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13/11/2019 | domtotal.com

Antes e depois do cisco

Só escuto certezas e não sei de nada

Agora, acaricio meu ventre para me acostumar com o fato de ser mãe
Agora, acaricio meu ventre para me acostumar com o fato de ser mãe (Pixabay)

Pablo Pires Fernandes*

Saltei do ônibus e, logo nos primeiros passos do trajeto de todo dia, a ventania veio forte. As nuvens corriam para os lados do Barreiro e, com medo da chuva iminente, apressei o passo. “Foi o cisco no olho esquerdo, foi naquele momento”, refleti, meses depois, tentando precisar o instante em que tudo em minha vida havia mudado de maneira definitiva.

Recostada na cama, senti o olho esquerdo coçar e o esfreguei num reflexo. Repassei mentalmente os sinais antes de cisco, me fazer encolher, soltar um palavrão em voz alta no meio da rua e ter a certeza de que estava grávida.

A parte dos exames foi normal. Apesar da apreensão e de minhas pernas tremerem antes de ler o resultado, no íntimo, eu sabia desde a ventania da tarde do cisco. Com o papel nas mãos trêmulas, chorei sem entender o que sentia. Um misto de medo e de felicidade. Soube, então que, definitivamente, seria um futuro bem diferente.

Minha condição qualquer um pode ver, a forma do meu corpo mudou. E não apenas o corpo. Fico impaciente quando sou obrigada a ouvir tantas opiniões. Por mais que as intenções sejam as melhores, sinto-me exaurida de tantos conselhos. Todas as pessoas têm orientações, dicas e palpites. Que devo comer verdura e legumes, que não devo comer verduras e sim, carne. Falam-me sem parar o que devo fazer e não fazer em hipótese alguma. Que preciso fazer exercícios, que não posso fazer exercícios, que não devo me estressar, mas eles mal fazem ideia que são essas frases a parte mais estressante.

Só escuto certezas e não sei de nada. Nem de mim e menos ainda da filha que carrego aqui dentro. Só tenho dúvidas e me percebo diferente. Tem vezes, há umas semanas, eu estava com os nervos à flor da pele, mas de um jeito irritadiço. Qualquer coisa me fazia perder o prumo. Mesmo as situações mais cotidianas me davam ímpetos de esganar as pessoas. Depois me sentia culpada e ficava deprimida. Achava que o mundo, as coisas externas, tudo ameaçava minha condição.

Após umas semanas, passei a perceber tudo de um jeito engraçado. Ria sem querer sobre um comentário infeliz e trágico do motorista do Uber ou quando minha mãe me pedia para guardar os sapatos no armário, para dormir na hora certa, para arrumar a cama e não sei mais as necessidades de mãe, os cuidados e a carência que demanda de mim. O que será de mim e da minha filha?

Não sei. Apenas percebo movimentos involuntários dentro de mim. Às vezes me sinto tonta e acho que vou cair. Só que me vem, nessas horas, uma força de não sei de onde e não me deixa cair. Agora, acaricio meu ventre para me acostumar com o fato de ser mãe. Seis meses e meu corpo ainda me parece estranho.

Outro dia, eu andava na rua, as árvores estavam floridas. O vento bagunçou meus cabelos e um cisco me fez encolher mais uma vez. Verde, o semáforo me fez esperar e assistir aos carros e ônibus e todo o trânsito da Avenida Amazonas passar diante da minha barriga. Não eu, a outra pessoa era quem importava.

Cruzei a avenida feliz e determinada à entrega, sabia ser incondicional. Uma semente precisa ser regada, no caso, Brigite, este cisco aqui dentro.


** Este texto é dedicado a Cássia Maia.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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