Religião

14/11/2019 | domtotal.com

Por Cristo, com Cristo e em Cristo

Jesus é vulnerável ao sofrimento do outro, 'comove-se', transgrede regras sagradas por compaixão

A cruz é o símbolo maior do protesto de Deus contra estruturas sociais baseadas na violência
A cruz é o símbolo maior do protesto de Deus contra estruturas sociais baseadas na violência (Marcio Chagas/ Unsplash)

Élio Gasda*

O cristianismo surgiu do mistério de um Deus encarnado, traído, torturado e crucificado. Jesus também viveu tempos sombrios. Cristo é o evento divino mais impactante da história. A nomeação de Deus como Pai-Filho-Espírito é fruto da experiência de Cristo crucificado-ressuscitado de uma comunidade de fé. Ser cristão é seguir Alguém que esteve cheio do “Espírito Santo de Deus”. É deixar-se conduzir pelo mesmo Espírito que movia Jesus.

A pessoa de Jesus Cristo é o eixo da experiência cristã de Deus. Dinamiza e dá sentido às ações, desperta e alimenta as convicções. A chave de compreensão da ética de Jesus deve ser buscada na categoria Reino de Deus: “Buscai em primeiro lugar o Reino e a sua justiça” (Mt 6,33). O Reino não é abstração ou puramente celestial, mas uma realidade oposta aos mecanismos, sistemas e estruturas históricas desumanas. Os assuntos do Reino somente podem ser abordados a partir da realidade humana. A ética de Jesus exige apaixonar-se pelo Reino. As paixões significam um impulso de vida diante daquilo que nos atrai ou nos repulsa. Os apaixonados desassossegam, contagiam, criam conflitos, porque a paixão não conhece limites.

“Deus é amor” (1Jo 4, 8). Conhecemos o amor de Deus na Sagrada Escritura. Primeiro na criação. Depois em Jesus, nossa experiência do amor de Deus. Crescido em Nazaré, no ambiente humilde e entre os simples, amadureceu na paixão pelo Pai e pelo povo, compartilhando suas alegrias, suas dores, suas esperanças. Jesus é vulnerável ao sofrimento do outro, “comove-se”, transgrede regras sagradas por compaixão. Ele não tem vergonha de chorar, consola quem chora, contagia com suas palavras. Mas Jesus também se comove em indignação, sobretudo diante da injustiça e da hipocrisia. A ira é a energia que coloca em palavras e gestos para vencer a dureza e a mediocridade. É cólera divina que defende os interesses do Pai.

No Reino do Pai, o outro é critério maior do ser e do agir de Jesus. Jesus não apenas percebe a presença do próximo e capta suas necessidades, mas coloca-se no seu lugar. Ele percebe o outro na plenitude de sua dignidade, dos seus direitos e de suas diferenças. Seu Jesus se expressa no poder-serviço: “... o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida pelo resgate de muitos” (Mt 20,28).

O ato de curar em dia de sábado foi o estopim do complô para matá-lo (Mc 3,6). Para Jesus, nenhuma instituição milenar é mais valiosa que a dignidade de uma só pessoa. O filósofo Kant dizia que a decisão ética é fruto de uma resposta à pergunta: Que devo fazer em uma situação concreta? Ou: Quem eu quero ser a partir desta decisão? Há momentos em que a pessoa tem a oportunidade de tomar uma decisão que revela todo seu caráter e compromete toda a existência. São gestos de enorme densidade humana, a pessoa se revela totalmente diante do apelo do rosto sofrido do outro. A atitude de Jesus surpreende, provoca, escandaliza. Mas a ética somente poder nascer deste face-a-face com o outro que me afeta, inquieta e exige uma palavra que ninguém pode dar em meu lugar.

O rosto é a prova da existência divina do Outro absoluto. O outro vem “do alto” porque transcende minha compreensão. Nisto se anuncia sua dignidade divina. Jesus, tocado pela paixão, pela dor do povo, passa da compaixão à sua própria paixão e sofrimentos de toda ordem, e termina por sentir na sua carne a dor mais cruel. Jesus viveu radicalmente sua humanidade e revelou sua filiação divina. Era coerente entre o que dizia e o que fazia. Sendo para o Pai, podia ser para os outros. Ele se contrapôs à lógica das instituições ao colocar os discriminados e os pobres em primeiro lugar, ao anunciar a salvação aos pecadores, devolver a saúde aos enfermos, dar de comer aos famintos, defender as mulheres e as crianças.

Dedicou sua vida combatendo as forças da morte, as injustiças, a fome, a violência. Tendo como único critério o amor ao próximo, era profundamente livre diante da lei, das autoridades, da religião e dos costumes. Sendo para o Pai, podia ser para os outros. As pessoas vêm primeiro. A morte foi consequência da sua maneira de viver. Não se enquadrava na ordem. Era um subversivo (Lc 23,2), um perigo real aos poderosos.

Ser cristão é ser um novo Cristo, ter a mesma compaixão de Jesus, deixar-se tocar pela dor e pelo amor que moveram o coração de Jesus. Quem é incapaz de sofrer também é incapaz de amar. O coração de Deus está voltado para os abandonados. Sua cruz está presente em cada uma das cruzes suportadas diariamente pelos rejeitados. Todos os dramas e tragédias humanas giram em torno da cruz de Cristo. A cruz é o símbolo maior do protesto de Deus contra estruturas sociais baseadas na violência. Quando um cristão relativiza o sofrimento do irmão, já deixou de ser cristão.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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