Religião

08/11/2019 | domtotal.com

Religiosidades e a vida dos mortos

O modo como tratamos a morte diz muito de como entendemos a vida

As religiões dão uma palavra, sempre penúltima, sobre o pós-morte, a fim de contribuir na elaboração do sentido da vida de seus fiéis
As religiões dão uma palavra, sempre penúltima, sobre o pós-morte, a fim de contribuir na elaboração do sentido da vida de seus fiéis (Unsplash/ Josh Marshall)

Felipe Magalhães Francisco*

O maior de todos os dramas da humanidade é o de que morremos. Somos finitos e isso nos angustia. Seres para a morte, disse Heidegger. É diante da questão fundamental do morrer, que desde a infância da humanidade, pergunta-se sobre o porquê de existirmos, a finalidade, o sentido... na mesma esteira, surge a pergunta a respeito de para onde vamos. As culturas, em geral, elaboraram respostas e práticas que buscam lidar com essa angústia. As religiões dão uma palavra, sempre penúltima, sobre o pós-morte, a fim de contribuir na elaboração do sentido da vida de seus fiéis.

A relação dos vivos com seus entes queridos que já morreram aponta, pelo menos, para duas relações de sentido: a primeira, e mais elaborada, a de que o afeto não se extingue e que a memória de alguma forma serve de consolo para os que ficaram; depois, trata-se de uma maneira com a qual lidamos com o nosso próprio morrer: tudo o que sabemos e experienciamos sobre o morrer está no fato de que pessoas, todos os dias, morrem. Essa relação, então, que muitos dos vivos buscam estabelecer com os que já partiram é prenhe de esperança.

As religiões têm um papel deveras importante nessa dinâmica. De forma institucionalizada, por meio de ritos, símbolos, celebrações e outros, ela legitima uma realidade que, antes de ser teológica, é eminentemente antropológica. O papel institucionalizante das religiões, no entanto, não esgota a efervescência daquilo que as pessoas vivem, criativamente, em seu cotidiano. No Brasil, propriamente dito, características muito bem marcadas em algumas tradições religiosas se misturam com outras, não por vias institucionais – porque, mais das vezes, problemáticas, teologicamente –, mas populares, que não encontram limites em criar seu próprio modo de compreender o religioso, sem que isso signifique rechaço pelas instituições religiosas.

A maneira como mantemos vivos, os nossos mortos, diz muito sobre nós mesmos e sobre aquilo que compreendemos da vida e de nossa esperança no pós-morte. Compreender isso revela muito sobre nossas buscas pelo bem-viver. É extremamente simbólico que uma sociedade, tão marcada pela busca do êxito, que busque rechaçar os sinais de morte, porque sinais de fracasso nessa mentalidade do sucesso, ainda não tenha perdido uma religiosidade que dá expressão e lugar àqueles que já morreram. Afinal, perdermo-nos dos que nos antecederam na experiência de morrer, é perder nossa própria história e, em última instância, perder a nós mesmos.

O Dom Especial desta semana busca refletir, na perspectiva de três religiões de forte expressão, em nosso país, sobre a relação de seus respectivos fiéis e adeptos, nas religiosidades que dizem respeito aos mortos. Teófilo da Silva, no artigo Fiéis católicos e seus mortos, propõe uma relação entre religião cristã católica oficial e religiosidade popular, naquilo que diz respeito ao culto aos mortos. Rosane Alves Ferreira propõe sua reflexão, no artigo Dia de finados sob a perspectiva do espiritismo, no qual explica a compreensão espírita acerca da continuidade da vida, para além do mundo material. Concluem nossa conversa, Guaraci Santos e Arthur Mendonça, com o texto O culto aos mortos nas religiões afro-brasileiras de tradição bantu, em que discorrem sobre a rica ritualidade dessas tradições de fé, nas quais vida-morte e morte-vida são como que uma única realidade, indissociável.

 Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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