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05/11/2019 | domtotal.com

Chile tem manifestação multitudinária ante um poder impotente frente à crise

Os protestos questionam um Estado ausente em educação, saúde e Previdência com base em um modelo econômico de livre-mercado, onde uma minoria controla a riqueza do país

Manifestante segura a bandeira do Chile durante confronto
Manifestante segura a bandeira do Chile durante confronto (AFP)

Os protestos entraram na terceira semana nessa segunda-feira (4) no Chile, com dezenas de milhares de manifestantes, a maioria estudantes, nas ruas para exigir mudanças a um poder que parece impotente para debelar a crise. Convocados pelas redes sociais para uma "supersegunda" de manifestações, os chilenos marcharam e se concentraram nas ruas de Santiago e outras cidades como Valparaiso e Viña del Mar.

Na capital, logo cedo manifestantes se concentraram em frente aos tribunais, os taxistas protestaram contra a cobrança de pedágio dentro da cidade e em seguida o protesto ganhou corpo e reuniu uma multidão no entorno da Praça Itália, onde foram registrados alguns incidentes isolados com a polícia.

"A luta continua, mas temos que levantar o país. Não convém a ninguém que o país despenque", disse à reportagem Olga Pérez, uma contadora que ia ao trabalho após uma hora e meia de viagem no ônibus da sua casa. "Ainda não temos o metrô habilitado", disse a moradora de Puente Alto, subúrbio operário atingido por atos de vandalismo.

"Ainda não terminou", dizem as convocações pelas redes sociais para as manifestações de hoje no Chile, um dos países mais estáveis da América Latina até o dia 18 de outubro, quando eclodiu um protesto social sem precedentes desde a redemocratização em 1990. O governo ainda não conseguiu controlar a crise, que deixou 20 mortos.

Os protestos questionam um Estado ausente em educação, saúde e Previdência com base em um modelo econômico de livre-mercado, onde uma minoria controla a riqueza do país. Dessa maneira, multiplicaram-se as vozes da esquerda e da direita que pedem uma mudança na Constituição, herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

O presidente Sebatian Piñera cancelou a organização da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) e a COP-25, cúpula do clima da ONU, previstas para este mês no Chile, devido à crise e diz que prefere realizar "um diálogo amplo".

Segundo uma pesquisa realizada pelo instituto de pesquisas Cadem e divulgada no domingo, 87% da população apoia a mudança da atual Constituição. Piñera paga pelos erros na gestão da crise desde o primeiro dia de protestos com uma queda acentuada da sua popularidade, hoje em 13%, segundo o Cadem.

Em um final de semana frenético, com saques a supermercados, incêndios de infraestruturas e excessos, o presidente decretou estado de emergência, enviou militares às ruas e impôs um toque de recolher, medidas que não eram tomadas desde a época da ditadura de Pinochet.

Popularidade baixa

O presidente tem o menor índice de aprovação de um chefe de Estado desde o retorno da democracia no Chile. Nessa segunda-feira, foi divulgado que a economia chilena cresceu 3% em setembro em comparação com o mesmo mês do ano anterior, completando seu melhor trimestre do ano, mas, com os protestos, o governo prevê uma queda até o final do ano, com uma retração de 0,5% em outubro.

A Câmara de Comércio de Santiago (CCS) indicou que 46% das empresas do setor sofreu danos diretos e enfrentaram custos por menores vendas. "O que nós esperamos para o quarto trimestre é uma situação completamente diferente, produto dos eventos que todos conhecemos", disse o ministro da Fazenda, Ignacio Briones.

Abusos sob a lupa

Ativistas, incluindo o Prêmio Nobel da Paz Rigoberta Menchú, pediram nessa segunda a Piñera que interrompa as "graves e sistemáticas" violações aos direitos humanos. Menchú estimulou os chilenos a continuarem trabalhando para conseguir um país mais justo e se mostrou a favor de uma Assembleia Constituinte, destinada a elaborar uma nova Constituição.

Os protestos deixaram 20 mortos, cinco deles nas mãos de agentes do Estado e cerca de 150 manifestantes com ferimentos oculares durante confrontos com a polícia nas manifestações de rua.

Essa crise começou com um protesto de estudantes contra o aumento dos preços das passagens de metrô em Santiago. O movimento desencadeou um profundo descontentamento da classe trabalhadora e da classe média, que têm tido suas expectativas frustradas em um sistema que promove o endividamento. Até agora se trata de um movimento heterogêneo, sem bandeiras políticas e sem liderança identificável.

Rotina abalada

As atividades foram retomadas em Santiago e nas principais cidades do país, embora os chilenos estejam atentos às manifestações maciças convocadas nas redes.

O metrô de Santiago, que transportava cerca de 2,6 milhões de passageiros em dias úteis, estendeu seus horários até as 20h, e se recupera pouco depois de sofrer graves danos em 118 de suas 136 estações, entre elas 25 que foram incendiadas, sobretudo em zonas muito populosas e onde vive a classe trabalhadora.

Os danos ao metrô, um dos mais modernos na região, são estimados acima de US$ 350 milhões. A depredação de pequenas e médias empresas e de estabelecimentos comerciais, além da infraestrutura públicas, superam os US$ 900 milhões, segundo dados oficiais.


AFP

EMGE

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