Religião

11/11/2019 | domtotal.com

Por trás da imagem de santidade, congregação abusava de integrantes

Caso de abusos em comunidade nova da Argentina exemplifica o domínio de líderes religiosos

Agustin Rosa é acusado de abusos sexuais e de receber dinheiro do tráfico de drogas
Agustin Rosa é acusado de abusos sexuais e de receber dinheiro do tráfico de drogas (Todo Noticias)

Elise Harris*
Crux

Quando Chrystian Contreras Javier Gomez entrou na congregação dos Hermanos Discípulos de Jesus de San Juan Bautista, na Argentina, aos 15 anos, pensou estar caminhando entre gigantes espirituais cuja vida de oração contemplativa alimentava o serviço heroico aos pobres.

Contudo, não demorou muito para descobrir que havia mais pecadores do que santos atrás dos muros da comunidade. Nos primeiros três anos na ordem, Contreras foi abusado sexualmente pelo fundador e depois estuprado por um diácono pertencente à comunidade. Depois de sair, tentou fazer uma denúncia em uma instituição civil contra os dois, mas desistiu depois de ser humilhado na delegacia. Ele finalmente fez uma queixa canônica, mas, quase um ano depois, não ouviu mais nada sobre isso.

A ordem agora foi suprimida e, atualmente, o fundador e outro membro proeminente estão enfrentando acusações criminais de suposto abuso sexual de duas outras vítimas. Contudo, Contreras ainda não tem ideia do status do seu caso, onde está o estuprador ou se esse homem está ainda no ministério eclesial.

A história de Contreras não é a única. E embora a supressão de sua ordem possa parecer uma vitória para si e para outras vítimas, o caos que se seguiu pode ser um caso clássico de "tenha cuidado com o que deseja".

Desde o início dos escândalos de abuso clerical, certos grupos dentro da Igreja ficaram tão atolados em crises e tão identificados com seus fundadores desonrados, que gritos persistentes surgem insistindo que toda a organização está contaminada e deve ser suprimida.

Essa demanda ainda pode ser ouvida em relação aos Legionários de Cristo, fundada pelo falecido padre mexicano Marcial Maciel Degollado, por exemplo, e pela congregação Sodalitium Christianae Vitae fundada pelo leigo peruano Luis Fernando Figari.

O que poucos parecem considerar em tais circunstâncias é o que acontece no dia seguinte à emissão de uma ordem de supressão. A situação enfrentada pelos Irmãos Discípulos de Jesus de São João Batista, na Argentina, só confirma o problema, porque foi suprimida em meio a uma série de escândalos de abuso – e o que se seguiu talvez fosse mais bem descrito como um completo desastre.

Assim como na guerra, em outras palavras, a lição dessa ordem argentina pouco conhecida parece ser que, se você deseja suprimir alguma coisa, verifique se possui uma estratégia de saída.

Uma fundação questionável

Conhecidos nas ruas como “os Irmãos Marrons” por causa da cor dos hábitos que os membros da comunidade usavam quando saíam pedindo dinheiro e comida, a congregação foi fundada em Salta em 1996 pelo padre Agustin Rosa.

As raízes da comunidade remontam a meados dos anos 80, quando era apenas um pequeno grupo realizando reuniões em Lujan. Em 1992, os membros foram a Salta para rezar as vésperas na festa de São João Batista e o tomaram como homônimo.

Eventualmente, as mulheres queriam se juntar e um ramo feminino, as Hermanas Discípulas de Jesus de San Juan Bautista, foi formado. Em 1997, a congregação possuía quatro casas, duas para mulheres e duas para homens. Em 1998, eles se expandiram para o México e depois para diferentes províncias da Argentina: Santiago del Estero, Buenos Aires e Patagônia.

Com uma personalidade atraente e carismática e um talento especial para arrecadar fundos e atrair novas vocações, Rosa logo ajudou a congregação a se espalhar pela Espanha e pelo Chile.

Dentro da congregação, os membros viviam uma vida de oração contemplativa, mas também eram incentivados a atividades apostólicas, como retiros, organização de espetáculos de teatro e pequenos grupos em centros juvenis, organização de novenas, rosários e evangelização de porta em porta.

Muitos membros acharam a dinâmica inicialmente atraente; todavia, mais tarde descreveram como um pouco esquizofrênica e sem uma identidade clara, já que o estilo de vida não se alinhava às comunidades católicas contemplativas tradicionais.

Tal como acontece com muitas comunidades nos últimos anos, na superfície parecia uma nova ordem próspera que atraía muitos jovens para a vida religiosa, mas o que estava acontecendo sob a superfície era uma história muito diferente.

Desde o início os limites foram ultrapassados, começando com a missa de 13 de abril de 1996, celebrando a aprovação diocesana da congregação. Segundo outro ex-membro, a comunidade estava "sempre sob a lupa... eles nunca fizeram todos os processos para a aprovação diocesana". Em vez disso, ele disse, Rosa "sempre operava com influências", usando suas conexões para conseguir o que queria.

Quando obtiveram a aprovação diocesana, outorgada pelo arcebispo Moisés Julio Blanchoud, que supervisionava a arquidiocese de Salta na época, nenhuma documentação foi enviada a Roma, pois, na época, nenhuma consulta prévia com o Vaticano era necessária para o estabelecimento válido de um novo instituto religioso.

