Cultura TV

13/11/2019 | domtotal.com

Primeiros passos da Apple TV+

Para cada grande sucesso da empresa, sempre houve um fracasso à altura

Como tudo na trajetória da Apple, seu serviço de streaming segue o mesmo padrão
Como tudo na trajetória da Apple, seu serviço de streaming segue o mesmo padrão (AFP)

Alexis Parrot*

Novembro chegou e, conforme o previsto, o acirramento da guerra do streaming, com a estreia da Apple TV+. O serviço por assinatura de conteúdos audiovisuais da dona do Mac entra em campo com grandes planos para disputar a preferência do público global com o já estabelecido Amazon Prime e com o pioneiro Netflix.

Na primeira semana no ar, poucos títulos foram oferecidos; um contraponto interessante ao dilúvio de séries, programas e filmes do catálogo monstruoso do Netflix. Com um lançamento tão planejado durante tanto tempo e a decisão pela inauguração enxuta, causa espanto que, na prática, o negócio todo tenha sido um tanto decepcionante.

Quatro séries de produção própria foram colocadas à disposição no dia primeiro de novembro em uma estratégia de lançamento única. Apenas os três primeiros episódios de três das quatro estreias foram colocados à disposição dos assinante, um misto das práticas do streaming com a televisão tradicional.

A lógica é interessante: ao contrário dos concorrentes que estreiam temporadas inteiras de uma vez, o novo serviço resolveu nos dar neste primeiro momento uma amostra grátis estendida (três episódios) para que, aí sim, voltemos semanalmente, sedentos por mais uma dose do veneno - como sempre foi o hábito de exibição de séries na televisão aberta e a cabo.

Se não tenho muitas temporadas de muitos programas para exibir, vou fidelizar o assinante ao obrigá-lo a voltar para ver mais um episódio de sua série favorita toda sexta-feira. A oferta de só uma semana gratuita de assinatura (diferente do mês inicial sem custo do Netflix e Amazon) segue esta cadência. Pelo menos no início, só voltaremos à plataforma pontualmente, com destino certo e sem a perda de tempo da navegação ininterrupta e eterna, buscando a esmo o que assistir.

Mas, e se não tivermos uma série favorita? E se o que estiver na vitrine não for tão animador assim? Talvez a primeira aposta de programação da Apple TV+ não tenha sido tão feliz quanto deveria.

A série pós-apocalíptica See é uma bobagem total, onde pouco ou nada se salva. Após um vírus cegar todas as pessoas, a humanidade vive um repeteco da era medieval, habitando os escombros do que foi a vida na terra.

Sua premissa é uma mistura abilolada de alguns grande sucessos: Ensaio sobre a cegueira (sem alegoria ou a inspiração de Saramago) com Game of thrones e The walking dead. Com tantos elementos na mistura, já não é nem uma cruza, mas uma encruzilhada.

Jason Momoa interpreta (?) uma espécie de primo pobre do memorável Khal Drogo de GOT, o líder de uma tribo da floresta, os Alkenny, batizado com o ridículo nome de Baba Voss. Lá na série do Tyrion, você ter casas familiares com cores e brasões de armas faz todo o sentido; afinal, trata-se de uma história passada em tempos imemoriais em um continente distante.

Mas em um cenário pós-apocalíptico, qual o sentido dos moradores de Barbacena, por exemplo, deixarem para trás seus sobrenomes ou o gentílico da cidade e passarem a se chamar de Alkenny e entoarem cantos em línguas desconhecidas dignas do fenômeno do dia de Pentecostes?

Ou ainda, pergunto-me: em uma sociedade que se veste de peles e andrajos e à semelhança de cavaleiros medievais, mesmo estando séculos à nossa frente no tempo, onde se encaixa a presença de uma pilha de pneus novos em folha no meio do nada, em uma clareira desmatada à beira de um lago intocado pelo homem?

O cenário, aliás, também não ajuda. As florestas de pinheiros da Vancouver Island no Canadá não trazem o peso que as falésias e campos da Irlanda ou as montanhas rochosas da Bósnia com seus castelos e penhascos imprimiram a GOT. Como acreditar que a história se passa no futuro, quando temos a impressão que Daniel Boone pode surgir a qualquer momento?

