Religião

05/11/2019 | domtotal.com

Botar o corpo na rua

O corpo em festa na rua e na praça é acontecimento teológico

Deixamos de botar o corpo nas ruas, de ocupar as praças e outros espaços sociais, por medo
Deixamos de botar o corpo nas ruas, de ocupar as praças e outros espaços sociais, por medo (Ardian Lumi/ Unsplash)

Tânia da Silva Mayer*

Sabemos, por experiência, que "viver não é preciso" e que muitas vezes "viver é muito perigoso". A fragilidade da vida nos impõe essas constatações, de modo que dificilmente encontraremos alguém para refutá-las Essa compreensão nos faz cautelosos. Algum espírito jovem poderá sugerir o contrário, tanto de maneira assertiva quanto em gestos e ações que confrontam os limites da autopreservação. Esse tempo da vida é bom, pois o medo do que possa vir a ser no deslize ou no descuido não paira no horizonte da existência. Desse modo, com facilidade, vive-se, e isso basta.

O momento histórico que estamos vivendo nos deixa ainda mais apreensivos. A cada hora de televisão e rádio, somos confrontados por crimes bárbaros contra a vida. E esses crimes, ou as tentativas frustradas de outras violências, chocam, sobretudo, porque praticados de maneira irracional. Não há lógica ou matemática que justifiquem a desproporção desses atentados.

Tudo isso motiva uma síndrome do pânico social. Temos medo das ruas e também não nos sentimos seguros em casa. A pessoa mais íntima pode ser nosso algoz. Por isso, estamos cada vez encurralados em nossas moradias, encerrados em nosso mundinho. Deixamos de botar o corpo nas ruas, de ocupar as praças e outros espaços sociais, por medo. Não bastasse a violência dos civis, ainda precisamos conviver com a violência do Estado. E essa é mais cruel ainda porque nos entendemos cidadãos, possuidores de direitos e deveres, entre esses, o maior deles, ter a vida preservada e preservá-la, a fim de que a existência social seja possível. No entanto, em nome da ordem e dos bons costumes, o Estado mata por meio dos seus instrumentos, tal como a polícia e o discurso de ódio.

O sintoma mais grave desse mal estar social é o individualismo. Esse não é somente sintoma de eus egolátricos e egoístas, mas também do medo de estar na presença do outro, do diferente e de ser confrontado por ele. No fundo, esse tempo é bastante paradoxal, expomo-nos nas realidades virtuais e nos escondemos na vida real. Escondemos o que somos, o que sentimos e pensamos. Por essa razão, constituímos uma sociedade de anônimos, desconhecidos e indiferentes. Estamos anestesiados do afeto pela dor do outro. Aí, já deixamos de chorar e de nos indignar pela violência praticada até dentro de nossas casas.

O remédio para essa doença é exatamente o contrário do que ela provoca em nós. Contra a paralisação dos corpos, a ocupação das ruas e das praças. Manifestação? A presença é o ato revolucionário da resistência. E a resistência é o corpo ocupando espaços vazios e sombrios. Por isso, uma roda de violão, um bate papo, uma performance artística ou alguma apresentação cultural, a conversa entre vizinhos, uma caminhada pela saúde ou pela paz, fazem toda diferença. Transforma.

Há sempre alguém a acusar de panfletagem comunista. Mas o corpo em festa na rua e na praça é acontecimento teológico. Precisamente isto não se pode esquecer: Deus Se expõe, manifesta-Se, revela-Se, põe o corpo na História e Se faz presença. É carne-corpo, resistência contra a tentação do fechamento medroso e egoísta. Ele arrisca, joga-Se, faz festa. Os cristãos, aprendamos com Deus que "viver é um rasgar-se e remendar-se". A gente se remenda outra vez!

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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