Religião

08/11/2019 | domtotal.com

Carismáticos ou cismáticos?

Como alguns membros da Renovação Carismática têm renunciado à própria origem, influenciados por levantes ideológicos

Papa Francisco se reúne com membros da Renovação Carismática Católica em Roma, em 2014
Papa Francisco se reúne com membros da Renovação Carismática Católica em Roma, em 2014 (Reprodução/ AP)

Mirticeli Medeiros*

Certamente, quem viveu a época de ouro da Renovação Carismática Católica no Brasil, se recorda o quanto se difundia a cultura da não violência entre os adeptos. Em muitos encontros, sobretudo nas décadas de 80 e 90, não era raro ver alguns pregadores protestarem contra filmes violentos, contra as armas de brinquedo e até contra as artes marciais. Exageros à parte, o discurso era esse. E nenhum deles era “comunista”. Isso eu garanto.

E não era de se surpreender com esse tipo de postura, afinal, muito além da radicalidade evangélica que caracterizou o carisma do movimento, esse “novo pentecostes” - como ainda hoje é chamado - era fruto de uma cultura de paz que se instalou a partir do Concílio Vaticano II, evento que deu impulso às novas organizações de leigos.

João XXIII, com sua Pacem in Terris, repropôs aquele “discurso empoeirado” que estava escondido nas gavetas da história do cristianismo. Com coragem, o “papa bom” chegou a afirmar que o conceito da guerra justa - expressão difundida pela cultura jurídica da Roma Antiga, e resgatada por Santo Agostinho no século V -, não poderia sequer ser mais aplicado diante do surgimento da bomba atômica e de outras armas de destruição em massa. E esse papa nem era “comunista”. Isso eu também garanto.

Nos últimos cinco anos, que foram marcados pelo surgimento de “negacionistas religiosos”, influenciados por essa onda de negacionismo alavancada por movimentos políticos, vemos um rompimento, por vezes escancarado, com a chamada “igreja conciliar”. De repente, observamos, estupefatos, uma multidão de “carismáticos” renunciarem à própria origem, adotando uma nova “catolicidade”.

Para muitos desses grupos, conduzidos por esses padres “recém-convertidos” à esse novo levante de “catolicidade”, o ecumenismo incomoda, o Concílio Vaticano II é colocado em xeque e, mais uma vez, o discurso sobre o pecado superabunda, não a graça. Muitos desses sacerdotes, inclusive, passaram anos presidindo “missas carismáticas” para multidões em estádios de futebol sem se incomodar com baterias, guitarras e danças durante a celebração. E, ao que me consta, também não posavam com espingardas em fotos.

De repente, tudo mudou. Enjaularam o Espírito Santo no século XVI, atribuindo ao Concílio de Trento - e somente a ele -  a formação da identidade católica. Ignorância pura. Ideologia pura. Cisma sutil instalado com sucesso. Até os papas João XXIII e Paulo VI entraram na mira dessas interpretações apaixonadas e repletas de teorias da conspiração. É como se o Espírito Santo, considerado o grande promotor de um novo estilo de vida adotado por grande parte dos fiéis católicos no Brasil, desse lugar à religião da letra, das rubricas e da rigidez eclesial.

 Aqueles que outrora reclamavam da perseguição por parte da hierarquia católica, questionam até a eleição de um papa que, por ironia do destino, é um dos grandes promotores do movimento desde a época que era arcebispo de Buenos Aires. Quando a RCC passa a ser ainda mais bem vista pelo líder máximo da Igreja Católica, muitos de seus membros lhe viram as costas. A oração em prol desse reconhecimento foi atendida, mas não há gratidão. O sucessor de Pedro perde espaço para os messias terrenos. O catolicismo vira acessório de orientação política. As mãos levantadas em atitude de adoração - cunhadas nas tumbas dos primeiros cristãos - dão lugar às “arminhas”, que não são as armas do espírito referidas por São Paulo.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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