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07/11/2019 | domtotal.com

Personagens à procura de uma história

Cada um com sua sorte, seus sucessos ou infortúnios

Inteligente e perspicaz, aprendeu o mecanismo e os meandros da exportação de minério de ferro e logo tornou-se especialista no assunto
Inteligente e perspicaz, aprendeu o mecanismo e os meandros da exportação de minério de ferro e logo tornou-se especialista no assunto (Divulgação/Acervo)

Afonso Barroso*

Eram quatro Zés, e todos vieram da mesma cidade, que nem era cidade quando embarcaram para a capital. Para chegar a Belo Horizonte, viajaram umas léguas a cavalo e depois pegaram a jardineira da linha. Não sabe o que é jardineira? É o antigo feminino de ônibus.

Em BH, hospedaram-se em pensões ou repúblicas ou na casa de parentes. E se viraram, cada um como pôde. Chamo-os a todos de Zé para preservar os nomes de alguns. Mas são personagens de verdade, reais, neste teatro da vida. Cada um com sua sorte, seus sucessos ou infortúnios. Ou com seu mistério, seu sofrer, sua ilusão, como diz a linda canção Casinha Branca, imortalizada pelo cantor potiguar Gilson (Vieira da Silva) e outros intérpretes.

O primeiro dos Zés era filho de um sapateiro e tinha uma qualidade só sua: a belíssima voz que o credenciaria a ser um novo Nelson Gonçalves se seguisse a vocação de cantar. Não o fez. Empregou-se num laboratório. Aprendeu a vender remédios. Morava com os pais e dois irmãos num barraco à beira de uma rua sem calçamento na região do bairro Calafate e ganhava o suficiente para viver razoavelmente. Escapou de uma cirrose tomando chá de picão, mas morreu assassinado, porque gostava de mulher alheia. E a mulher alheia sempre se deixava levar, porque era ele um sujeito bonito e bom de lábia. Num desses casos de aplicação de chifres sem medo de ser feliz, foi infeliz: levou dois tiros no peito enquanto tomava cerveja com amigos num botequim da BR-040.

- Eu sabia que ele ia acabar morrendo assim, porque era mulherengo demais - disse o conformado pai à beira da sepultura no Cemitério da Paz. E em paz se foi o Zequinha, morto sem remédio.

O segundo Zé deste relato era filho de fazendeiro. Veio para estudar. O pai pagava tudo pra ele: o ginásio, a pensão, as roupas. Fez o curso ginasial e arranjou emprego como escriturário numa empresa siderúrgica. Inteligente e perspicaz, aprendeu o mecanismo e os meandros da exportação de minério de ferro e logo tornou-se especialista no assunto.

Descobriu que aquela era a sua vocação: exportar ferro gusa. Abandonou os estudos ainda no segundo ano do segundo grau e dedicou-se à função de contratar o transporte de minério, estabelecer a logística da coisa, até que resolveu criar sua própria empresa de exportação. Conversou com os chefes, que o apoiaram, e abriu a firma. Sujeito de pouca formosura, mas muito simpático e bom de negócios, já tinha assegurado uma clientela de dez siderúrgicas. E começou a ganhar dinheiro a rodo, recebendo a comissão de um dólar por tonelada exportada. Bom negócio para as empresas, que não precisavam mais se preocupar com a contratação do transporte até o porto, nos trens da Vale, e dos navios até o destino além-mar. E esse segundo Zé da nossa história chegou a exportar uma média de 80 mil toneladas de ferro gusa por mês. Oitenta mil dólares a cada trinta dias. Ficou rico em poucos anos, como é lógico. Era um leão.

Morreu muito novo, aos 60 anos, de infarto fulminante, e deixou uma fortuna em dinheiro e bens para a mulher e o casal de filhos.Grande figura esse Zé, um querido amigo. Não devia ter morrido tão cedo, mas quem sabe e faz a hora é Deus do Céu ou, caminhando e cantando, o Geraldo Vandré.

Outros dois, Zé da Chica e Zé do Zezinho são casos especialmente dramáticos. Amigos de infância, tentaram de tudo pra ganhar dinheiro na capital, mas nada dava certo. Até que tudo começou a dar certo num certo dia em que descobriram uma atividade rentável. Tornaram-se aviões do tráfico de drogas na favela onde moravam. Sempre juntos, não demoraram a passar de aviões a traficantes. Era a atividade que lhes permitia ganhar muito dinheiro e mostrar a coragem dos tempos em que matavam passarinhos sem dó nem piedade nos matos do interior. Desenvolveram essa coragem até o dia em que foram mortos num confronto com a polícia. Droga de profissão que levou para a sepultura, juntos e inseparáveis, esses dois Zés vindos do interior bravo.

Existem, na saga dos imigrantes internos, muitos outros Zés, vivos ou mortos. Um dia escrevo mais duas ou três coisas que sei sobre eles. São histórias ora alegres, ora tristes ou trágicas, mas sempre boas histórias desta vida besta.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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