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05/11/2019 | domtotal.com

Escola, professores e alunos em tempos de Revolução 4.0

Um professor é antes de tudo um educador, não só no que diz mas no que faz

O professor será o facilitador do processo de ensino/aprendizagem, passando a indicar caminhos
O professor será o facilitador do processo de ensino/aprendizagem, passando a indicar caminhos (Pixabay)

Ricardo Luiz de Freitas*

A maioria dos professores de hoje do ensino superior, sejam os mais novos ou os mais velhos, não tiveram formação básica para ensinar, muito menos como lidar com jovens recentemente saídos da adolescência. Ainda assim, em sala de aula, sempre procuraram passar para seus alunos, a maioria em formação acadêmica e de caráter, o que de melhor aprenderam na escola (e continuam aprendendo nos cursos que ainda fazem) e na experiência adquirida ao longo de anos no mercado de trabalho e na carreira docente. Um professor é antes de tudo um educador, não só no que diz mas no que faz. Estes profissionais se inspiraram nos melhores mestres que tiveram nas escolas pelas quais passaram.

Durante muitos anos de suas vidas como docentes, lecionar na forma de aulas expositivas utilizando quadro negro e giz, e depois, quadro branco e caneta marcadora, com algum tipo de material impresso sendo distribuído para os alunos (apostilas) ou seguindo algum material de terceiros (livros), era a única realidade, além, é claro, do uso de laboratórios específicos de algumas disciplinas (física, química, biologia, etc.). Também utilizaram muitas vezes retroprojetores com lâminas repletas de conteúdo, sala escura, alunos atentos (apesar de alguns cochilos), e era o máximo de tecnologia que todos tinham na época. E o conhecimento passando da sua cabeça, como professor, ou dos materiais de terceiros que utilizava, para a cabeça dos alunos.

Todos ainda utilizavam o modelo de ensino prussiano do século 17, e poucos sabiam disto!

Depois vieram os computadores pessoais (Personal Computer) e muitos professores passaram a utilizá-los em sala de aula, em substituição às lâminas e ao retroprojetor, para apresentar seus conteúdos na forma de slides em softwares de apresentação como o Microsoft PowerPoint. A sala não precisava mais ficar escura. Os slides eram coloridos e bastante dinâmicos. Os alunos se surpreendiam e professores que dominavam esta tecnologia passaram a expandir seus “fartos” conhecimentos neste tipo de “metodologia” para seus colegas professores pouco ligados a tecnologia.

Com a criação e expansão dos laboratórios de informática, os professores passaram a frequentar mais este espaço com seus alunos para que estes pudessem colocar em prática, de forma virtual, os conteúdos aprendidos em sala, até em substituição a aulas em laboratórios específicos, citados acima, antigos e ultrapassados. A materialização do computador na frente do aluno permitia a ele conferir se o que o professor falava durante as aulas, se refletia na prática, isto tudo dentro da escola. Sucesso total! Os alunos se sentiam mais motivados a assistirem às aulas, pois poucos tinha acesso a computadores em casa.

Com o passar dos anos, os alunos passaram a ter mais acesso aos computadores fora da sala de aula, sejam aqueles espalhados pela escola, sejam em casa, sejam no trabalho, e o uso de computadores durante as aulas passou a não ser mais novidade para os alunos, mas era parte fundamental na assimilação dos conteúdos em sala de aula e os slides em PowerPoint, contendo o resumo da matéria lecionada, base principal, e para alguns alunos, única de fonte de estudo utilizada para as avaliações, deixando de lado outros materiais como livros e apostilas, presentes na bibliografia indicada pelo professor.

