Religião

15/11/2019 | domtotal.com

Questões sobre fé, democracia e república

Fundamentalismo perverte o mote bíblico de que 'Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor'

Diante de uma bíblia, o líder opositor Luis Fernando Camacho (ao centro) se ajoelhou no Palácio Quemado
Diante de uma bíblia, o líder opositor Luis Fernando Camacho (ao centro) se ajoelhou no Palácio Quemado (Reprodução)

Fabrício Veliq*

É notório aumento do apelo religioso e uso do texto bíblico para justificar posturas não democráticas, que abalam qualquer república desejosa de ser realmente laica, nos dias de hoje. O crescimento do neopentecostalismo na América Latina e em países africanos, bem como sua interferência nos processos democráticos, são questões que durante muito tempo não foram observadas por cientistas políticos, religiólogos e teólogos contemporâneos. Sempre visto como marginal, charlatão, esse movimento pregador da teologia da prosperidade foi ignorado pelas diversas teologias do sul continental.

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No entanto, o neopentecostalismo, iniciado por volta da década de 1970 em solo brasileiro, tem se espalhado. É o movimento que mais cresce no país. Como consequência, acaba penetrando nos mais diversos setores da sociedade, como empresas, escolas e (mais perigosamente) política.

Sob a égide da leitura fundamentalista da bíblia, descontextualizando totalmente os textos sagrados, afirma-se que o país somente será transformado quando todos se converterem ao cristianismo e seguirem as escrituras como regra de conduta. Como esse tipo de pensamento encontra fácil capilaridade nas comunidades mais pobres, bem como nos segmentos político, legislativo e judiciário, o que se tem é um atentado à laicidade da República e do Estado democrático de direito. No lugar disso, entra uma espécie de teocracia capitalizada, na qual o dinheiro arrecadado pelas igrejas enriquece seus líderes, aumentando sua influência junto às esferas decisórias do país.

Dada essa capilaridade, não é de se espantar que os golpes de Estado que acontecem atualmente na América Latina sejam de caráter jurídico, como no caso brasileiro, ou à moda antiga, como no caso dos militares exigindo a saída do presidente boliviano. Em todos os casos, a bíblia serve de escudo. A cena dos que deram o golpe na Bolívia, ajoelhados sobre a bandeira e com a Bíblia aberta sobre ela é bastante emblemática. Mostra como os golpes atuais encontram na leitura fundamentalista, própria dos movimentos pentecostais e neopentecostais, sua base de apoio para justificar a tomada de poder e minar as questões republicanas.

O versículo preferido, como sempre, é o do Salmo 33,12 que afirma: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”. Como é de praxe no fundamentalismo, tira-se o versículo de seu contexto para usá-lo como pretexto para pregar que essa nação sob o senhorio de Deus seria aquela de uma religião única e cristã.

O Israel bíblico, contudo, afirma que Deus é o Senhor com base na sua experiência de ser liberto por ele da escravidão do Egito, de ter visto seus grandes divinos diante das nações que o oprimia, de experimentar sua justiça e consequente refrigério em momentos conturbados e de perceber a presença divina junto dos que precisavam. A nação que tem Deus como Senhor é feliz porque nela reina a justiça e a misericórdia que livra as almas da morte e conserva as pessoas famintas com vida, como afirma o mesmo salmo em seu versículo 19.

Da mesma forma, a partir de Jesus Cristo, a nação cujo Deus é o Senhor não é aquela que tem um regime teocrático. Muito pelo contrário, seria a nação na qual os princípios do Evangelho podem ser percebidos. Ou seja, aquela que dá de comer ao faminto, que veste os nus, que olha para o pobre e luta para que essa sua condição tenha fim. Lugar onde haja igualdade social, de maneira a proporcionar condições dignas para todos.

O uso incorreto do texto bíblico, muitas vezes de maneira leviana, tem levado ao enfraquecimento da laicidade do Estado democrático de direito e dos princípios republicanos há tanto conquistados na América Latina, ainda que a duras penas. Compreender o neopentecostalismo e mostrar seu plano de poder, então, torna-se uma tarefa imprescindível nos dias atuais. Objetiva-se com isso que o país não caminhe para uma teocracia cujo deus não é o Pai de Jesus Cristo, mas o deus Mercado que, assim como Moloque, devora seus filhos e filhas.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com

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