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09/11/2019 | domtotal.com

Literatura de Houellebecq expõe comportamentos transgressivos

Obra ácida e niilista, Serotonina aborda males contemporâneos e exige do leitor sair do conformismo

O escritor francês Michel Houellebecq disseca a desesperança da sociedade do século 21
O escritor francês Michel Houellebecq disseca a desesperança da sociedade do século 21 (Lionel Bonaventure/AFP)

Jacques Fux*

Roland Barthes, ao falar sobre o Marquês de Sade – de suas subversões, perversões, erotismo e contravenções –, diz que não seria de forma alguma possível imaginar/vislumbrar uma sociedade e uma cultura ante a ausência da linguagem. E, por isso – pela presença inexorável da linguagem – que há perversão no sexo. É justamente pela conexão entre as palavras e os sentidos “que o crime irá gradualmente aumentar, aumentar de tamanho, consistência e alcançar uma maior transgressão”. Portanto, segundo argumenta o pensador francês, seria a linguagem (literária?) uma porta para permitir a violação – porta essa escancarada e demolida por Michel Houellebecq, em seu livro Serotonina.  

Já sobre o chocante livro de Georges Bataille – História do olho –, Barthes escreve (e poderia estar falando também de Houellebecq): “à transgressão dos valores, princípio declarado do erotismo, corresponde – se é que esta não funda aquela – uma transgressão técnica das formas da linguagem, pois a metonímia não é outra coisa senão um sintagma forçado, a violação de um limite do espaço significante; ela permite, no próprio nível do discurso, uma contra-divisão dos objetos, das acepções, dos sentidos, dos espaços e das propriedades, que é o próprio erotismo: de modo que, na História do olho, o que o jogo da metáfora e da metonímia permite definitivamente transgredir é o sexo – o que, entenda-se bem, não significa sublimá-lo, muito ao contrário”.

Serotonina, o mais recente best-seller (a primeira edição do livro na França teve uma tiragem inicial de 320 mil exemplares, e esgotou rapidamente) do polêmico escritor francês, Michel Houellebecq, é permeado de transgressões sexuais, morais, ideológicas, éticas; repleto de atos e visões perturbadoras – misoginia, racismo, islamofobia, pedofilia –; mas tudo com controle literário, caráter poético e uma argumentação rica e consolidada com base nos pensamentos e crenças de seu protagonista, Florent.

Florent-Claude Labrouste é o narrador-burocrata deprimido que acaba de sair de seu trabalho no Ministério da Agricultura, como parte de seu projeto de desaparecer da sociedade – sobretudo dos afazeres cotidianos e fugir de sua atual namorada japonesa Yuzu (uma espécie de sugar baby). Ela é retratada pelo narrador como especialista em sexo, organizadora de orgias com homens, animais, além de diversas depravações carnais. Florent, no entanto, nunca fez parte dessas surubas – apesar de sempre ter desconfiado da libertinagem de sua parceira, “viu” essas cenas clássicas de um canal pornográfico quando acessou o computador de Yuzu. Agora Florent – antes com a libido e os desejos escorrendo pelo seu corpo e permeando todos os seus sonhos – se encontra impotente, por usar um novo antidepressivo que o permite viver/sobreviver sem grandes pulsões e vontades.

Porém, além da parte subversiva e algumas vezes até chocante ao narrar o passado lascivo e travesso de Florent – que é de fato o intuito do narrador, já que, ao realizar o “pacto” com o leitor de conceber um livro nada politicamente correto, mergulhando assim nas possibilidades e permissões da literatura no campo do “imaginário” –, Serotonina também coloca o dedo na ferida das inúmeras doenças e loucuras da sociedade contemporânea. Além disso, o escritor se põe a pensar e vislumbrar um futuro, talvez ainda mais doente e atormentado que o presente.

O consumo exagerado de antidepressivos, que dá um alívio temporário e fake, e que, assim como Fausto, de Goethe, cobra – e cobra muito caro – por esse acordo, escancara uma sociedade “chapada” e “apressada”, onde não há mais permissão para tristeza, reflexão e introspecção, apenas uma busca incessante pelo sexo, vaidade e pelo dinheiro. A narrativa tenebrosa de Florent nos tira do lugar comum, nos angustia, nos causa náuseas e nos obriga a pensar e refletir sobre os caminhos e rumos da sociedade.   

Segundo Terry Eagleton e Roman Jackobson, a literatura é a escrita que representa/apresenta uma violência organizada/controlada contra a fala do comum. Serotonina – como é o intuito da “boa” literatura – transforma e intensifica a linguagem, afastando-nos do lugar “obrigatório” e contemporâneo de fala e do politicamente correto. Um convite à transgressão, já realizado por outros tantos escritores e em tempos também tão sombrios e desesperançosos.

SEROTONINA
De Michel Houellebecq
Alfaguara
240 páginas
R$ 59,90 e R$ 39,90 (e-book)

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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