Há muito tempo há debates entre bispos e canonistas sobre se essa consulta é necessária e, em maio de 2016, o papa Francisco ofereceu uma resposta definitiva, decretando que era necessária uma consulta ao Vaticano para que qualquer novo instituto seja estabelecido.

Quando o arcebispo Mario Antonio Cargnello, que assumiu o cargo em Salta em 1999, foi a Roma em uma visita ad limina em 2008, observou-se que, embora o pedido fosse tecnicamente válido, Roma não tinha documentos da comunidade e foi solicitado que enviassem tudo. Finalmente, no final de 2009, obtiveram a aprovação formal do Vaticano.

Embora a ordem estivesse aprovada, com o passar do tempo começou a sangrar de vocações e membros, incluindo vários jovens entrando como menores e saindo alguns anos depois, contando histórias de intimidação, corrupção e abuso de todos os tipos, incluindo casos de abuso sexual em série que envolveu toque e estupro.

Uma investigação do Vaticano foi finalmente aberta em 2015, depois que várias vítimas de abuso sexual e estupro decidiram se apresentar. Ex-membros falaram da ordem como uma fossa de abusos, com mais de 100 casos de agressões e mais de 30 agressores conhecidos, muitos dos quais ainda estão no ministério, já que a maioria das vítimas não se apresentou, seja por trauma ou por medo.

Finalmente, dezenas de casos foram enviados à Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, pois envolviam padres. Em junho deste ano a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica suprimiu formalmente a ordem, encarregando o arcebispo Carlos Azpiroz Costa da Bahía Blanca de realizar essa tarefa.

Em 24 de setembro, Francisco nomeou o padre Jorge Luis Wagner como bispo auxiliar de Bahía Blanca, sem dúvida para ajudar Azpiroz Costa com os assuntos locais, enquanto investigava o fechamento da congregação.

No entanto, alguns ex-membros que apresentaram queixas iniciais disseram que demorou um tempo para serem ouvidos, pois os funcionários da Igreja em Salta, incluindo alguns que trabalham no tribunal eclesiástico, não os escutaram e rejeitaram suas reivindicações, que foram finalmente bem-vindas pelo bispo Óscar Vicente Ojea Quintana, de San Isidro, e presidente da conferência episcopal argentina.

Três ex-membros da comunidade – Valeria Zarza, Yair Gyurkovitz e uma terceira pessoa que optou por permanecer anônima – denunciaram às autoridades civis alegações de abuso sexual envolvendo Rosa e outro membro importante da ordem, Nicolas Parma, conhecido na comunidade pelo nome religioso de "padre Felipe".

Os dois foram formalmente acusados em Salta em 2016 por suposto abuso sexual e estupro de menores. Em 2018, o caso de Parma foi transferido para Santa Cruz, pois foi onde o abuso aconteceu. Em junho, o promotor da cidade decidiu que o caso de Parma, com duas denúncias de suposto abuso sexual e corrupção de menores, seria levado a julgamento, mas a data ainda não foi definida.

O próprio Rosa está enfrentando três acusações civis e cerca de 25 queixas canônicas sobre suposta má conduta sexual e abuso na comunidade.

Parma está atualmente na prisão. No entanto, Rosa, embora tecnicamente condenado a prisão domiciliar enquanto seu caso avança, pode ser visto andando pelas ruas de Salta livremente. Fontes próximas ao caso disseram que Rosa deveria ser preso, mas seus advogados subornaram os juízes para tirá-lo de trás das grades. Em junho, foi autorizado a deixar a província duas vezes: uma vez para visitar outra área da Argentina e outra para uma visita fora do país à Espanha.

As repetidas tentativas do site Crux de entrar em contato com a representação legal de Rosa e Parma foram infrutíferas. Em agosto, foram divulgados relatórios na mídia argentina ligando a comunidade ao famoso narcotraficante mexicano "El Chapo".

Embora essas alegações não tenham sido verificadas, vários ex-membros da comunidade relataram ao Crux vários casos em que foram solicitados a transportar grandes somas de dinheiro, às vezes no valor de US$ 20 mil, do México à Argentina. Eles receberam o dinheiro nos aeroportos antes de voar e foram informados de que vinha de doações, mas não havia rastro mostrando sua procedência.

Embora o ramo masculino da comunidade tenha sido fechado em junho, o ramo feminino ainda está aberto, apesar das alegações de abuso psicológico e sexual dentro de suas fileiras. Uma ex-freira da ordem, Alicia Pacheco, também está enfrentando acusações civis por supostamente abusar sexualmente de uma menina de 13 anos.

No entanto, ex-integrantes do ramo das mulheres também disseram que algumas irmãs estavam sujeitas a abusos da comunidade masculina e, às vezes, esperava-se que satisfizessem os pedidos dos benfeitores em prol da comunidade.

Para muitas vítimas e ex-membros, a supressão da ordem dos homens foi uma notícia muito bem-vinda, mas, em termos do que acontece a seguir, as respostas ainda são nebulosas enquanto lutam para pegar os pedaços de vidas destruídas e sonhos desfeitos.


Publicado originalmente por Crux.


Tradução: Ramón Lara

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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