Vieram então os softwares educativos e novas metodologias de ensino/aprendizagem. Podemos citar, como exemplo, as metodologias ativas, com os professores tomando toda a iniciativa para pesquisar e empregar uma ou outra novidade em sala de aula. Tudo isso, muitas vezes, com pouco incentivo da escola, mas com genuína vontade de inovar e gerar mais motivação entre os alunos durante as aulas e de criar formas estimulantes e eficazes de assimilação de conteúdos por parte dos alunos. Os alunos passaram a ter acesso a novas tecnologias e equipamentos (smartphones), a novas e rápidas formas de comunicação e disseminação de conhecimento (internet) e o professor (e seus livros) deixou de ser, em grande medida e em muitas situações,  a fonte principal do conhecimento para o aluno. Por mais estudo e experiência que este tenha, é sem dúvida um grande desafio construir a complementaridade com o enorme poder de processamento e armazenamento das máquinas e da rede mundial. É preciso também observar que os jovens estão cada vez mais distantes de livros, sejam eles físicos ou virtuais, porque os extensos e complicados conteúdos neles presentes, devido às novas tecnologias da informação, chegam de forma rápida e dinâmica, inclusive via redes sociais, sem necessidade de muita leitura e interpretação.

Mas, apesar de toda esta evolução, a escola antiga ainda é realidade. Mesmo com a evolução da EaD (Educação a Distância), o aluno ainda é obrigado a frequentar uma escola, mesmo que de forma virtual, receber conteúdo dos professores (textos, áudios, vídeos, etc.), fazer práticas supervisionadas, passar por avaliações (sempre presencial), e aguardar para receber seu tão sonhado diploma. A grande revolução tecnológica pela qual estamos passando, a chamada Revolução Industrial 4.0, está e irá transformar nossas vidas e mudará muitos dos processos que hoje existem. Mesmo aqueles processos que pouco mudaram ao longo das últimas décadas, como as formas de ensino praticadas por boa parte das escolas e seus professores pelo mundo afora, já estão sendo profundamente impactados.

Diversas profissões não existirão mais, e muitas outras ainda estão por serem criadas. Dizem os especialistas e estudiosos da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), uma organização internacional, composta por 34 países (o Brasil está no momento pleiteando a entrada nesta organização) e com sede em Paris na França, que quase dois terços das crianças matriculadas no ensino fundamental hoje no mundo trabalharão em profissões que ainda não existem.

Então qual deve ser o papel da escola e do professor no processo de ensino/aprendizagem diante de toda esta revolução tecnológica e de costumes? E o papel do aluno? São perguntas que intrigam os educadores e muitos simplesmente as ignoram, não porque são negligentes, mas porque não sabem como as responder. Estamos vivendo momentos de experimentações!

Como a escola se reorganizará e sobreviverá, com toda a latência que lhe é característica, num mundo em que o que você ensina hoje se torna obsoleto amanhã, ou seja, após anos na escola o aluno descobre que boa parte do que ele aprendeu não se aplica mais? É muito difícil responder, mas é com certeza inevitável que as instituições de ensino passarão por uma grande mudança na forma como atuam hoje e nos investimentos que terão de fazer. Muitas quebras de paradigmas acontecerão!

O professor, dizem os especialistas, continuará existindo, mesmo depois de toda esta revolução. Seu papel, no entanto, será muito provavelmente diferente do atual. O professor será o facilitador do processo de ensino/aprendizagem, passando a indicar caminhos, mas não sendo mais a referência única ou o centro exclusivo da atenção dos alunos. Para mim tudo isso merece profundas e sérias reflexões. Isto porque mesmo que os novos caminhos sejam, além de importantes, uma consequência natural da evolução humana, a educação no seu mais amplo, abrangente e profundo sentido ainda passará de uma pessoa para outra, olho no olho, e não poderá ser substituída por máquinas! Esta é uma das maravilhas e da essência da própria natureza humana.

Caberá aos jovens a maior transformação, pois ao longo da vida eles precisam de ensino e educação na sua formação como pessoas e profissionais. Eles terão de ter iniciática e acima de tudo curiosidade para buscar fontes diversas de conhecimento, muitos até sem passar por uma escola. Terão de pôr em prática estes conhecimentos de outras formas, inclusive e em grande medida a virtual. Por outro lado, o mercado terá que aprender a receber estes profissionais e a sociedade terá de ir se transformando para conviver com estes novos cidadãos!

Ricardo Luiz de Freitas é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE)

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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