Religião

08/11/2019 | domtotal.com

O culto aos mortos nas religiões afro-brasileiras de tradição bantu

Para cultos afro-brasileiros morte e vida são interdependentes e uma única realidade

Para o bantu,
Para o bantu, "a morte não é libertação, nem uma passagem: é uma metamorfose" (Tiago Celestino/ Unsplash)

Guaraci M. Santos e Arthur L. Mendonça*

O Brasil, no dia de finados, é marcado por diversas manifestações religiosas, cada qual respeitando suas matrizes, como é o caso das religiões afro-brasileiras. A fim de refletir sobre o culto aos mortos, buscamos elucidar a matriz subsaariana africana de tradição bantu e suas dissidências: a umbanda, a quimbanda e o candomblé de Angola/Congo.

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Dentro da cosmovisão bantu, temos o culto aos mortos ou culto aos antepassados (Bakulu). “Para os Bakongo, o culto aos antepassados é sinônimo de continuidade de vida dos seus entes queridos já falecidos. A morte não é libertação, nem uma passagem: é uma metamorfose”. (GABRIEL, 1978, p. 36). Tal culto sobreviveu no Brasil através do kalundu, organizações religiosas sem templo; quilombos, comunidades de resistência e refúgio dos negros; e canjerês, agrupamento de pessoas para danças e rituais, sendo absorvido depois pela umbanda e quimbanda como devoção coletiva aos mortos, onde fazem referência aos pretos-velhos, caboclos, boiadeiros, exus, meninos de Angola e nvumbi (mortos). Apesar dos seus antepassados não estarem mais no mundo material, a influência que eles exercem sobre seus entes queridos é muito forte e viva. Todo o conhecimento e sabedoria adquirido por eles podem ser usados pelos seus descendentes vivos. Por isso a importância de louvá-los e cultuá-los de modo correto. A importância desse ato consiste também em não os irritar para que não se voltem contra seus entes e acabem atrapalhando as suas vidas.

Existem várias formas de cuidar e venerar os antepassados, como por exemplo através de comidas, bebidas, objetos de poder (chapéu, cachimbo, charuto, etc...) e a sacralização de animais. Em alguns terreiros de origem bantu, há um espaço destinado ao culto aos exus. Um espaço para o culto aos caboclos, os ancestrais dessa terra. Um espaço para o culto aos pretos-velhos. Um espaço para o culto aos nvumbi. Todos os nomes citados acima são classes diferentes de espíritos. Cada qual com a sua particularidade. Os rituais de louvação precisam ser feitos pelos menos uma vez ao ano. Em alguns casos, esses mortos recebem oferendas especificas para ajudar as pessoas que buscam amparo nos terreiros, no âmbito da saúde, amor e emprego. É uma forma deles estarem presentes na dimensão do mundo material de maneira mais efetiva. O mundo dos mortos está ligado diretamente ao Criador, Nzambi a Mpungu. Os bantu acreditam que esses antepassados são intermediários entre os seres desta dimensão e o Criador. Sem essa relação de forma harmônica e natural, pode haver uma discrepância entre os dois mundos. De acordo com a crença desse povo, isso pode ocasionar perdas em todas as esferas da vida dos que ficaram nesse plano, influenciando na saúde, nas relações sociais, na prosperidade material e espiritual, pessoal e coletivamente.

Dentro do culto do candomblé de Angola/Congo, os devotos cultuam os chamados ancestrais divinizados, que na linha de continuidade da vida humana, estão mais distantes dos seus descendentes. Como no caso de alguns bakulu, exus e nvumbi, se faz um kuxikama, um assentamento com elementos específicos para cada ancestral. A proposta do kuxikama é ser uma representação simbólica e presente aqui na terra, do ancestral. Eles também recebem comidas próprias e alguns animais votivos. O conceito por trás da sacralização de animais para os bakulu e para os ancestrais é o mesmo. O sangue é energia vital, é nguzu (axé), é uma força que movimenta e renova a vida. O religioso compartilha com seu ancestral um animal, que serve de alimento para ambos. E todo ano é feito uma obrigação, momento em que o ancestral junto com seu ente passa por alguns rituais, no qual ele ganha oferendas e é louvado em uma festa pública. Apesar desse momento particular, a devoção é diária. Os iniciados rezam todos os dias diante do seu kuxikama para agradecer, pedir prosperidade, caminhos abertos e se alinharem com o sagrado. O culto ao ancestral junto com o culto aos antepassados se somam. Com objetivo também de fazer do devoto um kukala ni nguzu (um ser forte) para enfrentar as adversidades do dia-a-dia.

Percebe-se que dentro dos cultos de origem bantu, como no candomblé de Angola/Congo, acredita-se que vida-morte e morte-vida são uma única realidade emaranhada e interdependente. Os adeptos dessa religião nada fazem para melhorar uma vida posterior (pós-morte ou num renascimento), pois estão ocupados em melhorar essa vida e melhorando-a existencialmente podem ofertar tais benefícios aos seus antepassados/ancestrais e aos seus descendentes, visto que todos serão afetados pela lei de causa e efeito.

Logo, as religiões afro-brasileiras citadas cultuam seus mortos de maneiras similares respeitado suas particularidades e diversidades e que elas se constituíram socialmente, sem, contudo, perderem de sua matriz bantu.

Referências

GABRIEL, Manuel Nunes, Angola, cinco séculos de cristianismo. Edição Literal: Queluz, 1978.

LANGA, Adriano. Questões cristãs à religião tradicional africana. Editorial Franciscana: Braga, 1992.

 OLIVEIRA, Irene Dias de. Religião: força propulsora das comunidades afro-brasileiras. Revista de Teologia e Ciências da Religião da UNICAP, v. VI, 2007, p. 67-82.

*Guaraci M. Santos é doutorando em Ciências da Religião. Arthur L. Mendonça é graduando em Ciências Sociais.

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