Isso sem falar no aberrante mau gosto da desnecessária cena do primeiro episódio em que a rainha má (seguindo uma tradição óbvia, onde a mais recente afiliada foi a nada óbvia Cersei Lannister) reza enquanto se masturba. Para se ter uma ideia, o negócio todo é tão ruim que o ponto alto do programa até agora foi o áudio vazado no terceiro episódio do vendedor ambulante anunciando Skol latão na versão dublada em português. Um primor de incompetência e descuido que insere See, automaticamente, nas melhores antologias de gafes da história da televisão.

Passemos para For all mankind. A série levanta um interessante "e se...?" ao imaginar que a corrida espacial não foi interrompida após a chegada do homem à lua. Mas o interessante fica por aí. Além de ser chata como os terraplanistas acreditam ser nosso planeta, incorre em alguns clichês aqui e ali, injustificáveis em se tratando de produto tão ambicioso.

O segmento que se passa no México no primeiro episódio, apresentando uma menina que certamente vai acabar parando nos corredores da NASA em algum momento, é todo folclórico e até preconceituoso. A cena da família reunida em frente à TV para assistir o homem pisando na lua pela primeira vez ao som do violão de mariachis reduz toda a cultura do país a um clichê, como se todo dia fosse uma eterna festa de quinceañera na casa de todos os mexicanos.

O programa vem corroborar a impossibilidade de se traduzir bem para o audiovisual a saga real de astronautas e da conquista do espaço. Apesar do material ser fascinante, tanto na telona quanto na telinha, o resultado é sempre frustrante - como em Apollo XI, onde a frase "Houston, we've got a problem" é muito maior que o filme. As duas exceções (que confirmam a regra) são Os eleitos, o épico dirigido por Philip Kaufman, baseado no livro de Tom Wolfe; e Caubóis do espaço, um filme menor mas delicioso de Clint Eastwood.  

 Dickinson não é má - mas também não é boa. A fabulação da vida de adolescente da poeta Emily Dickinson nos EUA da primeira metade do século XIX pode até inspirar as meninas e moças do nosso tempo; recheada que é com discussões (rasas) sobre feminismo e ritos de passagem, mas não contempla o público adulto ou mesmo qualquer público um pouco mais exigente.

Os anacronismos no palavreado e na trilha sonora buscam fisgar a audiência jovem, ao mesmo tempo em que denotam condescendência. Acabam redundando em truque barato de mafuá de beira de estrada, completamente dispensável se a coisa fosse mesmo bem feita. Se servir para que mais gente se interesse e leia os poemas da autora, terá cumprido um papel importante, ainda que a série esteja longe de estar à altura de sua obra - o que é uma lástima.

Chegamos, finalmente, a The morning show, o carro chefe entre as produções deste primeiro round de apresentação da Apple TV+. Elenco estelar (Jennifer Aniston, Reese Whiterspoon e Steve Carell), orçamento milionário (300 milhões de dólares) e uma diretora que entende do riscado à frente da equipe (Mimi Leder, de O pacificador e Impacto profundo) serviram para abrilhantar uma história que de fato merece ser contada e fala muito sobre o tempo em que vivemos - e sob diferentes pontos de vista, o que é bem audacioso e inovador.

Os bastidores de um programa de televisão matinal diário são a desculpa para uma profunda reflexão sobre a ética. A queda de um poderoso apresentador de TV acusado de assédio sexual dá o pontapé inicial nesta fábula que, ao menos por enquanto, parece não pretender instaurar uma moral da história. Aguardo a série andar mais alguns episódios para escrever exclusivamente sobre ela, mas adianto: este é um programa cheio de qualidades e que merece ser visto.

Como tudo na trajetória da Apple, seu serviço de streaming segue o mesmo padrão. Para cada grande sucesso da empresa, sempre houve um fracasso à altura. Pensando assim, See, For all mankind e Dickinson são correlatos dos flops Lisa e Newton, equipamentos que Steve Jobs se arrependeu de ter desenvolvido e lançado. Já The morning show é o Mac, o iPod, o iPad e o iPhone; todos juntos no mesmo pacote. Lado a lado com Years and years, da HBO, é a melhor série do ano.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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