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07/11/2019 | domtotal.com

O coração das trevas brasileiras

Um Legislativo débil, um Judiciário duvidoso e um não presidente que se comporta como chefe de torcida

Nosso pesadelo é real e o Brasil  hoje supera qualquer soturna ficção
Nosso pesadelo é real e o Brasil hoje supera qualquer soturna ficção (Divulgação)

Ricardo Soares*

O coração das trevas, de Joseph Conrad finalmente leio com avidez a maravilha por ele concebida  ambientada no Congo no fim do século 19 e transplantada para o inferno do Vietnã dos anos 1970 na apoteótica versão de Francis Ford Coppola no seu Apocalypse now, um dos maiores filmes de todos os tempos na opinião de uma constelação de críticos de cinema pelo mundo afora.

Não vou me dar aqui ao trabalho de tentar entender – e entediar o leitor – os motivos que me fizeram adiar tanto tempo a leitura dessa pequena maravilha de novela de pouco mais de 120 páginas. Seriam só motivos mesmo ou um inconsciente adiamento da leitura por intuir que jamais estaria em condições de escrever algo nem remotamente próximo a esse livro que estranhamente serve, hoje em dia, como uma metáfora do nosso combalido Brasil, sempre na vã esperança de encontrar o protagonista Kurtz, redentor e missionário, que nos livre de todos os males e nos tire dos nevoeiros pestilentos que nos assolam desde os tempos do descobrimento? A saga dos bandeirantes genocidas e predadores Brasil adentro lembra muito a saga fluvial abordada em Coração das trevas, um livro que poderia perfeitamente ser ambientado no Brasil, não fosse a maioria dos nossos escritores muito mais afeitos a dramas urbanos do que, digamos, rurais.

Buscar um redentor imaginário rio acima como faz Marlow atrás de Kurtz dá margens a inúmeras interpretações: a psicológica, a política e a religiosa, como já apontou Roberto Mugiatti, em remoto prefácio ao livro na edição de 1984 do lendário selo Circo das Letras, da já mencionada Brasiliense, que, naquela década, lançou – ainda que tardiamente – a literatura beatnik no Brasil e mais as crônicas e escritos de Pasolini e a refinada sacanagem de Bukowski.

O tal “O horror ! O horror!”, que Kurtz catarticamente pronuncia antes de morrer naquele cenário inóspito, parece estar singrando nossos poluídos mares e ares e nem me digam que estou exagerando porque o panorama visto de nossa ponte histórica nos deixa flechados por um pessimismo voraz, cabeçudo, contundente.

Um Legislativo débil, um Judiciário duvidoso e um não presidente que se comporta como chefe de torcida – ou de milícia já que ele é afeito ao tema – poderiam muito bem ser apenas uma criação atormentada de Conrad, depois de muitos anos a singrar os mares do mundo. Mas não é. Nosso pesadelo é real e o Brasil hoje supera qualquer soturna ficção – seja ela do autor de Coração das trevas ou não – com sua aristocracia escravagista que posa de liberal, seus latifundiários, seus generais de pijama que saíram das alcovas, seus reis do gado e da soja, sua horrenda música sertaneja, que é o hino que conduz essa gente ao inferno, e com suas massas exploradas que votam cegamente naqueles que a oprimem. 

Por tudo isso, me sinto no Congo de Conrad ou no Vietnã de Coppola, já que nossos corações estão nas trevas. Perdoem se pareço trágico. Ou é exagero de minha parte ou foi um baita erro só ler agora esse clássico de Conrad. Espero, enfim, que o otimismo do jovem de 24 anos que comprou o livro possa ajudar ao sexagenário leitor que vos escreve para que ele não fique apenas repetindo: “o horror, o horror”.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de TV, roteirista e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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