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05/11/2019 | domtotal.com

Mestre do Sabor: o plágio do plágio

Se o The taste já era uma cópia do The voice, esse outro só pode ser o plágio do plágio.

Uma vez que se decidiu pela presença do público no estúdio, por que posicionar os concorrentes de costas para ele?
Uma vez que se decidiu pela presença do público no estúdio, por que posicionar os concorrentes de costas para ele? Foto (Divulgação)
Uma vez que se decidiu pela presença do público no estúdio, por que posicionar os concorrentes de costas para ele?
Uma vez que se decidiu pela presença do público no estúdio, por que posicionar os concorrentes de costas para ele? Foto (Divulgação)

Alexis Parrot*

Finalmente a Globo se rende ao óbvio e decide arriscar sua primeira experiência em reality shows culinários. Depois de ver o sucesso consolidado do Masterchef na Band e os números auspiciosos de audiência da primeira temporada do Top chef na Record, não é de se estranhar que uma decisão nesse sentido fosse tomada.

Mas o risco parou por aí. Para apresentar o programa, delegou a seu departamento de RH a tarefa de oferecer mais um acúmulo de função para o renomado e carismático chef francês Claude Troisgros – que já bate  ponto em um dos canais a cabo do conglomerado, o GNT, à frente de várias atrações de temática gastronômica.

Definido o apresentador (felizmente, mais uma vez com seu sidekick Batista a tiracolo), a ousadia parecia ter se reinstalado e anunciou-se que o programa não seria um formato estrangeiro comprado, mas algo inédito. O frisson durou apenas até a estreia, quando se viu que, de inédito, o tal Mestre do sabor não tinha absolutamente nada.

Não passa de uma imitação com poucas variantes do The taste, competição norte americana já extinta (Anthony Bourdain e Nigela Lawson eram jurados), porém, cuja versão brasileira está na quinta temporada e é apresentada pelo mesmo Claude no já citado GNT.

Funciona assim: três chefs de cozinha escolhem às cegas entre os participantes aqueles que irão formar um time orientado por cada um deles. A cada novo episódio, os times competem entre si, quando alguma imunidade é decidida. Daí, todo mundo compete individualmente com todo mundo. Os mentores viram juízes e, sem saber quem é o autor de cada prato, escolhem um vencedor e quem deve ser eliminado.

A grande diferença entre um e outro programa é que no The taste as decisões são tomadas ao se experimentar apenas uma colherada. No Mestre do sabor, o prato vem completo – como em toda atração do tipo, não importa qual francês esteja julgando: Claude, Jacquin ou Bassoleil. 

E se não fosse comida o item a ser avaliado às escuras? Se fosse, por exemplo, música? Se alguém se arriscar e disser que aí seria o The voice, ganha uma Estrela Michelin – porque é isso mesmo. Se o The taste já era uma cópia do The voice, esse outro só pode ser o plágio do plágio. Com uma desvantagem: enquanto o The taste conseguia ser melhor em vários aspectos se comparado ao célebre programa de calouros, Mestre do sabor realiza a proeza de afundar o navio ainda atracado no porto.

Para começar, o gosto pelo grandioso (uma necessidade recorrente de autoafirmação da Globo) é um problema. O cenário cheio de excessos e forte impressão de tecnologia, lembra mais uma nave espacial do que uma cozinha. Manda o telespectador para outro lugar, eliminando tudo que há de íntimo e pessoal no ato de cozinhar.

Me pergunto também se de fato deveria haver uma plateia ali. Dos quatro episódios que já foram ao ar, houve somente um momento de interação, quando Claude ofereceu para apenas uma das pessoas um prato que estava sendo feito. E a questão pesa mais ainda se formos pensar em como subverteu-se gratuitamente a geografia do programa de auditório clássico.

Uma vez que se decidiu pela presença do público no estúdio, por que posicionar os concorrentes de costas para ele? Pense no programa do Chacrinha, do Bolinha, o show de calouros do Silvio Santos, o Raul Gil, o Faustão... qualquer um onde há ou havia a conjugação desses três elementos: apresentador, plateia e jurados. São estes últimos os que estão sempre de costas para as arquibancadas, quando muito em uma posição lateral – e há um bom motivo para tanto.

Já disse algumas vezes em outros artigos que a banca de julgadores é a alma de programas como esse, mas isso não muda o que de fato nos motiva a assisti-los, não importa se de cozinha, canto, dança ou seja lá do que for. O que interessa é a competição. Os concorrentes são a real atração e não o julgamento de sua perfomance. Ao entronizar os avaliadores no centro das atenções só se confunde ainda mais o andamento do programa, já naturalmente confuso.

Claude, por exemplo, é apresentador às vezes e juiz em outros momentos – quando os julgadores passam a ser líderes de equipe. Para essa hora, convidou-se uma outra apresentadora, Ana Maria Braga, para passear entre os participantes e conversar sobre o que estavam preparando. No final do episódio, surgiu mais uma, encerrando o programa e convidando para entrevistas com os eliminados via internet. É muito apresentador para um programa só.

As coisas vão acontecendo de supetão e o pobre do telespectador vai se perdendo pelo meio do caminho. A dinâmica do jogo é mal explicada e até os jurados parecem se surpreender com cada nova cartada baixada na mesa.

A história das estações de trabalho que vão mudando de cor de acordo com o tempo corrido da prova é de uma estultice digna das mentes mais brilhantes de um manicômio. Onde foi parar o bom e velho relógio? Ninguém contou para os mestres por trás desse Mestre do sabor que nada pode ser mais dramático que acompanhar o ponteiro de um relógio até o último instante de uma prova? E se não sabem que é o drama o que move um reality, deviam mudar de ramo.   

A atitude da tríade de jurados é outro ponto negativo. Se eliminam alguém, não dizem o porquê; quando imunizam alguém, parece ser um movimento aleatório. Apenas provam os pratos e opinam se gostaram ou não, se o ponto está certo ou não, se conseguem adivinhar os ingredientes e só. Porém, há uma gradação: Kátia Barbosa se envolve; o português José Avillez se interessa; e Leo Paixão não.

No frigir dos ovos, falta consistência narrativa e domínio do formato. Falta o Batista mais solto, como nos acostumamos a ver e a gostar. Falta clareza e falta brilho (apesar da quantidade absurda de luzes piscando sem parar).

Mestre do sabor é um programa oportunista, feito preguiçosamente à imagem de outros programas. A comida não provoca discussão e ninguém aprende nada. Não há espaço para o insight; nada transcende, nada nos inspira – e uma cozinha que não inspira é das coisas mais tristes do mundo.

(MESTRE DO SABOR: quintas-feiras às 22h30, na Globo.)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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