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06/11/2019 | domtotal.com

O delegado e o traficante

'Qualé, ô delega? Tá pirado, surtou ou o que?', soltou Meio-Fio

Os olhares se cruzaram na sala, curiosos para ouvir o resto da história
Os olhares se cruzaram na sala, curiosos para ouvir o resto da história (Apu Gomes/AFP)

Pablo Pires Fernandes*

Sabia estar arriscando sua vida quando bateu à porta do barraco. Lá dentro, as vozes se calaram e o som dos passos se confundiam com o ritmo do coração. A surpresa dos anfitriões era inevitável e prevista, com armas apontadas em sua direção, xingamentos e gritos de ameaça. Aílton, no entanto, estava absolutamente sereno.

Com as mãos ao alto, acenou com a cabeça e o chefe entendeu, fazendo com a pistola o sinal para entrar e se sentar no banco manco no canto da sala. “Qualé, ô delega? Tá pirado, surtou ou o que?”, soltou Meio-Fio andando em círculos na sala do muquifo para exibir sua autoridade.

Aílton falou sem levantar a voz, calmo e convicto. Contou sobre sua história na polícia, a honestidade e seriedade que sempre manteve no trabalho e os perrengues ao longo dos mais de 20 anos como delegado. Os cinco traficantes ouviam com atenção a narrativa, pareciam perceber que aquele homem estava passando por uma situação extrema, talvez tivesse rompido algum limite.

A investigação, continuou o senhor limpando o suor da testa, me trouxe até aqui. “Eu tinha tudo, as provas de envolvimento dos agentes da delegacia, tudo”. O chefe riu e disse o óbvio: “Aí eles armaram pra você, caguetaram a operação e a gente te pegou e te jogou lá no poço”. O velho policial assentiu.

Os olhares se cruzaram na sala, curiosos para ouvir o resto da história. “Uma senhora me encontrou lá no poço e me ajudou a sair. Só que, nesta noite que passei sozinho no escuro, minha cabeça não conseguia parar. Achei que ia morrer ali. Pensei na minha família. Senti tranquilidade, mas não estava totalmente em paz.” Aílton pediu um copo d’água e Mutuca lhe entregou. Ninguém falou nada.

O delegado mirava o chão sujo, alternando o olhar nos tocos de cigarro caídos no cimento. Prosseguiu: “Depois de um bom tempo, não sei quantas horas, descobri o que incomodava e tomei uma decisão”. “Desembucha logo, velho!”, disse Meio-Fio, mais curioso do que irritado.

Levantou-se do banco, movimentando os braços num ímpeto de revelar tudo, mas ficou imóvel ao notar dois dos presentes colocar as mãos nas armas. Um gesto de Meio-Fio devolveu calma à cena e Aílton retomou sua história. “Cansei de ser o bonzinho, de ser um dos poucos policiais honestos naquela m... de delegacia. Cansei de fazer vista grossa pra agente filhodaputa, de ver os esquemas da Justiça, dos favores e privilégios dos amigos dos políticos, de apontar os problemas desse sistema perverso que não resolve nada e só sacaneia os pobres. País desgraçado.”

De volta ao banquinho capenga, Aílton esperou a reação dos bandidos. Meio-Fio mandou os outros calarem a boca e indagou o que a história toda tinha a ver com eles. “Onde a gente entra nisso, velho?”. O delegado suspirou e declarou, com certa solenidade, que queria trabalhar com eles, que gostaria de fazer alguma coisa para destruir a podridão do sistema.

Meio-Fio coçou a cabeça, observou o velho de alto a baixo e sentiu pena. Estava diante de um homem desesperado. Era bandido e, mesmo com a ficha cheia de maldades, era sujeito de princípio. Ajudou Aílton se levantar e o conduziu até a porta. “Valeu, velho. Você é pessoa de coração bom, já viu muita coisa ruim e não merece ver mais desgraça. Vai em paz e boa sorte.”

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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