Religião

06/11/2019 | domtotal.com

De qual Espírito falamos?

O Espírito Santo age na história, implicando que o cristão deva se comprometer com a realidade presente

Uma vida repleta do Espírito é comprometida com a causa dos mais necessitados
Uma vida repleta do Espírito é comprometida com a causa dos mais necessitados (Victória Kubiaki/ Unsplash)

Fabrício Veliq*

Uma das piores coisas que pode acontecer a um cristianismo é pensar que o mundo do cotidiano não importa mais. Embora essa frase possa parecer um tanto estranha para quem a lê despretensiosamente, nela está contido um grande problema para muitas pessoas que, nos nossos dias, se dizem cristãs.

Observa-se atualmente o crescimento de movimentos de cunho espiritualista. Neles se apresenta a ideia de vida no Espírito como não envolvimento com o mundo – uma vez que “nossa pátria não é daqui” – ou uma espécie de ascese que visa o isolar-se de tudo que é mundano em nome de uma vida gloriosa futura. Por meio de versículos tirados de seu contexto, justifica-se tal postura como desejada por Deus e necessária à vida de santidade, o que mais se assemelha ao neoplatonismo que ao cristianismo.

No entanto, biblicamente, a ação do Espírito de Deus sempre se deu na história e nunca fora dela. Segundo o Antigo Testamento, a memória que o povo de Israel tem de Deus é a das ações dele em vista de sua salvação. À pergunta “quem é o seu Deus?”, o povo respondia: “o nosso Deus é aquele que nos tirou da terra da servidão, libertou-nos do faraó, e nos levou à terra de Canaã”.

Da mesma forma, ao longo de todo movimento profético, a ação de Deus e seu Espírito sempre se voltaram para a vida cotidiana. O Espírito sempre foi aquele que, falando pelos profetas, cobrava dos líderes do povo o exercício da justiça e que o monarca considerasse a causa dos desfavorecidos, pois não cuidar do pobre era ir contra o próprio Deus.

A vida de Jesus, segundo os evangelhos, era cheia e guiada pelo Espírito porque sua ação se dava na concretude da vida. O texto de Lucas deixa muito claro a estreita relação entre ser cheio do Espírito Santo e ter um envolvimento com a causa dos oprimidos. Nele se narra quando Jesus leu na sinagoga o livro do profeta Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor" (Lc 4,18-19).

Diante disso, qualquer esforço de se pensar uma espiritualidade fora da concretude da vida ou ainda que não volta seu olhar para as pessoas necessitadas, desprovidas, marginalizadas e excluídas da sociedade se mostra discordante do exemplo de Jesus. As diversas tentativas de separar o Espírito de Deus do mundo, como se sua santidade fosse impeditiva para o dia a dia das pessoas comuns, mostram-se perniciosas à fé cristã. Elas geram uma espiritualidade egoica, que nada tem a ver com a solidariedade e engajamento social próprios do Evangelho.

Importa lembrar que o Espírito que buscamos é o de Cristo. Ser cheio dele tem resulta em uma vida que reflete a de Jesus. Isso implica em lutar pela causa dos marginalizados, exigir justiça para todos, demandar igualdade social e engajar na luta pela criação e direito da natureza que, como se crê, faz parte da mesma criação que nós. Em outras palavras, ser cheio do Espírito de Cristo não tem a ver com propostas de não envolvimento com o mundo. Antes, exige tal envolvimento, visando sua transformação por ter como horizonte o Reino de Deus que há de vir.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (Faje), doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com

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