Religião

01/11/2019 | domtotal.com

Sínodo da Amazônia: o desastre midiático

A produção intencional de desinformação em larga escala chega à Igreja

Logo oficial do sínodo para a região pan-amazônica, realizado de 6 a 27 de outubro, no Vaticano
Logo oficial do sínodo para a região pan-amazônica, realizado de 6 a 27 de outubro, no Vaticano (Vatican News)

Mirticeli Medeiros*

Eram poucos os jornalistas brasileiros que cobriam o sínodo. Como também foram poucos os latinos de língua espanhola, provenientes dos países que integram a região pan-amazônica, enviados para acompanhar o evento. Além disso, se contavam nos dedos os colegas do velho mundo realmente interessados nas pautas do sínodo. E isso explicou a fixação em temas marginais que povoaram as manchetes dos jornais durante a realização do encontro.

Não posso deixar de recordar as colegas Angeles Conde (espanhola) e Lucia Capuzzi (italiana) que foram uma exceção à regra nessa cobertura. O trabalho delas nos deu esperança. Talvez, elas tenham sido as únicas que compreenderam, a partir de uma perspectiva europeia, que o eurocentrismo é uma página virada no pontificado de Francisco. Um papa que não governa para atender aos interesses “curiais”, mas que encarnou o sentido da sinodalidade. Francisco é o sumo pontífice da Igreja Católica que, como disse a jornalista brasileira Janaína César, “trouxe a periferia para Roma”. 

Entre os americanos, a preocupação exagerada com a “Pacha mama”, que nem Pacha mama era. Das 19 coletivas de imprensa diárias organizadas para informar aos jornalistas sobre o andamento dos trabalhos do sínodo, a maioria delas foi invadida por perguntas relativas às imagens de madeira que decoravam a Igreja de Santa Maria in Traspontina, localizada nas imediações do Vaticano. Durante o sínodo, vários eventos paralelos que refletiam sobre a vida na Amazônia aconteciam nessa paróquia.

Foi um erro que levou até o papa Francisco a se equivocar. O pontífice, que pediu perdão publicamente pelo roubo das imagens dias antes de encerrar o sínodo, também as nomeou assim. Pacha mama – nome separado, não junto –, para quem não sabe, é uma deusa cultuada pelos povos indígenas dos andes centrais, a qual não integra a lista das divindades veneradas pelas etnias indígenas da região amazônica. Sem contar que o escultor, proveniente do estado do Amazonas, quis representar a fertilidade da região através da sua obra. Nada mais.

Aquela associação perigosa entre ideologia, falta de interesse e ignorância acabaram minando o trabalho de muitos – e a própria reunião de bispos. E sim: este é o desabafo de uma profissional da comunicação que representa tantos outros neste momento. Esse foi o sínodo com o maior número de “análises apaixonadas” que já vi, onde a popularidade de alguns ofuscou a credibilidade e a seriedade de quem produz informação de verdade.

Se quisermos ir mais além, precisamos refletir sobre o fenômeno dessa rede de “produção intencional da desinformação”. Essa indústria “diabólica” de fake news que influencia as massas para atender aos interesses de determinados grupos, infelizmente já chegou à Igreja. E o pior: desta vez propagada pelos próprios membros, muitos dos quais travestidos de “um amor incondicional ao papa e à sua instituição”. Esse mote propagandístico, difundido em países marcados por um forte sentimento religioso, é a estratégia certeira para conquistar o maior número de seguidores possível.

E meio à essa tendência, não tem como não lembrar o trabalho magistral dos pesquisadores Naomi Oreskes e Erik Conoways. No livro “Os mercadores da dúvida”, os historiadores da ciência nos fazem refletir sobre a produção de notícias sem fundamento, difundidas propositalmente para respaldar o trabalho de negacionistas. O estudo mostra um submundo de “cientistas que se colocam contra a ciência”, os quais seriam financiados por determinados governos ou estruturas que impulsionariam determinados modelos de desenvolvimento econômico. 

A Amazônia, há décadas, é considerada uma terra de disputa. Será mesmo que os “pios comunicadores católicos”, que ganham notoriedade às custas de calúnias sobre participantes do sínodo, fofocas e informações desencontradas, estão mesmo interessados com as questões disciplinares, morais ou litúrgicas debatidas na assembleia? Quem os financia, quem os patrocina, para quem eles trabalham? É hora de lançarmos esses questionamentos, sobretudo nesse período no qual um “revival ultramontanista” ameaça mais uma vez unidade. A diferença é que o ultramontanismo do presente defende uma tradição sem papa, um cristianismo sem humanidade e uma igreja não soberana que corresponde aos interesses das grandes potências. É isso que queremos?

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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