque tudo é graça, é dom de Deus. É ser capaz de estabelecer uma postura dialógica com o mundo e tocar a carne com reverência e cuidado.

A carne de Deus é a carne do mundo, e santos serão aqueles que souberem perceber esta realidade e a abraçarem com uma solidariedade cósmica.

*Gustavo Ribeiro é teólogo de formação; educador popular pelas lições da vida, proximidade com as comunidades eclesiais de base e por amor ao Evangelho da Libertação; graduando em Pedagogia pela Católica de Santa Catarina Centro Universitário e especializando em Gestão Escolar. Atualmente reside em São José/SC. Brinca de ser poeta nas horas vagas, que são bem poucas.



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