Religião

11/11/2019 | domtotal.com

Fugir de uma fé soft: não se envergonhar do Evangelho

A fé cristã, porque comprometida radicalmente com o Evangelho da justiça, não é uma fé soft

Não é possível se dizer discípulo ou discípula do Reino e se conformar com os sinais do anti-Reino presentes e tão atuantes no mundo
Não é possível se dizer discípulo ou discípula do Reino e se conformar com os sinais do anti-Reino presentes e tão atuantes no mundo (Nathan Dumlao/ Unsplash)

Felipe Magalhães Francisco*

Em muitos círculos cristãos, é muito comum percebermos uma certa romantização do trabalho apostólico de Paulo. Não há dúvidas, porém, de que o último dos apóstolos teve uma importância fundamental para o cristianismo nascente. Colocá-lo como uma das colunas da Igreja de Cristo, simbolicamente, não é nenhum exagero. Comumente, Paulo é valorizado por seu trabalho de expansão do cristianismo. Foi, sobretudo por ele, que o anúncio de Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador, chegou aos não judeus. Mas há outro elemento com ainda mais significado: Paulo foi o primeiro a se dedicar à sistematização da fé cristã, de modo que não há nenhuma teologia cristã que não precise dialogar com o primeiro dos teólogos cristãos.

Voltando ao início, pois: a atuação incomum e louvável de Paulo não deve nos levar a uma romantização de seu trabalho. Sua missão encontrou muitos desafios e conflitos, que colocava em questão a própria fé cristã. Basta um pouco de atenção à Primeira Carta aos Coríntios, ou à Carta aos Gálatas, por exemplo. Paulo tinha uma consciência, a partir da qual precisou se apegar: seu apostolado não nasceu de si mesmo, mas da própria revelação de Deus, em Jesus Cristo Ressuscitado. Revelação e apostolado, pois, para Paulo, constituem uma unidade inseparável. Colocar, pois, em questão sua autoridade não era um ataque pessoal à figura do apóstolo, mas ao próprio Evangelho que ele anunciava.

O mesmo pode ser dito a respeito do próprio Jesus. Muitas vezes, com uma leitura pouco atenta dos evangelhos, somos levados a acreditar que Jesus foi uma unanimidade entre as pessoas de seu tempo e que apenas os poderosos da religião judaica fizeram oposição a ele. Mas não! O evangelista João é um dos que nos alertam que a excitação das multidões com a novidade trazida por Jesus, sobretudo com o sinal da multiplicação dos pães, foi passageira. Até mesmo pessoas que estavam no círculo mais próximo de Jesus, muitos de seus discípulos, abandonaram-no: “essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?” (Jo 6,60).

Se nos atentarmos tanto para as dificuldades da missão de Jesus – em alguns lugares, não encontrou fé, por exemplo, para que pudesse atuar! (Mt 13,58) –, bem como para as que enfrentou Paulo, perceberemos que a fé cristã é, necessariamente, sinal de contradição. Se é, portanto, sinal de contradição, não é possível vivê-la de modo conciliador. Explico-me: a opção pelo Reino de Deus exige uma tomada de posição, de modo que não é possível se dizer discípulo ou discípula do Reino e se conformar com os sinais do anti-Reino presentes e tão atuantes no mundo. Se o Deus de Jesus Cristo é um Deus que toma partido a favor da verdadeira justiça que rompe com qualquer opressão ou indignificação da vida, logo os que professam a fé nesse Deus também precisam se partidarizar.

A fé cristã, porque comprometida radicalmente com o Evangelho da justiça, não é uma fé soft. Ela precisa nos desinstalar e, por isso, ela nos coloca em confronto com as forças injustas do mundo. Comungar é tornar-se um perigo, o que só confirma a autenticidade de nosso comprometimento com o Evangelho. É esse comprometimento o que conta, para o “vinde, benditos de meu Pai” (Mt 25,34). Comprometermo-nos, com uma posição que se ilumina com a verdade do Evangelho de Jesus, é uma proposta que se abre cotidianamente na vida dos que se pretendem discípulos e discípulas. Jesus não fugiu do confronto, ele que veio para trazer a espada que divide a falsa paz (Mt 10,34); Paulo não fugiu do confronto, envergonhando-se do Evangelho (Rm 1,16). E nós, pois?

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

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