Religião

06/11/2019 | domtotal.com

O papa, a juventude e os LGBT

A pastoral juvenil precisa proporcionar aos jovens um espaço onde não só recebam formação, mas possam compartilhar a vida

Jovens LGBT desejam uma maior proximidade e atenção por parte da Igreja
Jovens LGBT desejam uma maior proximidade e atenção por parte da Igreja (Unsplash/ Ashkan Masti)

Por Luís Corrêa Lima*

Uma das instituições mais importantes que existem na Igreja Católica, em nível mundial, é o Sínodo dos Bispos. Através do sínodo se realizam amplas consultas às igrejas locais, com questionários enviados previamente a todos os continentes, e se promovem amplos debates sobre temas pastorais contemporâneos, apontando consensos e divergências entre os bispos, de modo a oferecer ao papa um instrumento de governo muito proveitoso. No pontificado de Francisco já se convocou o sínodo para tratar de família, de juventude e da Amazônia. Após as conclusões de cada assembleia sinodal, com seu respectivo tema, o papa elabora uma exortação de caráter normativo. Mas todo o processo é importante, pois desencadeia o debate e a conscientização necessários para o caminhar da Igreja e para a implementação de mudanças.

Em 2018, o tema do sínodo foi: a fé, os jovens e o discernimento vocacional. Tratou-se não só dos jovens que frequentam a Igreja, mas também daqueles que estão distantes ou alheios. Com as respostas obtidas no questionário prévio foi elaborado um instrumento de trabalho preparatório (Instrumentum laboris), distribuído a toda assembleia sinodal, que entre outras coisas diz:

“Alguns jovens LGBT, por meio das várias contribuições enviadas à Secretaria do Sínodo, desejam beneficiar-se de uma maior proximidade e experimentar uma atenção maior por parte da Igreja, enquanto algumas Conferências Episcopais perguntam-se sobre o que propor aos jovens que em vez de formar casais heterossexuais decidem constituir casais homossexuais e, acima de tudo, desejam estar perto da Igreja” (n. 197).

Foi a primeira vez que um texto oficial da Igreja, emitido pelo Vaticano, utilizou a sigla LGBT. A reunião dos bispos durou quase todo o mês de outubro e resultou em um documento final, aprovado por ampla maioria. Sobre a questão acima, os bispos afirmam:

“Em muitas comunidades cristãs, já existem percursos de acompanhamento na fé de pessoas homossexuais: o sínodo recomenda que se favoreçam tais percursos. Ao longo destes percursos, as pessoas são ajudadas a ler a sua história, aderir livre e responsavelmente à sua chamada batismal, reconhecer o desejo de pertencer e contribuir para a vida da comunidade, discernir as melhores formas para o concretizar. Deste modo, ajudam-se todos os jovens, sem exceção, a integrar cada vez mais a dimensão sexual na própria personalidade, crescendo na qualidade das relações e caminhando para o dom de si” (n.150).

Meses depois, no dia da Anunciação do Senhor, em 2019, o papa Francisco publicou a exortação pós-sinodal sobre os jovens, intitulada Cristo vive [Christus vivit (CV), disponível aqui]. Muito pouco se diz sobre questões especificamente relacionadas aos LGBT. Há uma alusão indireta: “os jovens expressam de maneira explícita o desejo de se confrontar sobre as questões relativas à diferença entre identidade masculina e feminina, à reciprocidade entre homens e mulheres, e à homossexualidade” (n. 81).

O que se pode então dizer aos jovens LGBT que desejam uma maior proximidade e atenção por parte da Igreja? O que propor aos que em vez de formar casais heterossexuais formam casais homossexuais? Como favorecer os percursos, já existentes em comunidades cristãs, de acompanhamento na fé de pessoas homossexuais? Como ajudar as pessoas a lerem sua história, a viverem responsavelmente sua chamada batismal, a pertencerem e a contribuírem para a vida da comunidade? Como podem eles e elas integrar cada vez mais a dimensão sexual na própria personalidade, crescendo na qualidade das relações e caminhando para o dom de si? A exortação do papa não responde diretamente a estas perguntas. No entanto, muito do que diz ajuda bastante a pensar sobre tudo isto. Alguns trechos podem trazer muita luz às questões acima.

