Religião

08/11/2019 | domtotal.com

Fiéis católicos e seus mortos

Católicos buscam manter memória dos falecidos e esperam que a vida não termine com a morte

A ideia teológica da comunhão dos santos é bastante importante para a religiosidade católica popular.
A ideia teológica da comunhão dos santos é bastante importante para a religiosidade católica popular. (Unsplash/ Rhodi Lopez)

Teófilo da Silva*

Desde muito cedo, o cristianismo primitivo desenvolveu uma espiritualidade que não esquecia os mortos. Se olharmos para a preocupação da comunidade de Tessalônica, na década de 50 do primeiro século de nossa era comum, veremos que a espera pela segunda vinda de Jesus Cristo trazia uma inquietação na comunidade: diante da demora nessa segunda vinda, o que aconteceria com os irmãos e irmãs que já haviam morrido, antes do retorno escatológico do Senhor? Essa preocupação é fruto do afeto, pois a espera pela participação na eternidade de Deus, por parte dos cristãos de Tessalônica, inclui também os irmãos e irmãs falecidos.

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O apóstolo Paulo reconforta a comunidade de Tessalônica, apontando para a ressurreição dos mortos, cuja esperança estava fundada na própria ressurreição de Jesus Cristo. A esperança, pois, não quedava apenas para aqueles cristãos e cristãs que continuavam vivos, esperando pela volta do Senhor Ressuscitado. A questão antropológica de fundo, aqui, é bastante interessante: o cuidado e o zelo para com os mortos é uma realidade antiquíssima, de modo que em todas as culturas há cerimônias fúnebres de respeito para com o morto. Mais: em muitas dessas culturas, esses ritos pós-morte significavam e significam uma preparação para uma vida além.

Mais tarde, no cristianismo, com as perseguições por parte do Império Romano, e diante da resistência da fé daqueles que não negavam sua adesão a Jesus Cristo, cristãos e cristãs eram martirizados. Tão logo, cristãos e cristãs começaram a frequentar e a celebrar junto aos túmulos desses mártires, verdadeiras testemunhas da fidelidade à fé em Jesus Cristo. Assim se dá o início do culto aos santos e santas, como exemplos de pessoas que em suas vidas, assumiram o modo de viver de Jesus.

Com o desenvolvimento da escatologia, com aquilo que chamamos de novíssimos, isto é, com as ideias-compreensões do purgatório, paraíso e inferno, a relação de cristãos e cristãs com os mortos foi se tornando cada vez mais complexa. Compreende-se que o vínculo com os que já morreram não se encerra. A ideia teológica da comunhão dos santos é bastante importante para a religiosidade católica popular. Na liturgia católica, por exemplo, no momento em que se entoa o Santo, acredita-se que as Igrejas peregrina (terrena), padecente (do purgatório) e triunfante (do paraíso), unem-se, junto a toda a corte celeste, para cantar o louvo do Deus três vezes Santo! Reza-se, na Oração Eucarística, pelos fiéis defuntos; há ritos de exéquias, missas de corpo-presente, missas dedicadas de tempos em tempos para os mortos.

A religiosidade popular, por sua parte, vai bem além da ritualidade e da teologia magisterial. Ela incorpora elementos da cultura, de outras tradições religiosas. Eminentemente sincrética, ela cria uma nova realidade religiosa, viva, sem perder os vínculos com a religião oficial, que muitas vezes incorpora alguns desses elementos da devoção popular. Dessa forma, a seu modo, fiéis católicos buscam manter viva a memória dos seus entes queridos, ao mesmo tempo em que nutrem a esperança de que a vida, de fato, não se encerra com essa morte, que não é total, segundo os que têm fé.

*Teófilo da Silva é teólogo e poeta.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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