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11/11/2019 | domtotal.com

Uma noite no circo

Ganhei uma entrada por ter acompanhado o palhaço, e fui

O palhaço dançou e pulou e andou numa bicicleta minúscula e pôs um cachorrinho pra dançar e falou um punhado de coisas engraçadas
O palhaço dançou e pulou e andou numa bicicleta minúscula e pôs um cachorrinho pra dançar e falou um punhado de coisas engraçadas (Pixabay)

Afonso Barroso*

- Macoooonha! A erva maldita! O cigarro do diabo!

A voz masculina e poderosa explodia no alto falante e varava os quatro ventos da pequena cidade.

- Senhoras e senhores, não percam esta noite, no Circo-Teatro Abelardo, a peça que abalou o Brasil. Macoonha. A erva maldita! O cigarro do diabo!

De vez em quando aparecia um circo naquela nossa cidadezinha. Chegava em dois caminhões velhos e uma Rural Willys que venciam, abarrotados e intrépidos, as estradas de lama ou poeira daquelas bandas.

Tinha o palhaço que a gente acompanhava pelas quatro ruas da cidade. Eu e um punhado de meninos íamos atrás dele para responder em uníssono à voz arranhada daquele homem engraçado, vestido com roupa colorida, cara pintada, chapéu de bico, sobranceiras exageradas, nariz vermelho e redondo, a gritar no megafone hoje tem espetáculo e nós tem sim senhor, lá na rua do buraco, tem sim senhor, hoje tem marmelada, tem sim senhor, hoje tem goiabada, tem sim senhor, hoje tem arrelia, tem sim senhor, mocotó com melancia, tem sim senhor, e o palhaço o que é... é ladrão de mulher.

Naquele dia deu uma vontade danada de ir ao circo pra ver a história da tal maconha. Maconha? Que diabo é isso? Pelo anúncio do alto-falante, devia ser uma erva com a qual se fazia cigarro. Mas, por que maldita? E por que cigarro do diabo? Eram perguntas que fustigavam a curiosidade dos meus 13 anos.

Ganhei uma entrada por ter acompanhado o palhaço, e fui.

O palhaço dançou e pulou e andou numa bicicleta minúscula e pôs um cachorrinho pra dançar e falou um punhado de coisas engraçadas.

O mágico tirou um coelho da cartola, fez o coelho virar uma varinha, a varinha virar um lenço, o lenço virar um guarda-chuva, e depois ainda fez uma pomba branca sair de dentro de um jornal amassado.

Os trapezistas, anunciados como os incomparáveis irmãos Arinos, fizeram misérias no ar com saltos e piruetas, trocaram de mãos e de trapézio em pleno voo, em tempo de cair sobre a rede que os aguardava embaixo. Mas não caíram. Acho que não caíam nunca.

Uma moça que parecia feita de borracha, vestindo roupa colante, enfiava os braços por entre as pernas, passava as pernas em torno do pescoço e andava no chão feito sapo, aos pulinhos.

Até que uma trombeta soou e um homem muito bem vestido, de fraque e cartola, saiu de trás de uma cortina:

- Distinto público, senhoras e senhores – bradou ele. - Assistam agora, numa cortesia do Circo-Teatro Abelardo, à peça que abalou o Brasil. Macoooonha. A erva maldita, o cigarro do diabo. Cigarro que está levando jovens a marchar sem retorno a caminho do inferno.

Diabo, inferno, isso deve ser bom, pensei. E fiquei atento quando o apresentador se retirou e a cortina se abriu. O cenário era uma sala com sofá, mesa de centro, um espelho ao fundo. Deitada no sofá, uma moça muito bonita, de saia curta, fumava. De repente, emerge de trás do sofá, como se surgisse do nada, alguém fantasiado de capeta. Veste um macacão vermelho, tem na cabeça um gorro com dois chifrinhos, faz trejeitos atrás da moça e acaricia seus cabelos.

- Lucrécia! – ecoa uma voz de homem lá do fundo.

O capeta leva a mão à boca da moça, pega o cigarro e fica com ele na mão.

Entra um homem, e dá pra perceber que é o pai. Grande, bonito e louro, dos seus 40 e poucos anos.

- Lucrécia, que cheiro é este que eu estou sentindo?

- Que cheiro, pai?

O capeta dá uma risada. A gente percebe que o ator não o vê nem lhe ouve a voz. E o diabo continua dando risinhos.

O homem senta-se ao lado da moça.

- Minha filha, todo cuidado é pouco. Você já ouviu falar em maconha?

- Ouvir falar, sim, acho que ouvi...

- Pois é. Fique sabendo que é coisa do diabo.

Invisível para o pai, o capetinha dá uma gargalhada.

- É uma erva maldita. Com ela se faz um cigarro que faz a pessoa ficar sem eira nem beira, como se fosse um robô. Quero que prometa que nunca vai experimentar essa droga. Promete?

- Nem experimentar?

Com o cigarrinho na mão, o capeta fica saltitando pelo palco, feliz, feliz.

- Nem experimentar – decreta o pai.

O diabo chega o cigarro bem na cara do homem e diz pra ele:

- Ela já experimentou e já gostou, seu bobão – e dispara nova risada irônica.

O pai dá um beijo na filha, sai de cena e o diabinho entrega o cigarro à moça, que volta a fumar.