Francisco cita São Oscar Romero, em quem encontra um ponto de partida fundamental: o cristianismo não é um conjunto de verdades em que é preciso acreditar, de leis que se devem observar ou de proibições. Apresentado assim, causa repugnância. “O cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto que reclama o meu amor. O cristianismo é Cristo” (CV 156).

Cada jovem, quando se sente chamado a cumprir uma missão nesta terra, é convidado a reconhecer dentro de si as mesmas palavras que Deus Pai disse a Jesus de Nazaré: “Tu és o meu filho muito amado”. Um jovem não pode estar desanimado. É próprio dele sonhar coisas grandes, buscar horizontes amplos, ousar mais, ter vontade de conquistar o mundo, ser capaz de aceitar propostas desafiadoras e desejar contribuir com o melhor de si mesmo para construir algo superior (CV 25 e 15).

“Nunca renuncies aos teus sonhos, nunca enterres definitivamente uma vocação”. É preciso não se deixar bloquear pela insegurança. Não se deve ter medo de arriscar e de cometer erros; o que se deve, sim, é ter medo de viver paralisado, como morto ainda em vida. “Vivei! Entregai-vos ao melhor da vida! [...] Abri as portas da gaiola e saí a voar! Por favor, não vos aposenteis antes do tempo” (CV 272 e 142).

Assim como o jovem se preocupa em não perder a conexão com a internet, deve se assegurar de igual modo de que esteja ativa a sua ligação com o Senhor, e perguntar-Lhe: “Jesus, que farias Tu no meu lugar”? Não deve permitir que o enganem ao lhe proporem uma vida desenfreada e individualista, que acaba levando ao isolamento e à pior solidão. Reina hoje a cultura do provisório, que é uma ilusão (CV 158, 263-264).

Há exemplos e testemunhos de vida que são úteis para estimular e motivar, mas não para copiar. O jovem tem que descobrir quem é, desenvolver o seu modo pessoal de ser santo, independentemente daquilo que digam e pensem os outros. Tornar-se santo é tornar-se mais plenamente si próprio, aquele que Deus quis sonhar e criar, não uma fotocópia. “A tua vida deve ser um estímulo profético que sirva de inspiração para os outros, que deixe uma marca neste mundo, aquela marca única que só tu poderás deixar” (CV 162).

Quando se trata de discernir a própria vocação, há várias perguntas a serem feitas. Não se deve começar por onde se poder ganhar mais dinheiro, mais fama e prestígio social, mais prazer. É preciso perguntar: conheço a mim mesmo, para além de aparências ou de minhas sensações? Como posso servir melhor e ser mais útil ao mundo e à Igreja? Qual é o meu lugar nesta terra? Os dons de Deus são interativos. Para desfrutá-los é preciso pôr-se em campo, arriscar-se, não como dever imposto por outro, de fora, mas como algo que estimulará o jovem a crescer e a transformá-los em dons para os outros. Quando o Senhor suscita uma vocação, não pensa apenas no que o jovem é, mas em tudo o que poderá, juntamente com Ele e os outros, chegar a ser. Um bom discernimento, em última análise, é um caminho de liberdade que faz aflorar a realidade única de cada pessoa, aquela realidade que é tão sua, tão pessoal que só Deus conhece (CV 285, 289 e 295).

O papa menciona jovens clamando por uma Igreja que escute mais, que não passe o tempo condenando o mundo, sempre em guerra por dois ou três assuntos que a obcecam. Uma Igreja na defensiva, que perde a humildade, deixa de escutar e não permite ser questionada, acaba perdendo a juventude e se transforma num museu. Embora possua a verdade do Evangelho, isto não significa que a tenha compreendido plenamente. Antes, deve crescer sempre na compreensão deste tesouro inesgotável” (CV 41).

Com relação aos adultos, estes correm o risco de fazer uma lista de desastres e de defeitos da juventude atual. Mas qual seria o resultado deste comportamento? Uma distância sempre maior. A quem foi chamado a ser pai, pastor ou guia dos jovens, a lucidez consiste em encontrar a pequena chama que continua a arder, a cana que parece quebrar-se mas ainda não partiu. É a capacidade de reconhecer caminhos onde outros só veem muros, possibilidades onde outros só veem perigos. O coração de cada jovem deve ser considerado “terra santa”, na qual devemos “tirar as sandálias” para podermos nos aproximar e penetrar no Mistério (CV 66-67).

