Mundo

08/11/2019 | domtotal.com

Aniversário sombrio nos 30 anos da queda do Muro de Berlim

A União Europeia acusa países que saíram do comunismo há 30 anos, como Hungria ou Polônia, de agora questionar o estado de direito

Alemães orientais recebem outros do Ocidente no Portão de Brandenburgo, em Berlim, em 22 de dezembro de 1989
Alemães orientais recebem outros do Ocidente no Portão de Brandenburgo, em Berlim, em 22 de dezembro de 1989 (AFP/Arquivos)

Alemanha e Europa comemoram neste sábado (9) os 30 anos da queda do Muro de Berlim, um aniversário que coincide com o aumento dos nacionalismos e do sabor de Guerra Fria, sentimentos muito distantes das esperanças nascidas com o final da Cortina de Ferro.

Em um sinal claro dos tempos atuais, a Alemanha prevê um programa político mínimo.

Há dez anos, líderes de todo o mundo, incluindo as quatro forças aliadas da Segunda Guerra Mundial, se reuniram no Portão de Brandemburgo, em Berlim, epicentro de anos da divisão da cidade e do continente, para derrubar um muro falso, erguido para a ocasião.

A mensagem era clara: os muros e divisões são coisas do passado. Há cinco anos, balões luminosos foram lançados ao longo do caminho da antiga muralha para simbolizar o fim das divisões.

Mas agora não haverá grandes comemorações.

O ambiente político na Alemanha é rarefeito e mais polarizado do que nunca devido à ascensão da extrema direita que se opõe à imigração e à chanceler Angela Merkel.

O crescimento dessa tendência política é especialmente visível na antiga Alemanha Oriental comunista, ilustrando uma lacuna política que persiste 30 anos depois entre as duas partes do país.

O chefe de Estado, Frank Walter Steinmeier, fará um discurso no Portão de Brandenburgo, onde também foram agendados concertos. Em outras partes da capital, serão realizadas exposições.

Preocupados

"A atmosfera de renovação sentida há 30 ou 10 anos não é mais perceptível hoje", explica o Conselheiro para a Cultura da prefeitura de Berlim, Klaus Lederer.

"A cidade quer comemorar o aniversário, mas estamos preocupados", acrescenta o político de esquerda.

"Trump, Bolsonaro, o Brexit ...", cita ele como motivos dessa preocupação.

O presidente alemão será acompanhado na ocasião por seus colegas poloneses, tchecos, eslovacos e húngaros para enfatizar "a contribuição dos Estados da Europa Central para a revolução pacífica", afirma ainda.

A queda da Cortina de Ferro, que dividiu a Europa do pós-guerra, previa um tempo de distensão e unidade, desarmamento e extensão do modelo democrático liberal, mas a direção do vento parece ter mudado e a perspectiva atual é muito mais sombria.

Nova Guerra Fria

As fronteiras voltaram. A União Europeia acusa países que saíram do comunismo há 30 anos, como Hungria ou Polônia, de agora questionar o estado de direito, numa época em que a tentação nacionalista ganha força nos discursos.

No nível geopolítico, "a Guerra Fria voltou, mas desta vez com 'uma diferença'", alertou no ano passado o Secretário-Geral da ONU, Antonio Guterres. "Porque os mecanismos e garantias que anteriormente permitiam controlar os riscos de escalada parecem não existir mais", afirmou.

Por exemplo, os Estados Unidos deixaram o tratado de desarmamento INF assinado com a ex-União Soviética em 1987 e acusa Moscou de violá-lo, o que abre caminho para uma nova corrida armamentista contra a Rússia.

Por sua vez, Moscou coloca suas fichas em todos os lugares de onde Washington se retira, como o Oriente Médio, mas especialmente a China.

"O futuro chegou e nada mais é que uma nova Guerra Fria (principalmente entre os Estados Unidos e a China])", resume o analista e jornalista americano Robert D. Kaplan na revista Foreign Policy, na qual prevê décadas de rivalidade entre os dois países.

O último presidente soviético, Mikhail Gorbachev, ainda popular na Alemanha por não se opor à queda do Muro, não está otimista 30 anos depois.

"A política mundial cai em uma ladeira extremamente perigosa ... Os atuais movimentos militares se assemelham a uma guerra real", alerta ele em seu último livro, uma espécie de testamento político.


AFP

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Instituições Conveniadas