Seguem-se cenas interpretadas com exageros de gestos e impostação de voz. O pai é um brutamontes, que espanca a filha quando descobre que ela está mesmo fumando o cigarro do diabo, feito com a erva maldita. A mãe, ao contrário, reza fervorosamente e acaba atraindo, com suas orações, um anjo que surge como se descesse do céu. Anjo e diabo passam a travar uma contenda. O diabo avança sobre ele, mas não o alcança. O anjo apenas faz um gesto com as asas e o afasta. O diabo ruge, faz caretas e roda em torno do anjo, que ora e ora. Não sei descrever tudo que acontece depois, mas o certo é que a história termina com um final feliz: a moça se salva do cigarro e do diabo, que foge, expulso pelo anjo para as profundezas dos infernos.

Eu, de tanto que rondava o circo, fascinado com aquelas coisas todas, fiquei amigo da linda moça Lucrécia, do anjo e do diabo. O anjo era uma menina chamada Rebeca, mais ou menos da minha idade, sobrinha do dono do circo. E o papel do diabinho era desempenhado por um garoto, o Bob, filho do palhaço.

Pois acredite o leitor que esse diabinho entristeceu a cidadezinha inteira uns dias depois. Caiu doente. Começou a tossir, a ter febre. Era pneumonia galopante. Escarrava sangue. Apesar de todos os esforços do farmacêutico, dos xaropes, dos chás das benzedeiras e da torcida de todos nós, Bob não resistiu. Morreu.

Consternação geral no velório e no enterro. Ninguém se conformava com aquela tragédia. Era doloroso ver o palhaço dobrado em lágrimas. Eu chorei muito também, pelo Bob, pelo palhaço, pelo circo. Na missa de corpo presente, o vigário, padre Sebastião, fez um sermão cheio de firulas retóricas e religiosas, afirmando que aquele menino que desempenhava tão bem o papel de diabo era, na verdade, um anjo que Deus resolveu tirar do grande circo da vida para levar à glória eterna do Paraíso.

O Circo-Teatro Abelardo ficou de luto por vários dias, assim como toda a cidade.

Mas, como a vida continua e o espetáculo não pode parar, a lona reabriu na semana seguinte, com um grande pano preto no alto da entrada e uma novidade.

A novidade era eu.

Por causa da minha afinidade com o pessoal do circo, que eu rondava o dia inteiro, e pela amizade que fizera com o Bob, a Rebeca e a Lucrécia, me chamaram pra substituir o Bob no papel do diabo. Era coisa muito simples, disseram. E me ensaiaram. E eu logo virei um diabo muito competente. Aprendi a dar risadas satânicas, a dizer à Lucrécia vamos, vamos, fume que maconha faz bem... E até inventei outras frases para enriquecer minhas falas, coisa que agradou muito a todo o pessoal do circo, que se surpreendeu com o meu desempenho. Me disseram que eu tinha vocação para o teatro. Quiseram até me levar com eles.

A peça era encenada três vezes por semana. E lá estava eu, vestido de diabo e tentando a bela Lucrécia, que me abraçava em algumas cenas, quando a trama nos deixava sozinhos na sala. Notei que o abraço dela foi ficando cada dia mais apertado. Se esfregava em mim de forma maliciosa. E deliciosa. A cada abraço eu passei a experimentar uma excitação esquisita, coisa nova pra mim. Não sei se posso chamar de coisa nova, mas acho que sim, porque eu nunca tinha sido abraçado por uma mulher daquele jeito, e a sensação que eu sentia era mesmo absolutamente nova. Diferente e excitante. Era o sexo se apresentando, dizendo ao rapazinho cá estou eu, e se materializando com um intumescimento que não era daquele que eu costumava sentir quando acordava de manhã com vontade de urinar. Era coisa muito mais forte, que enrijecia o corpo cavernoso, zoava a cabeça e parecia alucinar a Lucrécia.

Eu, o diabo. Ela, a tentação.

Até que um dia, em meio a um dos abraços, ela falou baixinho ao meu ouvido, quase me mordendo a orelha:

- Vai na minha tenda quando terminar o espetáculo.

Meu coração deu uma disparada. Perdi a respiração.

- É a barraca do lado direito da entrada. Eu durmo sozinha. Vou deixar uma toalha branca embaixo da lona. É onde você pode entrar. Toma cuidado pra não ser visto. Te espero – ela sussurrou.

Terminou a peça, a cortina se fechou sob aplausos, me deram parabéns pela atuação, troquei a roupa do diabo num cubículo, dona Guiomar, a mãe, nos serviu café com leite e broa de fubá, eu dei boa noite, saí, fiquei rondando por ali, as pessoas se dispersaram, eu me escondi atrás de uma árvore, o largo ficou deserto, eu tremia, tinha medo, esperei mais um tempo, as luzes que iluminavam a frente do circo se apagaram, tudo ficou escuro, eu sem saber se ia ou não ao encontro da bela Lucrécia... Criei coragem. Sempre fui assim; toda vez que tenho muito medo o medo logo vira coragem, não me peça pra explicar isso que eu não sei, o certo é que a coragem repentina e forte me deu um empurrão e eu avancei quase correndo até a barraca, vi a toalha branca no chão, me abaixei, levantei e lona e... entrei.

A luzinha tênue de um lampião iluminava uma cama sobre a qual se oferecia, nua e diabolicamente bela, a primeira Lucrécia da minha vida.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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