Não podemos ser uma Igreja que não chora à vista dos dramas dos seus filhos jovens. Certas realidades da vida só se veem com os olhos limpos pelas lágrimas. Por sua vez, os jovens, quando souberem chorar, serão capazes de fazer algo, do fundo do coração, pelos outros (CV 75-76).

A pastoral juvenil precisa proporcionar aos jovens um espaço onde não só recebam formação, mas possam compartilhar a vida, festejar, cantar, escutar testemunhos concretos e experimentar o encontro comunitário com o Deus vivo. O papa alerta sobre encontros de formação onde apenas se abordam questões doutrinais e morais, sobre os males do mundo atual, a Igreja, a doutrina social, a castidade, o matrimônio, o controle da natalidade e sobre outros temas. Resultado: muitos jovens se aborrecem, perdem o fogo do encontro com Cristo e a alegria de segui-Lo. Deve-se conter a ânsia de se transmitir uma grande quantidade de conteúdos doutrinais, procurando antes de mais nada suscitar e enraizar as grandes experiências que sustentam a vida cristã. Nunca se deve substituir a experiência feliz de encontro com o Senhor por uma espécie de doutrinação (CV 204, 212 e 214).

Às vezes, por se pretender uma pastoral juvenil asséptica, pura, caraterizada por ideias abstratas, afastada do mundo e preservada de toda a mancha, reduz-se o Evangelho a uma proposta sem sabor, incompreensível, distante, separada das culturas juvenis e adaptada só a uma elite juvenil cristã que se sente diferente, mas na verdade flutua num isolamento sem vida nem fecundidade. Assim, juntamente com as ervas daninhas que se rejeitam, arrancam-se ou se sufocam milhares de rebentos que procuram crescer em meio às limitações. Em vez de sufocá-los com um conjunto de regras que dão uma imagem redutora e moralista do cristianismo, é necessário investir na sua audácia, educando-os para assumir as suas responsabilidades, certos de que também o erro, o fracasso e a crise são experiências que podem revigorar a sua humanidade (CV 232-233).

No sínodo, surgiu o apelo a construir uma pastoral juvenil capaz de criar espaços inclusivos, onde haja lugar para todo o tipo de jovens, onde se manifeste que realmente somos uma Igreja de portas abertas. Não é necessário que uma pessoa aceite completamente todos os ensinamentos da Igreja, para poder participar em alguns dos nossos espaços dedicados aos jovens. Basta uma atitude aberta para com todos os que tenham desejo e disposição de se deixar encontrar pela verdade revelada por Deus. Deve haver espaço também para todos aqueles que têm outras visões da vida, professam outras crenças ou se declaram alheios ao horizonte religioso. Todos os jovens, sem excluir ninguém, estão no coração de Deus e também devem estar no coração da Igreja (CV 234-235).

Não há necessidade de percorrer um longo caminho para que os jovens se tornem missionários. Mesmo os mais frágeis, limitados e feridos podem sê-lo à sua maneira, porque sempre devemos permitir que o bem seja comunicado, embora coexista com muitas fragilidades. Que se olhe para os jovens com compreensão, estima e afeto. Que não sejam julgados continuamente, nem se lhes seja exigida uma perfeição que não corresponde à sua idade. Devemos suscitar e acompanhar processos, não impor percursos (CV 239, 243 e 297).

Felizmente estas propostas oriundas do processo sinodal e da reflexão do papa já se tornam realidade em vários núcleos de Pastoral de Juventude, onde também se acolhem jovens LGBT.

O apelo final da exortação de Francisco resume o que de melhor se pode desejar dos jovens na Igreja: “Queridos jovens, [...] correi atraídos por aquele Rosto tão amado, que adoramos na sagrada Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre. O Espírito Santo vos impulsione nesta corrida para a frente. A Igreja precisa do vosso ímpeto, das vossas intuições, da vossa fé. [...] E quando chegardes aonde nós ainda não chegamos, tende a paciência de esperar por nós” (CV 299).

*Luís Corrêa Lima é sacerdote jesuíta e professor da PUC-Rio. Trabalha com pesquisa sobre gênero e diversidade sexual.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Instituições Conveniadas