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08/11/2019 | domtotal.com

Donos da verdade

A internet tomou conta do mundo e essa nova revolução provocou mudanças de hábito dramáticas, profundas e definitivas

A luta insana pelo posto de dono da verdade tem sido a disputa mais marcante da era digital
A luta insana pelo posto de dono da verdade tem sido a disputa mais marcante da era digital (Pixabay)

Fernando Fabbrini*

Desde as metrópoles do sudeste até os cafundós da Amazônia, os brasileiros ligavam seus rádios à noite para saberem o que estava acontecendo no país e mundo afora. A voz poderosa de locutores como Luís Jatobá e Heron Domingues abria a transmissão: “Amigo ouvinte, aqui fala o seu Repórter Esso, testemunha ocular da história”, ou “Repórter Esso, o primeiro a dar as últimas.” O que se ouvia pelo alto falante do rádio naqueles tempos – às vezes em meio a chiados de estática – era a verdade, irrefutável, definitiva. “Deu no Repórter Esso ontem” – diziam. E pronto.  

Em 31 de dezembro de 1968, o último Repórter Esso foi ao ar, em meio às lágrimas do locutor e de seus fiéis amigos ouvintes. A expansão das TVs nas décadas de 60 e 70 mudou tudo. Outros noticiários foram criados, revelando novos porta-vozes. O rádio cumpria a missão de informar onde ainda não chegava a TV, mas ela pouco a pouco definia um novo jeito de tratar a notícia com imagens, belas apresentadoras, cores e recursos tecnológicos.

O Jornal Nacional da Rede Globo manteve-se no trono anos a fio. E, para milhões de brasileiros, William Bonner e acompanhantes possuíam o dom da verdade. Logo em seguida, com o advento das TVs por assinatura, a informação se sofisticou, criou estratos, especializou-se em áreas como economia, esportes, política revelando novos nomes.

A internet tomou conta do mundo e essa nova revolução provocou mudanças de hábito dramáticas, profundas e definitivas. Nos sites locais e internacionais surgiram milhares de novos porta-vozes dando seus recados por meio de canais exclusivos, acessíveis via qualquer telefone celular. Democratizou-se a informação, mas também estupidificou-se.

Crítico mordaz da internet, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco não deixou barato, afirmando que as redes sociais davam agora o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes diziam asneiras apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.”

Umberto já havia dito que a TV colocara o "idiota da aldeia" em um patamar no qual ele se sentia superior. "O drama da internet é que ela promoveu o “idiota da aldeia” a algo ainda pior: o de portador da verdade", acrescentou o gênio, sem meias palavras.

Informação é poder. O fato de que esse privilégio tenha escapado das bocas de pessoas que o detinham com certa exclusividade e credibilidade é a grande questão do momento. Quem é mais confiável? Quem estará dizendo a verdade? Aquela repórter famosa que trabalha para uma grande emissora, que é sustentada por verbas de publicidade, que podem interferir na edição ou manipulação do fato? Ou aquele cara desconhecido que esteve no local, filmou a cena com seu celular e narrou o que viu?

As críticas de Umberto Eco procedem, mas só até certo ponto. Informando-se por várias fontes, o cidadão do século 21 pode comparar, tirar sua média, avaliar ditos e contraditos e assim obter uma visão bem próxima do acontecido.

Porém, além das fake-news, há um subproduto execrável da era da informação. É quando alguém – apesar dos acessos infinitos à sua disposição – limita-se a ouvir apenas aquelas opiniões, comentários e versões que o agradam. Na bolha, torna-se prisioneiro – novamente - de um único porta-voz.

A luta insana pelo posto de dono da verdade tem sido a disputa mais marcante da era digital – e também a de resultados menos confiáveis. Sugiro beber de todas as fontes – mas sempre se perguntando onde está situada a nascente e, sobretudo, quem é o dono do terreno.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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