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08/11/2019 | domtotal.com

Entre miséria, tapas e neoliberalismo

O total de miseráveis no país vem crescendo desde que começou a crise econômica, em 2015

Em 2014, 4,5% dos brasileiros viviam abaixo da linha de extrema pobreza. Em 2018, esse porcentual subiu ao patamar recorde de 6,5%
Em 2014, 4,5% dos brasileiros viviam abaixo da linha de extrema pobreza. Em 2018, esse porcentual subiu ao patamar recorde de 6,5% (Agência Brasil)

Eleonora Santa Rosa*

Semana braba, notícias de deixar qual ser humano com um mínimo de vergonha na cara, com senso de justiça social, ética, civilidade, fraternidade, horrorizado e boquiaberto com as notícias que dão conta que chegamos ao insustentável, imoral e impressionante índice de 13,5 milhões de miseráveis. Os dados do IBGE dizem mais:

“Em 2018, o país tinha 13,5 milhões pessoas com renda mensal per capita inferior a R$ 145, ou U$S 1,9 por dia, critério adotado pelo Banco Mundial para identificar a condição de extrema pobreza. Esse número é equivalente à população de Bolívia, Bélgica, Cuba, Grécia e Portugal. Embora o percentual tenha ficado estável em relação a 2017, subiu de 5,8%, em 2012, para 6,5% em 2018, um recorde em sete anos.

O total de miseráveis no país vem crescendo desde que começou a crise econômica, em 2015. Em 2014, 4,5% dos brasileiros viviam abaixo da linha de extrema pobreza. Em 2018, esse porcentual subiu ao patamar recorde de 6,5%. Em quatro anos de piora na pobreza extrema, mais 4,504 milhões de brasileiros passaram a viver na miséria. Antes de 2012, o recorde de pessoas em situação de extrema pobreza havia sido registrado em 2012, com 5,8%”.

Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais (SISOs), divulgada nesta quarta-feira, 6, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).”

Estes dados deveriam ter sido pauta de reunião interministerial, em caráter de urgência, ou não? Nada? Como assim? Nenhuma coletiva da alta cúpula com a imprensa, comunicando à sociedade o que o governo fará para combater a pobreza e reduzir os impactos da concentração de renda?

Salvo engano, a declaração oficial de abertura da semana coube ao ministro da Economia, Paulo Guedes: “Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo”, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. Guedes é ministro em um país onde, também segundo o IBGE, para metade da população brasileira, é preciso sobreviver com o equivalente a menos da metade de um salário mínimo.” Que tal?

Sem mais delongas e ainda impactada com as mudanças ministeriais da Cultura e as agressões físicas do ex-Augusto Nunes, atualmente a serviço do que há de pior na comunicação brasileira,  ao jornalista norte-americano Glenn Greenwald, em recente programa de rádio paulista de prestígio, prefiro encerrar a semana invocando a sabedoria atemporal do mestre Haroldo de Campos, de quem tenho muitas saudades, e seu implacável certeiro poema dedicado ao neoliberalismo terceiro-mundista:

circum-lóquio [fragmento]

(pur troppo non allegro) sobre o neoliberalismo terceiro-mundista

laisser faire laisser passer

 

5.

o neoliberal

sonha um mundo higiênico:

um ecúmeno de ecônomos

de economistas e atuários

de jogadores na bolsa

de gerentes

de supermercado

de capitães de indústria

e latifundiários

de banqueiros

-banquiplenos ou

banquirrotos

(que importa?

desde que circule

auto-regulante

o necessário

plusvalioso

numerário)

um mundo executivo

de mega-empresários

duros e puros

mós sem dó

mais atentos ao lucro

que ao salário

solitários (no câncer)

antes que solidários:

um mundo onde deus

não jogue dados

e onde tudo dure para sempre

e sempremente nada mude

um confortável

estável

confiável

mundo contábil

6.

(a

contramundo o

mundo-não

-mundo cão-

dos deserdados:

o anti-higiênico

gueto dos

sem-saída

dos excluídos pelo

deus-sistema

cana esmagada

pela moenda

pela roda dentada

dos enjeitados:

um mundo-pêsames

de pequenos

cidadãos-menos

de gente-gado

de civis

subservis

de povo-ônus

que não tem lugar marcado

no campo do possível

da economia de mercado

(onde mercúrio serve ao deus /mamonas)

7.

o neoliberal

sonha um admirável

mundo fixo

de argentários e multinacionais

terratenentes terrapotentes /coronéis políticos milenaristas (cooptados) /do perpétuo status quo:

um mundo privé

palácio de cristal

à prova de balas:

bunker blau

durando para sempre -festa /estática (ainda que se sustente sobre fictas

palafitas

e estas sobre uma lata

de lixo)

*jornalista, ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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