Religião

08/11/2019 | domtotal.com

O dia de finados sob a perspectiva do espiritismo

Para os espíritas, a conexão com os mortos pode se dar a qualquer momento e lugar

O dia de finados não é relevante para a doutrina espírita
O dia de finados não é relevante para a doutrina espírita (Unsplash/ Greg Ortega)

Rosane Alves Ferreira*

O espiritismo é filosofia, ciência e religião. Seu fundamento está na Trindade Universal:  Deus, espírito e matéria. Deus é o criador, o espírito e a matéria são sua criação. O campo moral funda-se na mensagem trazida pelo Cristo de Deus.

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A origem de Deus é desconhecida, não sendo possível dizer quem ele é, quando muito, o que é. Os espíritos, na pergunta de número 1 de O Livro dos espíritos, definem-no como a Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. No universo, tudo o que não é espírito é matéria nos seus variados graus de condensação, do mais sutil ao mais denso. O espírito para se movimentar na matéria necessita de um envoltório material. Em primeiro lugar, reveste-se de um corpo semimaterial, denominado perispírito, e depois do corpo físico, de carne, que conhecemos. A encarnação é exatamente quando o espírito se reveste desse corpo material (nascimento) e a desencarnação é o desvestir chamado de morte.

O espírito antecede ao nascimento e sobrevive à morte do corpo físico, sendo, portanto, eterno. Para o espiritismo a morte não é definitiva, apenas uma mudança de estado, uma caminhada evolutiva que continua em outro plano ou dimensão. Os espíritos podem se comunicar com seus afetos que continuam encarnados. Por isso o espiritismo não cultua o dia de finados conforme é feito no catolicismo, mas respeita a reverenciada data.

O Livro dos espíritos é o primeiro dos cinco livros doutrinários do espiritismo. Nele, Allan Kardec formula perguntas que são respondidas por espíritos de elevada condição moral, chamados de Espírito de Verdade. No capítulo 6, intitulado "Da vida Espírita" foram formuladas dez perguntas sobre a comemoração dos mortos e funerais (perguntas 320 a 329). Perguntados se os espíritos se preparam para a comemoração do dia dos mortos, respondem que estes se sensibilizam pela lembrança que aqueles que amaram na Terra têm deles, ligando-se pelo pensamento. E ainda, que não são raras as vezes que vêm ao túmulo para o encontro, sendo este um modo de retribuição do carinho oferecido. No entanto, uma prece vinda de qualquer lugar os alcança com muito mais força e efeito, ou seja, não há necessidade desse encontro no túmulo onde foram depositados tão somente os restos mortais materiais. A prece é a materialização positiva do pensamento na direção daquele por quem se ora.

O terceiro livro, O Evangelho segundo o espiritismo, em seu capítulo 17, "Pedi e obtereis", trata da ação da prece e transmissão do pensamento. Nele, os espíritos asseveram que a prece é uma invocação através da qual os seres se colocam em comunicação mental. Assim como o ar é o veículo do som, o fluido universal é o veículo do pensamento e se estende ao infinito. Daí a facilidade de acesso aos desencarnados.

Reafirmando o que já foi dito acima, não é costume da comunidade espírita a visita aos cemitérios com o objetivo de acessar seus mortos, pois sabem perfeitamente que pelo pensamento, pela prece sentida, podem fazê-lo. Os espíritas sabem que podem receber comunicações de seus entes queridos pela psicografia ou psicofonia, através de mediunidades sérias. Francisco Cândido Xavier foi o médium mais conhecido no labor de psicografar cartas dos espíritos para seus familiares na Terra, mas existem outros que continuam esse ministério. Além disso, veem com tranquilidade a possibilidade de se encontrarem com eles durante o sono físico, dependendo da disponibilidade do desencarnado, se os espíritos são acessados pelo pensamento.

Considerando, porém, que existe um trânsito no espiritismo de pessoas de outras religiões – entre elas considerável número de católicos, que praticam a dupla pertença, ou egressos, que trazem consigo costumes herdados – ainda há entre estes o hábito de cultuar o dia de finados, dirigindo-se aos cemitérios. O espiritismo não condena e nem determina essa atitude. Cada um que faça aquilo que lhe faz se sentir bem, com a responsabilidade de quem conhece a lei de causa e efeito.

Variadas análises podem ser feitas dos motivos que levam algumas pessoas a visitarem o túmulo de seus entes queridos. Às vezes é algo pessoal, uma saudade, a lembrança que o visitante sente de um tempo e da presença de alguém que lhe marcou a existência e que por motivo de força maior não tem como voltar. É muito mais para si mesmo do que para o outro que se foi. Outros seguem a tradição, o costume familiar, enfim, inumeráveis são as razões.

Para o espiritismo não importa se o espírito é encarnado (vivo) ou desencarnado (morto), todos têm o mesmo valor aos olhos de Deus e do Cristo. Ele ensina o respeito, o amor e a caridade de modo geral, pois todos são irmãos alternando os momentos de vida na carne e fora dela, mas sempre vida.

*Rosane Alves Ferreira, advogada, mestre em Ciências da Religião, membro-diretor da Sociedade Espírita Albergue de São Lázaro.

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